Sexo, satanismo e hard rock feminista: os ingredientes que criaram a inacreditável Rockbitch

Sexo, satanismo e hard rock feminista: os ingredientes que criaram a inacreditável Rockbitch

1 de março de 2016 3 Por João Pedro Ramos

A banda inglesa Rockbitch é um símbolo extremo do dedo do meio levantado para a sociedade e o machismo que ditava que só homens podiam ser “transgressores” tirando a roupa no palco e expondo toda sua sexualidade no palco. Aliás, a Rockbitch escancarava isso sem dó nem piedade, não ligando nem um pouco para o que os outros pensavam e passando de qualquer limite imposto a elas.

Rock Bitch 1998

Rock Bitch performing in 1998. Credit: Ian Dickson/MediaPunch

O grupo de hard rock surgiu da dissolução de uma banda chamada Red Abyss, que já tinha os princípios que vieram a caracterizar a Rockbitch: formada por garotas (às vezes algum cara entrava na formação, mas as mulheres sempre dominaram) e sexualidade à flor da pele. Porém, com o nome Rockbitch, o grupo resolveu chutar o balde. Já que as bandas masculinas que dividiam palco com elas eram encorajadas a gritar falsas letras rebeldes sobre sexo e satanismo e falavam na cara das garotas que não podiam fazer os mesmo… porque não bater de frente com isso? Outro fator que ajudou a criar o furacão sem controle Rockbitch foi o machismo que elas encontravam quando ainda eram Red Abyss: contratantes se recusavam a conversar com uma empresária mulher, técnicos de som sempre achavam que elas não sabiam tocar seus instrumentos ou sabotavam a mixagem do som, casas insistiam em pagar o cachê diretamente nas mãos de qualquer roadie que fosse homem em vez de uma membra da banda… “Éramos tratadas como merda”, diz a guitarrista solo Lisa “Babe” Wills.

Desde sua formação, nos anos 90, até o fim, em 2002, o Rockbitch foi provavelmente uma das bandas mais sem noção de limites no planeta. Muitas das membras da banda tocavam nuas ou quase nuas. Músicas como “Fistfuck” eram… digamos… “encenadas” no palco. Durante os shows, elas jogavam uma “Camisinha Dourada” para o público, e quem pegasse, homem ou mulher, era convidado/a a ir ao camarim após o show e transar com as membras da banda. “Normalmente, quem pegava a camisinha e dava pra trás na hora do vamos ver eram os homens”, conta “Babe”. “Muitos achavam que era uma piada. Nossa sexualidade escancarada intimidava muitos homens”.

Rockbitch

Formada também por Amanda “The Bitch” Smith-Skinner (baixo), Julie Worland (vocais), Luci the “Stage Slut” (guitarra base), Nikki Fay (teclados) e Jo Heeley (bateria), além de duas ou três “Sex Magick Priestesses” que dançavam e ajudavam em alguns dos rituais sexuais realizados no palco. A banda dizia em manifestos publicados em seu site que sua missão era tirar o estigma da sexualidade feminina e do sexo em geral, e o hard rock parecia o veículo perfeito para isso.

“Quando uma mulher não pode sequer tirar a roupa da cintura para cima e torcar um puta riff de guitarra, enquanto a vocalista a come com um strap-on, enquanto um cara da plateia lambe seus pés sem que as autoridades queiram proibir o show para menores de 18 anos – bem, o que aconteceu com o mundo do rock e sua rebelião?”, perguntava o site da banda.

Musicalmente, tocava rock teatral com influências de hard rock e heavy metal. Apesar dos temas sexuais, a banda também incluía um pouco de paganismo em sua música e filosofia, mas Babe dizia no site da banda que elas não eram Wicca ou satanistas. Na verdade, todo o show e ideias da banda giravam em torno de um “culto à vagina”, com o órgão sendo a fonte da vida humana, portanto o componente mais sagrado da sexualidade.

É lógico que as autoridades não gostavam nada dessa “liberdade sexual” da Rockbitch. A banda foi banida de várias casas de shows, e sua música e discos foram censurados em diversos países. Não se sabe se isso foi um dos motivos para o fim da banda, mas provavelmente era bem difícil distribuir sua música e marcar show.

Rockbitch lançou apenas um disco de estúdio, “Motor Driven Bimbo” (1999), e um ao vivo, “Rockbitch Live in Amsterdam”. Durante sua carreira, a Holanda era um dos poucos países onde a banda conseguia se apresentar regularmente. Um segundo disco, “Psychic Attack”, chegou a ser gravado, mas nunca lançado oficialmente, apesar de aparecerem alguns bootlegs das músicas por aí.

Rockbitch

Depois do fim da banda, em 2002, todas as membras reapareceram em uma versão vestida e menos teatral chamada MT-TV, que logo também chegou ao fim. Existem diversos documentários e bootlegs de show em vídeo disponíveis sobre a banda, sendo os mais completos “Sex, Death and Magick” e “Bitchcraft” (que está disponível no Youtube, ou pelo menos já esteve).

https://www.youtube.com/watch?v=oS4g9tTJ0As