Yannick se inspira em anime e mangá em EP “Também Conhecido Como Afro Samurai”

Yannick se inspira em anime e mangá em EP “Também Conhecido Como Afro Samurai”

13 de fevereiro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

No melhor estilo punk rock, Yannick Hara começou sua carreira no hip hop lançando seus singles no formato “faça você mesmo”, com produção caseira e muita alma. Gravados em home studio, estes sons foram o embrião para seu primeiro EP, “Também Conhecido Como Afro Samurai”, lançado no ano passado e inspirado pelo mangá e anime Afro Samurai, criado por Takashi Okazaki e publicado inicialmente na revista Nou Nou Hau. Influenciado pela soul music e blaxploitation, o autor conta a história de um samurai negro em um Japão feudal pós-apocalíptico.

“Com a ajuda de Rodrigo Furlani e Norberto Filho, donos da Live Station, consegui reorganizar o EP, realinhar produção das músicas com os beatmakers Paulo Junior e Everton Beatmaker. Convidei outros artistas como a Paula Malvar do Vó Tereza, Zorack e Venom do Ascendência Mista. Petrus (ODB) e Dieguito da Vivendo do Ócio e tudo foi fluindo”, explica o rapper.

Conversei com ele sobre sua carreira, a cena independente, sua proximidade com o rock, a inspiração em anime, mangá e cinema e muito mais:

– Como você começou sua carreira?

Comecei em 2010, lançando singles no melhor estilo “faça você mesmo” e “com aquilo que se tem”. Foram singles com uma produção bem precária, eram músicas falando sobre o que eu passava naquele momento.

– E quais foram esses singles? Gravou em casa mesmo?

Gravei em um home studio de um amigo, gravei as músicas “Quem é Você Me Responda Quem Sou Eu”, “Me Chame de Yannick”, “Kaya” e “Por Que Tão Sério”, entre outras.

– Quais as suas maiores influências pro seu trabalho musical?

Meus amigos são as minhas maiores influências. Gosto muito de Medulla, Vivendo do Ócio, Vó Tereza, Ascendência Mista, Kamau, Rincon Sapiência, Molodoys. Mas também gosto muito de Tricky, Benjamin Constantine, Seal, entre outros. Me influencio muito, com muitas vertentes musicais.

– E como rolou o primeiro disco, “Também Conhecido como Afro Samurai”?

Desde 2010 eu tenho esse projeto em mente, porém procrastinei tanto que quase desisti. Quando conheci o Raony e o Keops do Medulla em 2015, conversamos muito sobre esse conceito anime. Eles me apoiaram muito a fazer esse disco, mesmo porque eu já tinha soltado duas faixas desse EP no Soundcloud. A partir daí coloquei ação no plano, e com a ajuda de Rodrigo Furlani e Norberto Filho, donos da Live Station, consegui reorganizar o EP, realinhar produção das músicas com os beatmakers Paulo Junior e Everton Beatmaker. Convidei outros artistas como a Paula Malvar do Vó Tereza, Zorack e Venom do Ascendência Mista. Petrus (ODB) e Dieguito da Vivendo do Ócio e tudo foi fluindo. E em 2016 consegui gravar e lançar esse EP. Planejamos a data que foi 3 de setembro, aniversário da minha irmã, e realizamos anteriormente em agosto o pré-lançamento do EP e até o momento fizemos 15 apresentações.

– Você falou que se inspirou por animes. O que mais de filmes, desenhos e séries te inspira?

Busco muita inspirações em filmes e desenhos, séries eu gosto de assistir, porém não busco inspirações neles. Os filmes dos anos 80 e 90 são muito visionários, estou planejando para o final de 2017 um EP com duas músicas baseadas no Blade Runner.

Yannick Hara

– Então você tem um pouco dessa pegada ópera-rock, ou no caso, ópera-rap.

Sim, gosto muito dessa atmosfera do canto lírico, da ópera, das trilhas de filmes, isso realmente me inspira e é daí que tiro as ideias para enviá-las aos beatmakers e montar as músicas que quero.

– Você tem muita parceria também com o mundo do rock, tanto nas participações no disco quanto nos shows, chegando a trabalhar em eventos junto de bandas de rock. O que você acha da relação do rock e do rap e do rap tomando o lugar do rock nas paradas jovens hoje em dia?

Eu amo o rock, comecei ouvindo rock dos anos 90 com o meu irmão e ouço até hoje. Ambos os gêneros já caminham juntos há muito tempo e essa separação e disputa pelo público que se criou só prejudicou a música, qual é o problema em curtir os dois? Em ir em shows de rock e ir em shows de rap, pra mim não tem problema nenhum, a energia é a mesma, a emoção é a mesma pra mim. Sinceramente, essa disputa pelo público jovem só aliena o próprio jovem que um dia deixará de ser jovem, será adulto e irá lembrar desse momento musical como todos lembram quando gostavam de músicas que eram considerados “moda”. Acredito muito na união musical, quem ganha é a música.

– Qual a sua opinião sobre a cena independente brasileira hoje em dia?

A cena independente está no seu melhor momento. As bandas entenderam que elas têm que estudar a fundo todo o processo do mercado que antes ficava nas mãos das gravadoras, o artista só precisava criar, o resto quem cuidava era a gravadora. Hoje não, o artista tem que ter uma visão empreendedora, tem que estudar o mercado, conhecer de marketing, ter uma noção de assessoria de imprensa, networking, entre outras inúmeras funções. Porém, o artista precisa de uma equipe para auxiliá-lo, porque não dá pra fazer isso tudo sozinho, o poder de ação só trocou de mão, mas o processo é o mesmo.

– Como é seu processo de composição?

No caso do EP “Também Conhecido Como Afro Samurai”, eu entrei a fundo no anime, assisti mais de cem vezes toda a primeira temporada e o filme de Afro Samurai. Ouvi diversas vezes a trilha sonora gravada pelo RZA do Wu-Tang Clan e li o mangá umas 50 vezes. Sinceramente eu incorporei o personagem na forma do protagonista. Reuni os principais temas, conversei com os beatmakers e os convenci que era preciso eles também assistir ao anime e ouvir a trilha e eles assim o fizeram. Utilizei de muitas falas do anime e do mangá para escrever as letras porque eu queria que fosse fiel à obra do escritor Takashi Okazaki e, modéstia à parte, sinto muito orgulho do resultado.

– Você chegou a se apresentar de graça para moradores de rua na Praça 14 Bis, que foram retirados do local pela nova prefeitura. Qual a sua relação com a rua?

Hoje minha relação com a rua é de apenas levar a mensagem que o EP fala, que a vingança destrói o vingador, que a maldição do poder gera a cobiça, que o ódio só traz dor, que o sofrimento só gera mais sofrimento. Porém, eu falo sobre esperança, em acreditar em si mesmo, em lutar por si mesmo e falo também que o não vira sim. Estar e viver na rua não é benéfico para ninguém e só quem vive ou viveu sabe como é, é terrível.

Yannick Hara

– Quais os seus planos para 2017?

Tocar muito o EP “Também Conhecido Como Afro Samurai” e nada mais! (risos)

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Recomendo as bandas NLM Alegórica com o disco “Supersomos”, Molodoys com o disco “Tropicaos”, Vivendo do Ócio com o disco “Selva Mundo”, a banda Vó Tereza que está preparando um disco novo, ouçam a música “Se Você Vier”, Medulla com o disco “Deus e o Átomo”, os meus professores do rap Zorack, Venom e Munhoz do grupo Ascendência Mista com o disco “Produto Mentalfaturado” e o meu mano Petrus, ouçam a música “Moda”.