Trio inglês The Empty Page pede por mais sororidade em seu single “Deeply Unlovable”

Trio inglês The Empty Page pede por mais sororidade em seu single “Deeply Unlovable”

20 de abril de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Em um momento que parece que voltamos aos anos 60 e adjetivos como bela, recatada e “do lar” são impostos à mulheres como valores imprescindíveis, o trio The Empty Page, de Manchester, luta contra o auto-ódio que muitas sentem em “Deeply Unlovable”, seu mais novo single. Kelii Compulsive (baixo e vocal), Giz Themptypage (guitarra) e Jim Cattell (bateria) estão preparando o primeiro álbum do grupo, sucessor de dois trabalhos que encantaram muita gente no underground: o EP ao vivo “Ancoats Sessions” e o single “Deeply Unlovable”, com o B-Side “Patterns”.  “As mulheres são quase ensinadas a se sentirem negativamente sobre si mesmas e sua aparência desde uma idade precoce. Está implícito na mídia que a coisa mais importante é a forma como uma mulher aparenta, mas o ideal projetado é tão estreito e irreal que praticamente todo mundo tem uma imagem corporal negativa e é encorajado a se auto detestar”, explica a vocalista sobre as inspirações para o single e videoclipe.

Conversei com Kelii sobre a carreira da banda, machismo na indústria musical, rock dos anos 90 e mais:

– Vocês lançaram “Deeply Unlovable”, single que teve bastante sucesso. Podem me falar um pouco mais sobre a música? Como ela foi composta?

O nosso processo de composição geralmente começa com um monte de riffs que o Giz registra e então eu os ouço repetidamente e quando qualquer um se destaca para mim eu já trabalho em algumas ideias vocais para ele. Eu estava fazendo muita natação naquele momento e eu tinha um mp3 player à prova d’água onde eu ouvia os riffs, então a ideia do refrão veio a mim enquanto eu estava nadando, o que eu acho que é um processo de escrita muito incomum! É meio como estar em transe, não há distrações e você está apenas em seu próprio mundo… funciona para mim, de qualquer forma! Liricamente, eu tinha duas coisas em mente: em primeiro lugar, que as mulheres são quase ensinadas a se sentirem negativamente sobre si mesmas e sua aparência desde uma idade precoce. Está implícito na mídia que a coisa mais importante é a forma como uma mulher aparenta, mas o ideal projetado é tão estreito e irreal que praticamente todo mundo tem uma imagem corporal negativa e é encorajado a se auto detestar. Eu também já tinha sofrido com comportamentos decepcionantes de outras mulheres ultimamente e eu tinha ficado tão irritada, pois em vez de as mulheres se apoiarem umas às outras, algumas mulheres (certamente nem todas as mulheres) se tornam competitivas e críticas com as outras. Eu tenho um monte de grandes mulheres em minha vida e eu queria escrever uma canção sobre o porquê de nós não podermos ser TODAS excelentes umas com as outras em vez de pegar no pé. Tudo isso só aumenta a sensação de falta de amor e deixa em nós mesmas pra baixo, e é uma merda. É muito melhor ser bom!

– A música é um grito feminista. Voce acha que o machismo ainda é forte no mundo da música?

Eu gostaria de poder dizer que não, mas eu acho que ainda há muito espaço para melhorias. Até chegar a um ponto onde não existirem mais coisas tipo “garotas no rock”, mas sim os festivais (por exemplo) apresentarem uma quantidade representativa de artistas e músicas do sexo feminino, e questões como esta não precisarem ser respondidas, ainda há algum trabalho a fazer. Eu conheço um monte de artistas do sexo feminino, elas estão por aí, são talentosas e são sérias sobre tudo o que fazem. Sei também que muitas pessoas dão muito apoio, mas eu ainda sinto que, no seu conjunto, músicos do sexo feminino não são levados tão a sério, ou são tratados quase como uma novidade. Isso tudo, ‘você é muito boa, para uma menina’, ainda acontece, infelizmente, e a aparência ainda é muito mais comentada sobre garotas do que com músicos do sexo masculino. Eu apenas me concentro em escrever as melhores canções que eu puder e continuar em frente. Mulheres bem-sucedidas estão em minoria em ambos os lados, das bandas e da indústria, mas isso está melhorando, com certeza.

– Como a banda começou?

Nós três já estivemos em outras bandas e somos amigos há anos. Ficamos algum tempo em inatividade no ano passado e eu decidi que gostaria de aprender a tocar baixo pela diversão e um desafio. Então, nos reunimos para tocar alguns covers de nossas bandas favoritas dos 90s como Sonic Youth, Pumpkins, Dinosaur Jr, Veruca Salt, Pixies etc. Nos divertimos tocando juntos e eu estava me sentindo bem em tocar baixo, por isso, decidimos fazer uma jam com algumas ideias de canção que Giz e eu tínhamos começado a compor. Elas vieram com muita facilidade e antes que nos déssemos conta, tínhamos o suficiente para um set ao vivo. Nossos amigos do The Hyena Kill nos perguntaram se queríamos fazer um show com eles e nós pensamos ‘por que não’? O show lotou e o resto é história!

– Quais as suas maiores influências musicais?

Gostamos de muitos diferentes estilos musicais, mas neste momento, neste projeto em particular, estamos inclinados para a música que amávamos em nossa formação, então as influências são basicamente bandas 90s como The Pixies, Hole, Sonic Youth, Dinosaur Jr, Veruca Salt, Radiohead, My Bloody Valentine etc.

The Empty Page

– Manchester ficou conhecida por ser lar de um grupo amplo de ótimas bandas nos anos 80 e 90. Como a cena musical está por aí hoje em dia?

As bandas de Manchester nos influenciaram e a muitos outros, mas eu acho que o que é subestimado às vezes é que, quando olhamos para trás, a nossa rica herança musical é tão eclética quanto a cidade. Temos a sorte de que em qualquer mês nesta cidade podemos ir e assistir a um trio de jazz, uma banda de death metal, uma banda de punk hardcore, um superstar pop, uma ópera bufa, uma orquestra sinfônica e muitos mais, além das raves de armazém e discotecas indie. As pessoas aqui são muito abertas e entusiasmadas com todos os tipos de música. Tantos tipos diferentes de música saem de Manchester, isso é muito legal e estamos muito orgulhosos disso.

– Me contem um pouco mais sobre o material que lançaram até o momento.

Somos muito novos como banda, por isso ainda não temos muito gravado. Lançamos uma edição limitada de um EP gravado ao vivo chamado “The Ancoats Sessions”, que foi gravado em um dia em um armazém frio e congelante, em Manchester, e nós gravamos algumas músicas para lançar como single e ‘testar a água’, realmente. Estamos muito satisfeitos com as reações que recebemos por “Deeply Unlovable”, que parece ter se conectado com um monte de gente e nós tivemos um feedback extremamente positivo até agora. O próximo plano é gravar o nosso primeiro álbum, nós temos alguns planos se desdobrando e haverá mais notícias sobre isso em breve, então fiquem de olho em nossas páginas no Facebook e Twitter!

https://www.youtube.com/watch?v=odOZy0_szVY

– Como é seu processo criativo?

Como eu disse anteriormente, geralmente começamos com um riff, seja de baixo ou guitarra, e eu venho com ideias vocais ao longo do tempo e nós fazemos uma jam no quarto com a bateria e vemos o que acontece. Tentamos não pensar muito sobre o processo, nós deixamos fluir o mais fácil e naturalmente possível e trabalhamos muito bem juntos, então realmente parece bastante fácil. Uma coisa a que prestamos atenção é não deixar nada muito complicado, e nos mantemos sempre em cheque nesse assunto. Nós todos amamos grandes canções com ganchos e melodias que possam ser simplificadas até os ossos e ainda soarem ótimas. Liricamente, eu tenho toneladas de cadernos e levo um comigo em todos os momentos, eu tenho idéias em todos os lugares, conversas com amigos, trechos de conversa ouvidos, filmes, artigos de jornais, livros, eu raramente fico sem opiniões!

– Você acha que o rock pode voltar ao topo das paradas de sucesso algum dia?

O topo das paradas não é algo em que eu pense, na verdade. Grande parte da indústria da música é controlada por marcas nos dias de hoje e sempre foi muito sobre dinheiro, então ela realmente não me interessa, como eu não acho que ela representa o verdadeiro talento que existe lá fora.

The Empty Page

– Quais são os próximos passos da banda em 2016?

Pretendemos gravar o nosso primeiro álbum e fazer turnê, tanto quanto possível, em tantos lugares quanto possível.

– Recomendem bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos. Se forem independentes, melhor ainda!

Ultimamente estamos realmente curtindo algumas bandas mais recentes como Eagulls, No Joy, Cheatahs, Ringo Deathstarr, Yuck e Bully. Nós assistimos bandas pequenas e locais sempre que possível e gostamos muito de The Hyena Kill, Esper Scout, False Advertising, Eureka Machines, Heavy on the Magic… Também estamos sempre animados em descobrir novas músicas e esperamos tocar com bandas matadoras quando pegarmos estrada novamente este ano.