Tamarindo mantém o rock noventista vivo em seu som cheio de distorção

Tamarindo mantém o rock noventista vivo em seu som cheio de distorção

10 de agosto de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Vinda de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, a Tamarindo aposta em uma mistura acachapante de grunge, shoegaze, stoner rock e o rock alternativo que nos leva diretamente aos melhores momentos dos anos 90, com muito pedal de distorção e berros a granel. Formada por Barbara ‘Bada’ de Paula (baixo e voz), William Meurer (guitarra e voz) e Cristiano Silva (bateria e voz), a banda começou a fazer barulho em abril de 2012 e já teve a oportunidade de fazer shows em festivais como o Grito Rock Mundo, FestMalta e Viva Unisc Festival. Em abril deste ano o trio ganhou do programa Treta Rock Show o prêmio de melhor banda e melhor vocalista de 2015.

Em 2015 relançaram seu primeiro disco, “Lado B”, com sete faixas, que havia sido lançado pela primeira vez em 2014 e teve os vocais regravados, acréscimo de guitarras e remixado. “Ele representa exatamente o que a Tamarindo é. Cada pedaço, segundo, acerto, falha, detalhe, letra, arranjo, tudo é Tamarindo neste disco. Queríamos, mais do que qualquer coisa, ter nossa “humanidade” registrada no disco, para que as pessoas que tiverem o interesse ou por algum motivo escutarem a nossa música, que saibam que o que elas ouvirem nas músicas de estúdio é o mesmo que elas irão ouvir ao vivo. Esse sentido de sinceridade é que procuramos fazer nesse registro”, explica a banda.

Conversei com Bada sobre a carreira da banda, o disco “Lado B” e seu relançamento, a vida de banda independente e muito mais:

– Como a banda começou?

Começou em 2012, depois de eu encher muito o saco do Cristiano Silva (bateria) e do Diego Corrêa (vocal e guitarra). Até então a gente só saía nos fins de semana e ficava tomando cerveja pelo olho na praça do centro da cidade. O Silva e o Diego vinham de uma banda chamada Jeremy, basicamente porque eles eram fãs de Pearl Jam e outros lances meio grunge. Eu vinha de Hole, Babes In Toyland, Alice In Chains e outras noventeiras, então quando a gente se juntou foi bem legal, fluiu bem, deu certo. E era, acima de tudo, divertido. Depois o Diego saiu da banda e encontramos um substituto rápido, o Rodrigo Jaeger, que não ficou na banda por muito tempo. Hoje nosso guita é o William Meurer, que entrou em 2014, e tá sendo maravilhoso, ele é a prova viva de que mudanças nem sempre são uma coisa ruim na vida da gente.

– Mas as influências de grunge continuaram, certo?

Sim, continuaram. Voltamos a tocar Mark Lanegan, Smashing Pumpkins, Queens of the Stone Age. O Meurer ainda acrescentou um lance mais noise/shoegaze em nossos sons próprios e trouxe de volta nosso lado mais zoeiro, que tinha meio que se perdido depois de tanta troca-troca de integrante. As coisas passaram a ser divertidas de novo. Além disso, agora tínhamos um cara focado em tocar guitarra. E canhoto!

– Me fala um pouco mais de “Lado B”.

Então, ‘Lado B’ é nosso primeiro registro, a gente lançou ainda em 2014 e regravamos com meu vocal em 2015, sendo remixado e relançado em 2016. Foi tudo meio caseiro, garajão mesmo, de baixo orçamento, porque a gente acredita no talento, sabe, mais do que um equipamento melhor ou mais caro, acreditamos no nosso poder de fazer as coisas. Moramos no interior, não temos muita oportunidade pra mostrar o nosso trabalho, mas sempre que a gente pode fazer algo pra registrar, a gente faz (risos).

– Já tem músicas novas na manga?

Temos várias composições novas, já com a mão canhota do William, tem até uma instrumental meio surf music. Não dá pra falar muito do futuro porque ele é sempre incerto, né? Mas a banda tá passando por transformações, a gente aprende que dar um tempo também é bom pro nosso crescimento, estamos parados agora para voltar ainda melhores no fim do ano.

Tamarindo

– O machismo ainda é forte no mundo da música?

Eita! Eu já fui mais incomodada com isso, mas o tempo passa e a gente aprende a deixar entrar num ouvido e sair no outro. Opinião machista não me pega mais. É um desperdício de energia. Infelizmente a educação machista é a que formou nossa sociedade atual e não dá pra querer que tudo mude na marra de uma hora pra outra. É um trabalho gradual. Eu faço de conta que não é comigo. Pode me chamar de covarde, molenga; eu só não tenho mais energia pra desperdiçar tentando bater de frente, acho que passei a aceitar melhor como as pessoas são. Ninguém é 100%. Já vi artista que eu gosto – homem – falando abobrinha a respeito de artistas mulheres. Paciência, eu gosto do trabalho dos caras. Eu cuido do que é meu, do meu respeito, do meu amor próprio. O resto eu entrego pro mundo porque tá fora do meu controle.

– E o que você acha da parada de sucessos de hoje em dia? O rock algum dia retorna ao topo das paradas?

Eu espero que não! (Risos) Sério, eu tô tão por fora. Eu gosto de música pop, acho que o topo das paradas pertence à música pop, como Rihanna e Lady Gaga. Às vezes escuto essas bandas de rock ‘da moda’ e acho tudo tão descaracterizado, tão ruim. É uma forçação de barra pra agradar gente que gosta de coisa genérica. Então… melhor não misturar as coisas. Gosto de ver a corrente que flui no underground. Esse é o verdadeiro lugar do rock e é lá que ele tem que ficar.

– Já que falou sobre a corrente do underground: você acredita que existe a formação de uma “cena” como já rolou no passado?

Ah, acho que tem, né? De alguma forma existe uma mobilização, bandas boas tornam-se conhecidas… é super fácil colocar músicas no Spotify, por exemplo. Bandas boas não precisam de mídia tradicional, como rádio ou TV. Elas simplesmente acabam aparecendo. Não sei se a gente é bom, mas estamos metendo nossa cara onde dá. E outra coisa legal que eu vejo rolar, pelo menos aqui na região, é uma banda suportando a outra, uma espécie de troca de favores. Se uma banda vai tocar em um lugar, leva a outra junto. E assim o pessoal se apoia. Mas rola muita disputa de ego também, então… não sei. É complicado. Como tu pode ver eu não sou muito dedicada à música, eu sou uma publicitária vendida (risos).

– Como é o processo de criação da banda?

Normalmente o William chega com uma melodia ou uma melodia e uma letra, e o Silva traz uma letra… eu não sou muito boa nesse lance de compor, acho todos os meus sons uma droga. Então eu só tento adaptar o que os guris fazem pra minha voz.

Tamarindo

– Qual a principal vantagem e desvantagem de ser um artista independente no Brasil?

A principal vantagem acho que é a liberdade criativa… e a desvantagem é a grana que não entra, né? Parece que tudo que a gente gosta de fazer não é muito lucrativo. Eu sou publicitária, na real. Não tem como se sustentar da música, acho que a banda sempre acaba sendo prioridade zero, é a última das minhas preocupações, então é muito complicado fazer um trabalho de qualidade nessas circunstâncias.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Nossas influências têm alguns pontos em comum: o Silva é um fã de Red Hot Chili Peppers, eu sou uma fã de Blur, Iggy Pop, Hole; o Meurer trouxe Queens of the Stone Age e Smashing Pumpkins na bagagem. Mas a gente curte um montão de coisas diferentes e aplica isso na música. Até mesmo rap e alguns sons mais punk. Aplicamos tudo isso no nosso som e mesmo assim não perdemos a identidade (risos).

– Quais os próximos passos da banda em 2016?
 
A gente nem tá mais fazendo planos, a gente já tá sendo PRESSIONADO a gravar coisa nova! Acho que precisamos também gravar mais um videoclipe. Eu queria fazer algo bem trabalhado, que gerasse buzz. Mas nem sempre temos orçamento/tempo pra dedicar a isso.
– Recomendem bandas e artistas (principalmente se forem independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
 
Ah, eu vou mencionar a galera das bandas autorais aqui da região que tem feito um trabalho legal: nossos parceiros da cxs/poa, Devir, Avalanche, Paquetá, Filhotinho, Toma!, Diatribe, Forte Apache e o Espiral, Beto Bala, Bandonze, Tombo… são alguns dos nomes que me vêm à cabeça agora.