The Lonesome Duo preparam blues cheio de grandiosidade e storytelling em “Smokey Dawn”

The Lonesome Duo preparam blues cheio de grandiosidade e storytelling em “Smokey Dawn”

30 de agosto de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Rennan Martens (voz) e Luiz Masi (voz e violão) resolveram, em 2009, se unir para fazer música, sem nenhuma pretensão. Influenciados pela cena blues norteamericana e por performances de rua, a dupla acabou formando então o The Lonesome Duo, que bebe de fontes tradicionais do folk, música cigana, gospel, voodoo e todo o imaginário do submundo boêmio. Em 2014 lançaram “Debut”, seu primeiro disco, com 8 faixas em inglês que mostram bem todas as influências citadas, além de muita criatividade nos arranjos.

Acompanhados (ou não) pelos Lonesome Balladeers Carlos Masi (voz e guitarra), Augusto Passos (voz, baixo elétrico, baixo acústico e teclas), Pedro Penna (voz, guitarra, mandolim e banjo), Pedro Falcão (voz, bateria e percussão) e Nathanael Sousa (acordeom e teclas), a banda se apresenta também em formatos acústicos. Hoje, a banda prepara seu segundo trabalho, “Smokey Dawn”, que segundo eles será uma bela mudança em relação à estreia. Confira uma entrevista com a dupla:

– Como a banda começou?

Luiz: Acho que era 2008, nós nos reencontramos por acaso depois de uns dois anos sem nos vermos. O Rennan comentou que tinha umas músicas novas e que queria fazer uma banda. Eu também tinha algumas. Nos reunimos na minha casa, gravamos algumas coisas, dividimos algumas influências. No fim tínhamos um cover de Howlin’ Wolf (a música era “Spoonful”) e “St. James Infirmary Blues”, um folksong clássico americano, num gravador de 4 canais. E a partir daí nunca mais paramos de falar sobre a dupla.Nosso processo criativo, inclusive de pesquisa, envolvia muito o ambiente. Passávamos tardes de bar em bar, cantando, escrevendo por horas, conhecendo pessoas. foi uma época muito frutífera, quando criou-se o núcleo que acabou virando o Lonesome Duo. Daí fazíamos pequenos shows, nos apresentávamos de mesa em mesa nos bares, com os violões, cantando. Lá pra 2011 decidimos montar uma banda completa.

Rennan: E mesmo depois de dois anos sem contato, nesse reencontro (que acabou fundando o Duo) percebemos que compartilhávamos muitos aspectos de nosso gosto musical, de nosso senso estético e mesmo de nossas expectativas em relação à música.

Luiz: Pois é. Ficamos um tempão separados e quando nos reencontramos estávamos na mesma página.
E esse gosto musical era uma espécie de obsessão pelo blues e pelo folk.Pela qualidade mitológica/histórica.

– E de onde surgiu o nome The Lonesome Duo?

Rennan: Sim, e na mesma época nos aprofundávamos na criação musical de brass bands ciganas, no jazz manouche. Por fim, prometemos um ao outro que escreveríamos um disco; e que o dedicaríamos ao Vivian Stanshall, figura que muito nos inspirava.

Luiz: Acho que “Lonesome” era uma palavra que ao mesmo tempo em que traduzia um pouco das nossas músicas, estava em muitas das canções de Hank Williams, que na época era um dos nossos heróis.
“Alone”, “lonely” e “lonesome” tem significados parecidos.

Rennan: E parte de nossas músicas já existia em nossos projetos individuais, de modo que, ao nos unirmos, criamos uma dupla composta de dois trabalhos solos.

Luiz: Mas lonesome é um solitário triste, sem esperança, como eram mais ou menos essas músicas.
Exato. No começo era mais fácil distinguir que música era de cada um hoje em dia mesmo que eu escreva uma música sozinho, já tento incluir nela a cara do Rennan, pra que soe como uma música nossa. Ainda mais por termos vozes complementares.

Rennan: E personalidades complementares, de certa maneira. Sobre o nome, acho que é isso.

Luiz: Muitas vezes já escrevo uma melodia pensando em como ela se encaixaria na voz dele (que no caso é um tenor, enquanto que eu sou barítono).

– Eu sei que vocês já citaram algumas, mas me digam quais são suas maiores influências musicais!

Rennan: Individuais?

Luiz: No meu caso: Gringas: David Bowie, Paul McCartney, Tom Waits, Hank Williams, Howlin’ Wolf, Nick Drake, Viv Stanshall & Neil Innes (dos Bonzos). Nacionais: Chico, Cartola, Silvio Caldas, Francisco Alves, Nelson Gonçalves.

Rennan: De modo geral, a “Anthology of American Folk” é um importante fantasma rondando a música do Duo.

Luiz: Sim. Harry Smith, é nosso ponto principal de contato. Alan Lomax… Esses grandes pesquisadores da música folk. Acho que esse caráter mitológico da música folk e dos early blues permeia muito o nosso imaginário
Os lendários Stagger Lee, John Henry.

Rennan: Sim. A partir disso acrescentamos nossas visões pessoais. Posso estar ouvindo elementos que não fazem parte de nosso universo, por exemplo. Contudo, ensaiar, compor e tocar com o Lonesome Duo são elementos que acabam me trazendo de volta a esse ponto inicial. A música folk, o gospel, as histórias ancestrais.

Luiz: Sim. E tem esse flerte com a música cigana também, que influenciou todo o folk em dado momento da história.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Rennan: Não consigo (risos).

Luiz: Por alguns anos definimos como Blues elétrico cigano. mas já mudou tanto. Hoje em dia é uma mistura de tudo: blues, jazz, country, folk, canção…

Rennan: Fico muito contente quando fazem isso. Quando me dizem o que parece, o que lembra, o que sentem ao ouvir. É algo que não consigo fazer estando aqui, na parte de dentro.

Luiz: Eu consigo identificar os elementos que eu mesmo coloco nas composições, mas muitas vezes a visão das pessoas é diferente. Por exemplo: quando eu coloco elementos de música tradicional grega, ou alguma coisa do klezmer, e a pessoa identifica como rockabilly ou dixieland jazz.

Rennan: Particularmente gosto da ideia de que quando o trabalho está concluído ele não me pertence mais. Muitas vezes falho em reconhecer elementos. Meus, dos outros. Por isso essa dificuldade em definir. Da minha parte.

Luiz: Sim, acho que vc tem uma visão mais social da coisa, e eu mais estrutural. Uma relação, no caso.

The Lonesome Duo

– Me contem um pouco mais sobre o trabalho que vocês já lançaram!

Luiz: Então, a gente estreou com um EP de 4 músicas, gravado ao vivo no estúdio NaCena (a sessão teve 8 músicas no total). Reúne nossas canções mais antigas, do jeito que elas soavam nos shows. Além da banda tivemos a participação do Reinaldo Soares (Destemido Rei) e do Rob Ashtoffen, do Chaiss na Mala, tocando trompete e sax tenor, respectivamente. A produção ficou por conta do Nuno Bianchi e a gravação pelo João Milliet (com assistência do Tico Prates).

Luiz: Foi uma consolidação do nosso repertório autoral, que já tocávamos em shows há mais de 3 anos.
Fizemos o lançamento online com as 8 músicas, diferente do disco físico. Lançamos elas em pares, reunidas pelo tema das músicas “Recklessness & Regret”, “Sweet Medicine Mama”, “Hope & Helplessness” e “The Fortune Teller”. Lembrando agora, uma das primeiras influências do duo eram os Medicine Shows, aqueles antigos espetáculos de rua que vendem produtos milagrosos.

– Me conta mais dessa influência dos Medicine Shows. Como assim?

Luiz: Tinha muito a ver com o imaginário e com a estética os malandros, mendigos, ciganos, viajantes. Os charlatães ficavam fazendo esses pequenos shows de rua, em caravana, sobrevivendo da lábia. Era a identidade perfeita. enquanto nos apresentávamos de mesa em mesa, a gente contava um grande mito sobre nossas origens
o publico se encantava com as mentiras. Acho que aí que tá a identificação com os medicine shows. Era meio o que a gente era. Dois bêbados eloquentes, cantando sobre histórias impossíveis. Busking também, sempre foi uma coisa q me fascinou.

– Aliás, vocês tem dois formatos de banda, né? Como é isso?

Rennan: Sim. Nos apresentamos como dupla e também com a banda completa.

Luiz: Pois é. Por varias questões, mas principalmente praticidade e espaço. Muitas vezes o local não possibilita uma banda de 6 pessoas (ou 8 agora no show do novo disco) e muitas vezes o cachê não vale a pena pra ser dividido em tanta gente. E é o que fazíamos originalmente, vozes, violão.

– Qual a opinião de vocês sobre a cena independente hoje em dia?

Luiz: É ótima. fora de São Paulo vejo uma seriedade e um profissionalismo enormes. Aqui na capital o acesso é mais fácil, então tem bastante coisa, nem tudo tão redondo quanto o que eu venho ouvindo. Fortaleza, Rio de Janeiro. Só coisa incrível, no sentido de bem produzido, de sério. Eu produzo o festival Folia Profana, aos domingos na Paulista onde convido 6 bandas autorais independentes pra se apresentarem. E nessas eu tive acesso a essas bandas novas q sao do caralho e muito mais organizadas q muitas bandas daqui.

– E como é a aceitação com bandas que fogem do pop e do rock, como vocês, e entram em estilos mais “nicho”, mesmo que com qualidade?

Luiz: A aceitação é complicada, mas não em relação ao estilo. Acho que a maior barreira é a língua, as pessoas querem ouvir música em português, é uma coisa que sempre ouvimos do público. Mercadologicamente falando
as casas privilegiam as bandas de cover, então autoral e em inglês já são dois degraus pra baixo.

Rennan: Sobre a cena independente, vejo “cenas” distintas. Agrupamentos diferentes de bandas que dialogam entre si. Grandes trabalhos, excelentes produções. Vejo também uma dissonância em relação ao pensamento anterior de “mantenho-me no underground até que uma grande gravadora me descubra”. Muita gente consegue viver gerindo seu próprio material. Justamente por isso acredito que haja espaço para todos. A questão é compreender onde se deseja chegar com determinado tipo de música, informar a sua tia que dificilmente ela vai ver sua banda no Raul Gil. É preciso conhecer as partes boas e ruins de cada proposta.

Rennan: A tal discussão do “gosto popular”, sempre muito complicada.

Luiz: Sim. E a grande mídia privilegia alguns nichos mais alinhados com tendências mundiais do mercado
veste de maneira vendável alguns temas, e o resto é preterido. Depender de Raul Gil, Faustão, da grande mídia, é inviável.

Rennan: Acho que existe um importante conjunto a ser perseguido: qualidade musical, originalidade e alguma verdade. Todos esses atributos, aliados à boa divulgação, aliados a um bom trabalho de assessoria, abrem muitos caminhos.

Luiz: Sim. Se a coisa é incontestavelmente boa, o caminho é mais fácil. Porque o que foi percorrido durante a construção da banda também conta.

– Mas como isso pode ser melhorado, sem esse auxílio da grande mídia?

Luiz: Acho que a internet ajuda muito. E as pequenas rádios, os pequenos programas/emissoras locais de TV, todas tão atrás de conteúdo.

– Voltando, me fala mais sobre esse trabalho que você faz na Paulista. Como rola? Como é a recepção do público?

Luiz: Eu levo equipamento completo, desde PA até bateria, microfones, amplificadores. Combino com as bandas uma semana antes, elas ajudam na divulgação. Começa geralmente meio dia e vai até as 21h, e com 40min – 1h de som pra cada banda. Só autoral, só independente, qualquer estilo. E tudo grátis.

– E rola semanalmente?

Luiz: De 15 em 15 dias, sempre aos domingos. Agora só voltamos em setembro. Fiz uma pausa pra organizar o lançamento do disco novo. O público adora. todo mundo q assiste quer participar de algum jeito. As bandas sempre agradecem muito pelo espaço. É uma espécie de networking tb, colocar 6 bandas de vários cantos do país, se conhecendo, dividindo o mesmo palco.

– E como é a recepção do público? A Paulista junta gente de todo tipo, muitos dos quais nunca ouviram música independente e até os conservadores malucões…

Luiz: Pois é, o publico é bem variado e tem muita gente aos domingos. como as bandas são bem diferentes entre si, o publico vai mudando com o passar do tempo. Mas sempre tem aqueles que procuram coisa nova, que gostam de variedade. Desde moradores de rua até engravatados, sempre tem alguém que fica até o final.

– Quais são os próximos passos da banda?

Luiz: Estamos marcando o lançamento do disco novo. É um álbum conceitual, terminamos a gravação em abril.
as músicas são amarradas por um tema em comum, mas cada uma com um ponto de vista individual.

Rennan: Chama-se “Smokey Dawn”.

– Opa! E já está gravado?

Luiz: Sim. aqui no www.thelonesomeduo.bandcamp.com você consegue ouvir a primeira e a última música do disco. É um salto meio distante do que vínhamos escrevendo.

Rennan: Sim. O “Smokey Dawn” conta com elementos que até então jamais haviam aparecido em nossas gravações anteriores.

– Quais são essas diferenças?

Luiz: Arranjos de cordas, piano e metais… É um disco mais calmo, menos elétrico, permeado por uma certa angústia e com uma certa grandiosidade, diferente da simplicidade da gravação ao vivo. É um disco pretensioso, de storytelling.

Rennan: Trata-se de um trabalho um pouco mais sombrio, onde se fez presente a atenção ao mínimo detalhe. Há também uma preocupação com certa textura narrativa, como o Luiz mencionou.

Luiz: Não que seja um novo rumo pras nossas composições, acho que é uma obra que funciona sozinha, independente da história musical do duo.

Rennan: E tenho o pressentimento de que o álbum sempre existiu em algum lugar de nossa história, sendo 2017 o ano propício à sua gravação e divulgação.

Luiz: Sim. Algumas canções são de abril de 2017, outras de abril de 2007. É um tema, um conteúdo que nos acompanha há anos. E tivemos a chance de gravar exatamente como o disco exigia. Na primeira faixa, “She’s In My Garden” tem trechos com 5 trombones, trompetes, quarteto de cordas, piano, contrabaixo, simultaneamente.
Trabalho do Pedro Penna, que junto comigo produziu e arranjou o disco.

Rennan: O que de certa maneira se opõe ao Lonesome Duo em seu princípio: gravações caseiras, em dupla, mais simples.

– Por fim, recomendem bandas e artistas independentes que chamara sua atenção nos últimos tempos!

Luiz: Exato. Acho que “Smokey Dawn” representa o que estava dentro da cabeça daqueles dois meninos enquanto cantavam em dupla, com o violão debaixo do braço.

Rennan: E que os meninos não são mais meninos. Depois dos trinta as ressacas costumam durar mais.

Luiz: Rapaz, eu recomendo Verónica Decide Morrer. Recomendo o Murilo Sá e os amigos do Chaiss. Uma banda chamada Casa de Velho, lá de Fortaleza. A Mari Romano e a Mafalda Morfina. O Daniel Zé e o Lennon Fernandes. Os meninos do Highjack. E as coisas novas do Lucas Cyrne, que logo logo tão aí.

Rennan: “Tropicaos”, disco de estreia do Molodoys, aqui de São Paulo, reúne uma porção de coisas que me chamam a atenção – gosto bastante! O trabalho instrumental dos 3 Cruzeiros também é fantástico. Os shows são incríveis.

Luiz: Sim. Lançando disco novo também. Tem um monte de gente legal. João Vedana também, de Lajes para o mundo. Jonnata Doll & os Garotos Solventes!