“Sou e continuarei sendo resistência no rap e na música, campo minado de machista”, brada a rapper BrisaFlow

“Sou e continuarei sendo resistência no rap e na música, campo minado de machista”, brada a rapper BrisaFlow

7 de junho de 2017 2 Por João Pedro Ramos

Filha de chilenos e nascida em Belo Horizonte, Brisa De La Cordillera é conhecida como Brisa Flow e apesar de se focar no hip hop, tem uma musicalidade livre, misturando em seu caldeirão sonoro música latinoamericana, rap, reggae, eletrônica e até pitadas de punk rock. Sua carreira começou em 2010, participando da cena cultural mineira, mudando-se em 2012 para São Paulo, onde participou de diversos projetos e eventos relacionados a música e aos direitos das mulheres. Sua música “As de Cem” ficou entre as virais do Spotify em 2015 e ela recebeu o prêmio Olga “Mulheres Inspiradoras”.

Em 2016 lançou seu primeiro disco completo, “Newen”, de forma independente. O trabalho, com direção musical de Dia Chocolate Studio, mixagem de Givnt e masterização de Luis, da Flapc4, apareceu nas listas de melhores discos do ano do Estadão, Brasileiríssimos e Noticiário Periférico. Agora, Brisa prepara um novo projeto para os próximos meses. “Quero misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros”, conta. “Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap”.

Conversei com ela sobre a mulher no universo do hip hop, o disco “Newen”, o rap no topo das paradas e mais:

– Como você começou sua carreira?

Comecei cantar pequena como diversão, transformava umas músicas em rap e gostava de pegar os rap e cantarolar. Aos 13 me envolvi com a cena underground de BH, punk e rap. Tive uma banda, fiz parte de grupo e coletivo. Comecei a cantar rap sozinha aos 19. Passei por várias quebradas pelo Brasil e aos poucos minha carreira solo criou asas.

– Quais as suas principais influências musicais?

Minhas influências são diversas e mutantes. Escuto muita música latinoamericana de protesto: fui criada ouvindo Mercedes Sosa, Silvio Rodriguez, Violeta Parra, Victor Jara, Bob Marley, The Doors, Janis Joplin. Lauryn Hill, Badu e Sade fizeram minha cabeça e ainda fazem desde a adolescência. Atualmente tô viajando ouvindo o novo do Kendrick, o disco “Djonga”, a Sza, psicodelia e uns discos de jazz. Amo muito a Alice Coltrane, ela pra mim é uma grande inspiração, compositora braba e infelizmente pouco conhecida por ter sido casada com o Coltrane. Recomendo o “Journey to Satchidananda”, discaço!

– Me fala mais sobre o trampo que você já lançou.

Ano passado lancei o “Newen”, disco com referências ameríndias e bases que misturam boom bap trap e música eletrônica. O Dia Chocolatee Studio foi o diretor musical, o Givnt fez a mix e o Luis da Flapc4 a master. Eu tentei juntar beatmakers que eu curtia espalhados pelo Brasil e minhas letras sobre a liberdade de poder ser quem somos, sendo mulheres e sendo plurais. O disco está disponível para download gratuito no site do One Rpm e pra ouvir em todas plataformas digitais.

– A internet hoje em dia é uma grande força para MCs e rappers independentes. Como você vê isso?

Acredito que com a internet podemos divulgar melhor nosso trabalho e nossa luta não é tão censurada e barrada por macho como antigamente, quando não tínhamos internet.

BrisaFlow

– Tenho visto um levante feminino no rap, um estilo que, como muitos outros, é conhecido por ter uma grande carga de machismo. Como é isso pra você?

Fui, sou e continuarei sendo resistência no rap e na música em geral, campo minado de machista!

– Como é seu processo de composição?

Depende do tipo de composição. Quando tô com a energia em baixa e sinto que preciso escrever, me fecho um pouco na minha casa, passo o dia na quebrada, ligo uns beats, instrumentos, briso na brisa. Tem dia que a música já vem com a bala na agulha, é só começar escrever que sai umas letras loucas, às vezes a beat no meio da rua ou no metrô/busão…

– Porque as letras mais politizadas e com posição não chegam tanto ao mainstream?

Letras politizadas fazem as pessoas refletirem. Imagina a rádio e a TV propagando discurso de desconstrução contra algo que eles mesmos construíram. Revolução pero no mucho. Porque será que eles não tão afim que essa mensagem chegue muito?

– Como você vê o rap voltando ao topo das paradas nos últimos anos?

Rap merece o topo. Música completa pelo tráfico de informação, fácil comunicação, cultura ao mesclar samples de outros estilos musicais e por aí vai. Fico feliz, a cultura hip hop tem muito a conquistar.

BrisaFlow

– Quais seus próximos passos?

Músicas novas estão pra sair logo mais no Spotify e tô com um projeto de misturar os instrumentos que toco com meu som e mais uns parceiros. Logo mais, novidades! Quero usar o que estou aprendendo na facul pra mesclar com o rap. Sigam o Instagram que lá rola vários livros desse projeto no embrião!

– Recomende artistas e bandas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Gosto de manas atuais da nossa cena que estão fazendo um lindo trabalho: Anna Trea e Tati Botelho!