Terceira edição do Maria Bonita Fest faz barulho pela resistência da mulher negra

Terceira edição do Maria Bonita Fest faz barulho pela resistência da mulher negra

25 de outubro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

No Dia de Finados, 2 de novembro, acontece o Maria Bonita Festival, no Baderna (Rua Oscar Freire, 2529). O festival, que está em sua terceira edição, surgiu da ideia de pedir mais espaço para mulheres do punk/hardcore/riot grrrl. Desde sua criação até a produção musical do evento, tudo é 100% gerido por mulheres. “A gente não visa lucro, portanto as entradas são gratuitas. A gente passa o chapéu pra ajudar as manas das bandas que tocam e tal”, explica Cint Murphy, uma das organizadoras. “Fizemos o primeiro Maria Bonita na Casa Goiaba, que fica na Barra Funda, tivemos média de 100 pessoas circulando durante o festival. O segundo que fizemos foi na Associação Cultural Cecília, quando trouxemos a banda Mantilla da Dinamarca”.

A terceira edição tem o tema “Solidão e Resistência das Mulheres Negras” e as bandas tem no mínimo uma integrante negra. As outras atrações, como flash tattoo, comidinhas, roda de conversa e manicure serão conduzidas também apenas por mulheres negras. No palco, Jenny Zion (Campinas), Gabi Nyarai (São Paulo), Noites Violentas (São Paulo), Obinrin Trio (São Paulo) e Liar, cover do Bikini Kill (São Paulo). As Flash Tattoos ficam por conta de Candylust ThamuMariana Silva, pra comer a culinária vegetariana da Casa da GovindaWhat the Cake?, manicure e pedicure com Simonekelly e uma roda de conversa com Mãe Lésbica Negra.

“O machismo ainda é forte na música de modo geral, no cenário independente não é diferente, fica nas entrelinhas. Os organizadores de festas e festivais chamam bandas com mulheres para cumprir cota. Dificilmente se é visto um festival misto de verdade, por isso resolvemos fazer um com as nossas próprias mãos e de maneira colaborativa, sempre pensando nas mulheres e dando oportunidades pra bandas novas mostrarem seus trabalhos”, explica Cint.

A cena independente não fica fora das críticas, apesar de ter uma certa melhoria. “A cena tá melhorando mais por que tem muita mina empenhada em fazer acontecer do que contar com os organizadores que já estão jurássicos né. Não esperamos que eles mudem, estamos tomando nosso espaço de volta, seja ocupando os shows, seja produzindo, seja criando… Os homens da cena não querem abrir mão de seus privilégios, por isso são relutantes ainda mesmo em meios libertários. A mudança vem de nós por nós. A mudança é bem simples: começar a enxergar o cenário feminino não como cotas, mas como parte integrante da cena. Incentivar mesmo a inclusão das minas, a gente já perde desde criança por que quase nunca somos incentivadas a aprender um instrumento, montar um palco, fazer a técnica de som, participar da organização de festivais como um todo… Isso sempre fica na mão dos caras e raramente eles abrem mão pra uma mina representar, gerir e criar. O trabalho que fazemos é exatamente esse: mostrar pras minas que elas podem tudo! E é ai que tá a mudança”.

Para finalizar, a organizadora deixa um recado para todas as mulheres, sejam elas da cena artística independente ou não. “Mulheres: não desistam! Esse espaço também é nosso! A gente enfrenta um monte de empecilhos no meio do caminho que tenta nos impedir de sermos o que sonhamos, mas estamos aqui umas pelas outras, pra nos darmos suporte. A gente pode se sentir fraca quando nos vemos sozinhas, mas juntas temos um poder imensurável nas mãos!”