Um antídoto político: Pink Floyd – “Animals” (1977)

Um antídoto político: Pink Floyd – “Animals” (1977)

10 de outubro de 2018 1 Por Victor José

Às vezes algumas obras retomam a força do próprio discurso e precisam ser revisitadas. Animals” (1977) é um desses casos. Tendo em vista o que tem ocorrido nesses últimos dias, a audição dessa obra-prima do Pink Floyd se faz necessária e, para alguns que ainda não a compreenderam, imprescindível.

Em “Animals” o clima é de angústia, raiva e descontentamento. Por isso não dá pra dizer que esse seja um trabalho necessariamente prazeroso de ser escutado. Embora impecável, o som é alienante e mal humorado, que serve como base para as letras incríveis de Roger Waters, o cérebro por trás da obra.

O conceito de “Animals” está calcado no romance satírico A Revolução dos Bichos” (1945), onde o autor George Orwell descreve a pirâmide social dos animais que vivem em uma fazenda e como se dá a organização de um motim contra os seres humanos tiranos. Na verdade, essa estranha fábula narra uma história de corrupção e traição, e Orwell recorre às personalidades das espécies de animais para traçar um paralelo com as fraquezas humanas.

A ideia do autor, um social democrata assumido, era denunciar o totalitarismo de governos como o proposto pela União Soviética de Stalin. Porém, enquanto o romance concentra-se no comunismo, o álbum é um ataque direto ao capitalismo, mas é fácil perceber que o recado é endereçado a qualquer tipo de autoridade abusiva.

Na Grã-Bretanha de meados da década de 1970 havia uma forte onda de violência racial, alta inflação e desemprego, um cenário de verdadeira desilusão. O punk rock começava a emergir e posicionamento político passou a ser uma regra na cena musical, cada vez menos adepta às viagens sonoras do rock progressivo. Roger Waters viu nesse contexto uma oportunidade para destilar toda sua raivosa, porém extremamente lúcida e contestadora, visão de mundo.

A base do disco está em três personagens: “Dogs”, “Pigs” e “Sheep”. São três longas músicas retratando cada um dos personagens, além de uma faixa de abertura e outra de encerramento, “Pigs On The Wing Pts. 1 & 2”, duas pequenas e lindíssimas canções folk onde a questão da empatia é retratada.

David Gilmour realiza um trabalho excelente de vocais e guitarras em “Dogs”, talvez a melhor do disco e a que mais contém a contribuição de toda a banda para a composição. São pouco mais de 17 minutos com uma série de climas de tensão, ansiedade e remorso. Os cães seriam os opressores do cotidiano, defensores do status quo e vigilantes dessa ideia. Na visão de Waters, são os cães da sociedade aqueles que fazem de tudo para subir na vida, o pessoal da pequena burguesia (ou quem se enxerga como tal) que almeja um dia ser líder, praticando o jogo imposto pelos porcos (líderes) e coniventes com a hipocrisia desse ambiente de escalada social.

Embalado por aquela levada de bateria inconfundível de Nick Mason e a pegada blueseira de Gilmour, “Pigs (Three Different Ones)” descreve os detentores do poder totalitário, aqueles que controlam as massas. Para Waters são pessoas falsas e sem coração, que manipulam as outras classes para manter as aparências. Margareth Tatcher, ex-Primeira Ministra inglesa, é uma das pessoas citadas em “Pigs”, faixa quase sempre tocada nos shows do baixista até hoje.

Os sintetizadores e o piano elétrico de Richard Wright brilham com força em “Sheep”, outro grande clássico do Floyd. A sonoridade mais intensa e – dentro dos padrões do grupo – mais direta mostram que estavam se esforçando para repaginar a banda, superado os excessos do prog. Rebanho religioso é o foco nesta faixa. Essa personagem, a ovelha, seria um indivíduo totalmente alienado, oprimido e conformado, sem qualquer noção sobre seu próprio poder e conivente com os padrões da moral e dos bons costumes.

Havia um intenso conflito dentro do Pink Floyd mesmo antes do lançamento de “Animals”. Desde a época de Syd Barrett o equilíbrio entre sonoridade e lirismo sempre foi a força que manteve o quarteto criando grandes obras, porém a partir desse disco nota-se que a predominância da personalidade de Roger Waters nas composições começou a desestabilizar essa regra estética. Até aqui a banda funcionou como banda, daí pra frente, apesar de ainda ser bom e interessante, o Pink Floyd se tornou cada vez mais um projeto solo de Roger Waters. Somente com sua saída em meados dos anos 1980 a banda entraria na “era Gilmour” e retomaria o foco na sonoridade em si, mas sem Waters, pecava na falta de profundidade nos temas.

Mesmo sendo uma obra estranha e anticomercial, “Animals” vendeu milhões de cópias e rendeu uma turnê lucrativa. A icônica capa encomendada pelo coletivo artístico Hipgnosis – um retrato da usina termelétrica de Battersea, envolta em poluição e vigiada por um porco  que sobrevoa entre as chaminés – é uma das capas mais marcantes da música pop.

Desde sempre o LP foi considerado um bom trabalho dentro da discografia do grupo, mas nem sempre exaltado como um dos seus maiores trunfos. Somente com o passar dos anos é que o grande publicou passou a perceber que a sacada de Waters era de fato genial, pois ainda dialoga com o que se tem por aí, de modo cada vez mais explícito. E é isso que faz do rock um movimento tão importante, é isso que faz da arte algo necessário. E “Animals” é uma obra magnífica.

Qualquer coisa que eu falar aqui é muito menor que o impressionante manifesto que é esse álbum. Ouça com atenção, leia as letras, reflita e, caso não concorde, não cometa a bobagem de ir ao show desse gênio para vaiá-lo. Fique em casa sendo algum desses personagens, é melhor.

Open in Spotify