Troco em Bala, celebridades anônimas, e a meia década de “Agreste”

Troco em Bala, celebridades anônimas, e a meia década de “Agreste”

23 de novembro de 2020 0 Por Mateus Magalhães

No ano de 2015, ninguém acreditava na vitória de Trump ou na de Bolsonaro, porque o fascismo naqueles dias, apesar de já existir, ainda dava demonstrações muito tímidas do seu poder. O circuito da música independente do Brasil, àquela época, também tinha suas diferenças: os blogs ainda experimentavam a pós-vida da influência que tinham mais pro início da década, os festivais, consolidados, viviam ótima fase, e as bandas estavam só começando a ouvir falar em AdWords e em playlists do Spotify.

Foi no caldeirão daquele ano que um dos discos mais bem sucedidos do indie rock brasileiro foi lançado — “Agreste”, da Troco em Bala, que atingiu recentemente a marca de um milhão de reproduções no Spotify, números que se são difíceis para bandas como o Boogarins e o Terno Rei, são ainda mais para um grupo que conseguiu se apresentar no Festival DoSol, mas que não teve mais que alguns flertes com o Coquetel Molotov e que não passou nem perto do Lolla, do Popload e do Balaclava. A Troco não só não chegou ao circuito de festivais como também passou por um período longo de hiato pouco depois da saída da guitarrista Julia Soares do projeto, retornando às atividades apenas em janeiro deste ano, com as faixas “Auroras, Tempestades” e “É Só Você Chegar”, do “EP 2”, de pouco mais de sete minutos de duração.

Da esq. para a dir., Leonardo Acioli (que tocou com os meninos nos últimos shows), Filipe Mariz, Bruno Berle, Lucas Marques e Fellipe Pereira.

Para escrever sobre este disco de 2015, pedindo licença para falar brevemente em primeira pessoa, precisei viajar na memória até aquele ano confuso, no qual a instabilidade econômica já dava sinais de que ia derrubar o voo do Brasil — o que não impediu, é claro, que eu me divertisse horrores ao lado de Bruno Berle, Lucas Marques, Filipe Mariz e Fellipe Pereira, o quarteto que compõe a Troco em Bala hoje. Além de outros tantos amigos, com os quais produzimos dezenas de eventos, alguns discos (entre eles o do The Mozões, que completa também 5 anos, em dezembro) e bebemos incontáveis e irrecuperáveis litros de cerveja. Um dos discos deste período foi, logicamente, o “Agreste“.

Duas das músicas deste disco,Homenzinho” eQuando o sonho”, já existiam em 2013, quando a Troco lançou seu primeiro registro, o EP homônimo que conta ainda com as faixas “Liberdade” e “Mina Alternativa”. Este trabalho serviu para colocar a banda no circuito da música independente de Maceió, rendendo a ela apresentações nos dois maiores festivais da capital alagoana àquele ano, o Maionese e o Grito Rock. Entretanto, teve como maior fruto dar de herança “Homenzinho”, em versão repaginada e acompanhada de um videoclipe, ao “Agreste”, a faixa que, apesar de não abrir o disco, abriu muitas portas para a Troco em Bala, sendo até hoje a música com mais reproduções da banda em todas as plataformas de streaming.

O disco, aliás, começa brilhantemente com “Luz de Inverno”, uma canção simples, pra cima e de melodia cativante, com uma energia explosiva no arranjo. “Homenzinho”, logo na sequência, deixa o clima do álbum ainda mais pra cima, preparando-o para chegar ao auge em “Mais ou menos”, a terceira faixa. Nela, a sonoridade é diferente, com a participação da banda alagoana de acid jazz The High Club dando outra energia à música, que é uma fritação setentista com uma cara muito millenial. Lembro que, àquela época, o Bruno Berle não gostava muito dessa música, mas ela sobreviveu bem à prova do tempo e, carregada pelo instrumental ousado, não é, de longe, um ponto baixo do disco.

“Quando o Sonho”, a quarta faixa do “Agreste”, utiliza-se de uma letra poderosa e de uma agitação um pouco mais contida para fechar a primeira parte do trabalho, que, desde a primeiro audição, pode ser percebido como organizado em Lado A & Lado B, pela clara mudança de vibe que a faixa-título, instrumental, impõe ao disco. Depois dela, “O céu”, “As nuvens” e “Jasmim” apresentam o poder de composição de Berle e arranjos bem pensados, duas das grandes valências do quarteto alagoano. “As nuvens” mesmo, que também ganhou videoclipe, é, para mim, a grande pérola do álbum: com uma participação pra lá de elegante da Virgínia Guimarães, artista pernambucana que também integrou o The Mozões e até hoje nos deve um disco solo, a faixa se destaca entre as demais não apenas por isso, mas também pela sacada de samplear Devendra sem medo, pela composição cheia de sentimento e pela força dos instrumentos. “O céu”, hit um pouco mais tardio, foi no embalo de reprodução após reprodução e, durante o período de hiato da banda, tornou-se tão relevante quanto “Homenzinho” no quesito de plays nos streamings.

Essa canção, escrita por Bruno Berle e Lucas Marques, já apontava para a inevitável maturidade do projeto, a qual, durante os anos sem atividade, eu tive medo de não ver mais no palco ou em novos discos. Medo que não existe mais neste novembro de 2020.

Presentes e futuros para a Troco em Bala

O início do processo do EP 2, lançado em janeiro deste ano, começou em 2016, mas com o hiato da Troco em Bala não teve continuidade. Em 2019, as gravações foram retomadas. Para Filipe Mariz, que além de tocar guitarra e teclado produziu o “Agreste”, esse EP veio “para fechar um ciclo e ver o que vai acontecer”, mas também levou a banda até São Paulo, para uma apresentação no Breve, no dia 09 de fevereiro de 2020. Outras apresentações pela região aconteceriam, mas o avanço do coronavírus as impediu.

A banda atualmente está em estúdio cuidando da pré-produção de um novo álbum, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2021.