Sem grandes hits, The Shins faz disco belo e coeso, “Heartworms”

Sem grandes hits, The Shins faz disco belo e coeso, “Heartworms”

14 de março de 2017 0 Por Daniel Feltrin

Poptopia!, por Daniel Feltrin

O The Shins nunca foi uma banda mainstream, mas dentro do universo indie sempre foram conhecidos por emplacar canções que são hinos do rock alternativo dos anos 00. Mesmo o irregular “Port of Morrow” nos deu “Simple Song” e “It’s Only Life”, que são canções que a gente canta fácil no chuveiro.

Com seu estilo de refrões cativantes e dinâmicas criativas, as composições de James Mercer conquistaram o público que nascia do fortalecimento da cena alternativa com petardos como “Caring is Creepy”, “New Slang” e “Australia”.

Quem não lembra do personagem de Natalie Portman no filme “Hora de Voltar” (“Garden State”, de 2004) apresentando a banda a Andrew (personagem de Zach Braff, o J.D. de “Scrubs”, também diretor do filme) que está se livrando do efeito do uso de lithium por anos? A imagem é emblemática da música indie da época, e The Shins é seu porta-voz.

Nos últimos anos a banda vem sofrendo mudanças de formação que influenciaram no som dos últimos discos. James Mercer basicamente demitiu todos os membros originais tendo em mente um conceito de banda-de-um-homem-só como alguns ícones dos anos 90 tipo Neutral Milk Hotel.

Mercer entrou numa cruzada para se reencontrar e foi reformulando o Shins de forma a lançar um disco que demonstrava maturidade, mas não a mesma força que os três primeiros discos anteriores. O já citado “Port of Morrow”, apesar de bom, ficava aquém do potencial do Shins.

No entanto, Mercer redescobriu o poder da colaboração nos dois discos que fez junto com o Danger Mouse. Com a sonoridade mais eletrônica e músicas que exploravam a bela tessitura vocal do músico de Portland, o Broken Bells produziu dois belos discos enquanto o Shins readquiria seu status de banda.

“Heartworms”, lançado na última sexta-feira, traz algo que faltou demais a “Port of Morrow”: coesão. Mercer consegue manter toda a maturidade de seu som enquanto resgata o melhor do Shins e encorpora novos elementos que tem muito da influência de seus projetos paralelos. A belíssima canção título é a prova dessa versatilidade, desfilando uma das melhores melodias da banda e um arranjo complexo como só o The Shins é capaz de entregar.
Os arranjos também são o ponto forte de “Heartworms”. O Shins sempre foi conhecido pelo instrumental “progressivo” de suas canções, sempre preferindo batidas mais frenéticas com guitarras dinâmicas, com muitas notas, enquanto a sustentação da canção sempre apoiada nos teclados extrapolados e na melodia cativante que dava o tom melancólico e feliz da banda. Este disco resgata essa sonoridade, principalmente pela evolução dos novos integrantes como banda.

No entanto, o disco não mostra nenhuma canção que destoe das outras e se torne um hit cativante como “Simple Song” foi no disco anterior. Talvez a canção que mais se aproxime disso é “Name for You”, que lembra na sua produção, letra e melodia as canções do longínquo primeiro disco da banda, “Oh Inverted World”.

Não ter um hit, porém, não é um defeito de “Heartworms”, mas sim uma característica da coesão do disco como um todo. Fica impossível ouvir só uma parte do disco. Da carismática “Name for You” à barroca “Mildenhall”, da frenética “Dead Alive” à dramática “The Fear”, esse é o disco mais azeitado e coeso da banda em anos e uma experiência que merece os 40 minutos de audição.

“Heartworms” talvez não seja lembrado como o melhor disco da banda, mas com certeza é um disco que consolida uma nova direção na sonoridade da banda que mostra amadurecimento e um renovado vigor para o futuro.

Disco: The Shins, “Heartworms” (2017)
Nota: 3,5/5