“Rock’n’Roll Theater”, o musical punk DIY de Tim Armstrong inspirado nos clássicos dos 50’s

“Rock’n’Roll Theater”, o musical punk DIY de Tim Armstrong inspirado nos clássicos dos 50’s

24 de maio de 2016 0 Por Rafael Chioccarello

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Em 2013, o site especializado no nicho punk/ska/hardcore Dying Scene fez uma lista para tentar calcular “aproximadamente” a fortuna de figuras ilustres do punk americano. Nessa lista na oitava posição estava Timothy Ross Armstrong, mais conhecido como Tim Armstrong. Para quem não está familiarizado, Tim é vocalista do Rancid, co-fundador do lendário Operation Ivy, vocalista e guitarrista do Transplants (ao lado de Travis Barker e Skinhead Rob) e dono da – subsidiária da Epitaph Recods – Hellcat Records.

Além disso ele tem um modelo Gretsch assinado por ele, réplica da que usa em seus shows. Além disso, também é produtor musical e tem em seu currículo um excelente disco solo (“A Poet’s Life”) em que é acompanhado ninguém mais ninguém menos que o Aggrolities.
Ah, ele também ganhou um Grammy pela produção do disco de Jimmy Cliff, Rebirth”, não podemos esquecer deste detalhe. Segundo o portal, sua fortuna gira em torno de uns 13 milhões de dólares.

Davey Havok é o sétimo da lista. O vocalista do AFI – que esteve na Lollapalooza de 2014 – conseguiu ao longo de sua carreira uma boa grana. Em parte por acordos milionários com majors. Alguns consideram isso vender a alma para o diabo (guarde essa informação).

Tendo como curiosidade ter participado até de um filme com Rob Lowe, o drama policial: Knife Fight” (2012). Um dos poucos músicos que pode dizer em alto e bom som: vive da música que faz. Na matéria, o Dying Scene estimou sua fortuna em cerca de 20 milhões de dólares, nada mal, não?

Tudo isso é só para explicar que para eles, dinheiro não é problema, especialmente para convencer pessoas influentes a toparem suas aventuras. E eles têm uma mente brilhante e um nível cultural invejável, então acredite: sabem o que fazem. Tim sempre foi um artista engajado, sempre apoiou artistas, participando de inúmeras parcerias e videoclipes de outras bandas, o que o tornou um cara bastante querido por todos ao seu redor. Mas ele não tem limites e a cada dia prova isso: há pouco tempo ele fez um ambicioso projeto em que lançou mais de 60 versões de músicas em estilos inusitados, o Tim Timebomb and Friends. Nele fez versões curiosas de Bob Dylan, The Selector, The Specials, Sham 69, clássicos oldies, reggae, entre outros. Mas o mais legal mesmo era o carinho e como trabalhava para que cada clássico soasse “vintage” e respeitoso.

O projeto ganhou vida um ano depois do outro que falaremos hoje. Depois dessa senhora introdução, vamos ao assunto de hoje: Rock’n’Roll Theatre.

Pois é, Tim estava animado em fazer algo inédito em sua carreira: um “Tv Show” musical. Porém em um formato não muito convencional (ao menos em 2011, ok?). O músico, inspirado por coisas como Twilight ZoneThe Rocky Horror Picture ShowThe Outer LimitsThrillerOne Step BehindAlfred Hitchcock Presents – em sua maioria shows de TV da década de 50 – resolveu fazer um mash-up desses antológicos shows e fazer seu próprio musical.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

De uma maneira um pouco diferente do habitual: lançar de pouco em pouco pela plataforma VEVO. Ele apropriou-se da voz do narrador, e ao invés de atuar, ele é a voz oculta que te conduz durante a história toda em episódios curtos em formato de websérie. Mas ele não caiu de paraquedas nesse projeto ambicioso sem respaldo de pessoas importantes e que sabiam o que estavam fazendo. Ele convocou um senhor time para o acompanhar:

  • David Robertson: Produtor do Eminem, Metallica, Britney Spears e Madonna. Convocado para ser o produtor da série.
  • Para diretor, ele escalou Kevin Kerslake, responsável por guiar a direção estética de toda uma geração rockeira que entrou na MTV na década de 90 como Nirvana, Smashing Pumpkins, Green Day e, claro, Rancid.
  • Michael Rooney, diretor de coreografia: conhecido pelo seu trabalho no premiado clipe “Praise You” do Fatboy Slim, dirigido por ninguém menos que Spike Jonze. Outro coreógrafo que participou do projeto foi o ator Christopher Walken.
  • A conhecida atriz Marie Vernieu (“Cisne Negro”, “Sin City”, “O Lutador”) participa.
  • Os episódioscontam com figuras ainda mais ilustres em seu elenco, os músicos e amigos do peito Lars Frederiksen (Rancid, The Old Firm Casuals, Lars Frederiksen And The Bastards, ex-U.K. Subs), Dayvey Havok (AFI) e Fishbone.
  • Logo no primeiro episódio, “Dante”, Robert David Hall, da popular série “CSI” faz uma participação. Mas a série de 12 episódios não se limita a isso.

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

O plot é divertido e em entrevistas, Tim contou como o espírito colaborativo ajudou no processo. O papel de Dante, por exemplo, foi interpretado por Lars Frederiksen. Dante é um corporativista caricato e toda sua indústria está focada na dominação, opressão, humilhação e milhões de inimigos. Suas relações humanas todas são palpadas a troco de dinheiro e favores devidos. Algo meio máfia, no melhor estilo “O Poderoso Chefão”… Mas um pouco menos romantizado. A primeira parte da série é justamente sobre sua queda e sua chegada ao Inferno. Isso seria um spoiler, se não fosse tão óbvia a sequência de narrativa. Através de cenas divertidas e clichês de danças coreografadas em escritório e atuação mandrake de Lars, ele tem sua morte consumada.

Ainda no limbo, quando descobre que morreu, é abordado por Fishbone, que toca seu trompete com uma máscara macabra de caveira para anunciar seu destino: a ida para o Inferno. Chegando lá, Dante descobre que para ele o inferno na real é um grande paraíso. Isso, claro, antes de descobrir que teria que vender sua alma para o Diabo. Lembram da informação que falei que era para guardar? Pois bem, chegou a hora. O diabo traja um elegante terno rosa e tem seu penteado lambuzado em gel. Com essa classe e estilo fica difícil esconder que o Diabo na realidade é Davey Havok. Segundo Tim, o vocalista do AFI amou fazer o capeta, e ao menos para mim ele encara o tinhoso com a mesma astúcia que teria se tivesse interpretando a Pantera Cor de Rosa. O pior de tudo é que ele atua bem e convence no papel.  Mas sem spoilers, porque vocês vão ter que ver!

Tim Timebomb's Rock'n'Roll Theater

Aproveitando o fato de ser músico e a dificuldade de vender discos na era do download e streaming, Armstrong conta que compor um disco para a série foi uma das coisas mais divertidas. Pegou o telefone e começou a discar para seus famosos amigos como Jack Grisham (vocalista do T.S.O.L.), os próprios  Fishbone e Davey Havok, entre outros. Diz que o ânimo foi tanto que em poucos dias tinha 50 canções prontas para seus 12 episódios. O disco foi entregue como “bônus” para quem comprasse o DVD do primeiro episódio da websérie. Pois é, nem sempre se vive apenas de contratos milionários…

“Pessoas não estão comprando tantos discos como elas costumavam fazer, então você tem que descobrir outras maneiras para conseguir divulgar seu trabalho. E eu definitivamente estou aberto a qualquer ideia que faça com que as músicas cheguem a elas”, contou em entrevista para a revista Rolling Stone.

Tim então propôs até em nota através do site da série que quem pagasse a quantia de 5 dólares receberia o episódio em alta resolução e o disco para download. Ele ainda faz um apelo no site através do recado: “Olá a todos, estamos lançando hoje o primeiro episódio de Rock’n’Roll Theatre, chamado “Dante”, em sua totalidade, mais um álbum meu cantando canções compostas para diferentes episódios da série em que estamos trabalhando.  ‘Rock’n’Roll Theater’ é uma série 100% D.I.Y., então se vocês realmente comprarem por $5 dólares, no lugar de baixá-lo ilegalmente, eu ficaria entusiasmado. Obrigado pela sua ajuda. – Tim.”

Bom, como podemos ver num rápida procura pela internet, o sonho de Tim de ter uma série com 12 episódios desmoronou. Talvez porque em sua tentativa em 2011, Tim ainda não tinha entendido como a indústria passou a funcionar. A base do consumo e pouco afeto pelo produto ou arte consumida, tudo virou meio descartável após duas ou três audições. E não foi só ele que errou muitas vezes tentando entender um mundo onde música/cinema/artes em geral eram consumidas para gerarem dinheiro para o topo da cadeia.

A pirataria de certa forma se transformou e solidificou, sendo um pé nas costas dos produtores de conteúdo e cultura. Uma pena, pois quem assiste “Dante” quer ver a brincadeira com os musicais – com um tom de humor sarcástico e cheio de boas inspirações e repletos de pastelão – continuar por mais tempo. Bom, não percam tempo e assistam, vale a pena.