Retrofoguetes ressurge após hiato de 7 anos com seu terceiro disco, “Enigmascope Volume 1”

Retrofoguetes ressurge após hiato de 7 anos com seu terceiro disco, “Enigmascope Volume 1”

12 de setembro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Os Retrofoguetes, de Salvador, voltam à ativa depois de um hiato de 7 anos com “Enigmascope Volume 1”, um disco que mostra toda a experiência em surf music misturada com tango, mambo, jazz, polca e bossa nova da banda sendo usada para criar uma trilha de um filme de espionagem imaginário em 13 faixas.

A banda surgiu em Salvador, em 2002, da dissolução dos Dead Billies. Formado atualmente por Morotó Slim (guitarra), Julio Moreno (guitarra), Fábio Rocha (baixo) e Rex (bateria) e com dois discos na bagagem (“Ativar Retrofoguetes!”, de 2003, e “Chachachá”, de 2009), o quarteto teve o segundo álbum considerado pela revista Rolling Stone como um dos 25 melhores discos nacionais do ano e os Retrofoguetes foram indicados ao Prêmio VMB da MTV como Melhor Banda Instrumental, além de figurarem na lista do portal Vírgula/UOL entre as 10 Melhores Bandas do Nordeste.

O grupo já realizou turnê pela Argentina e foi citado pelo jornal espanhol El Pais em uma lista das melhores canções para strip tease. Suas músicas ainda chegaram a trilhar um comercial que faturou o Leão de Bronze do Festival de Cannes na França e foram executadas pela rádio BBC de Londres. Já se apresentaram em importantes festivais nas principais capitais do país, entre eles o Abril Pro Rock, Virada Cultural de São Paulo, Goiânia Noise, Festival de Verão de Salvador, Festival Instrumental de Salvador, Coquetel Molotov, Campeonato Mineiro de Surf e Festival do Sol.

Conversei com a banda sobre sua carreira, o disco novo, a influência do cinema e as redes sociais dominando o mundo da música independente:

– Primeiramente, as novidades: Me falem um pouco mais de “Enigmascope Volume 1”!

“Enigmascope Volume 1” é o nosso terceiro disco. Depois de um hiato de 7 anos (o “ChaChaChá” foi lançado em 2009), sabíamos da necessidade de lançarmos um novo trabalho pra que a banda pudesse seguir em frente. Fazer um disco é um bagulho muito complicado, dá muito trabalho, leva tempo e custa muito caro. Pra gente foi um grande desafio, não tínhamos apoio de editais, patrocínios ou um selo bancando. Fizemos um sacrifício grande pra realizar esse trabalho. Além disso, pra gente só faz sentido gravar um novo disco se ele for ainda melhor que o anterior. Somos muito criteriosos, queríamos fazer um bom trabalho e empenhamos todo o tempo e a grana que a gente tinha pra isso.

– O som foi criado para ser “trilha sonora de um filme de espionagem”. Me falem um pouco de como seria o enredo desse filme e, se ele fosse produzido, quem vocês gostariam de ver no elenco e direção.

Quando iniciamos o processo de composição, tínhamos na cabeça todos os clichês dos filmes de espionagem, criamos a trilha pensando nos climas que rolam normalmente nesses filmes. Rola o tema do espião (“Agente Duplo”), o do vilão (“El Víbora”), clima de perseguição (“Ultrassecreto”), romance (“Hotel Cruzeiro” e “Il Segreto”) e mistério (“Soturno” e “Martini & Cianeto”). Rodar esse filme seria divertido, acho que seria a primeira vez que a trilha daria origem ao filme. O primeiro filme de espionagem de Tarantino, talvez?

– Já que o disco é influenciado pelo cinema, quais filmes e diretores vocês acham que inspiram a banda?

Esse disco foi inspirado nas trilhas compostas para os filmes de espionagem dos anos de 1960. Era o auge da guerra fria e muitos filmes do gênero foram produzidos na época, principalmente na Europa. Eu, particularmente, gosto muito dos primeiros filmes de James Bond, principalmente o “007 Contra o Satânico Dr. No”, “007 Contra Goldfinger” e “Thunderball”. Os filmes do espião Harry Palmer com Michael Caine são incríveis, “Topázio” de Hitchcock, “O Espião Que Saiu do Frio”, mas também séries de TV como “Missão Impossível”, “Os Agentes da U.N.C.L.E.”, “O Santo” e “O Prisioneiro”.

– Como rolou essa volta depois de 7 anos?

Depois do lançamento do “ChaChaChá” em 2009, tocamos nas principais capitais do país, principalmente nos festivais mais importantes do cenário alternativo. Iniciamos a pré-produção de um novo álbum, quando o trabalho foi interrompido com a saída de CH da banda. Descartamos esse material, e com a nova formação iniciamos, no ano passado, o processo de composição de “Enigmascope Volume 1”. Sabíamos da importância de lançarmos um novo disco, para que a banda continuasse a rodar. Estamos bem confiantes, porque acreditamos ter conseguido um resultado incrível com esse novo trabalho.

Retrofoguetes

– Me falem um pouco sobre como esse disco evolui dos trabalhos anteriores da banda.

Como disse, sempre que iniciamos o processo de composição de um novo disco, nos impomos o desafio de fazer um trabalho melhor que o anterior. Isso faz com que a gente esteja sempre amadurecendo. Acho realmente que “Enigmascope Volume 1” reflete o aprimoramento das experiências que tivemos em “Ativar Retrofoguetes” e “ChaChaChá”. O caráter imagético do nosso trabalho e a nossa relação com o cinema são mais evidentes agora. O disco é mais coerente, tem um conceito mais maduro. Somos músicos experientes, todos com mais de 40, isso facilita muito a relação entre a gente e o trabalho flui rápido, de forma bem tranquila. Acho também que o resultado desse disco se deve muito à relação criada com André T, o produtor de todos os nossos registros, desde a demo em 2002. Aprendemos juntos com as experiências anteriores e isso criou uma sintonia muito grande entre a gente.

– Como a banda começou?

A banda surgiu após a dissolução dos Dead Billies em 2001. Tinha proposto a Morotó que montássemos um projeto paralelo para tocar surf music instrumental. Eu já tinha todo o conceito na minha cabeça, inclusive o nome Retrofoguetes. Com o fim da banda, resolvemos chamar Joe e dar prioridade a esse projeto que deixou de ser paralelo. Fizemos nosso primeiro show na praia, no verão de 2002. Depois de um ano, Joe recebeu o convite para fazer parte da banda de Pitty. CH Straatmann substituiu Joe no baixo e ficou com a gente até 2013. Joe voltou pra banda, mas ficou difícil levar o trabalho adiante, porque ele continua morando em São Paulo e nós em Salvador. Hoje, deixamos de ser um trio e passamos a ser um quarteto, com Fábio Rocha no baixo e Júlio Moreno na outra guitarra. Todos já se conheciam há muitos anos, principalmente eu, Morotó, Joe e Fábio, já que começamos na música quando éramos adolescentes na cidade baixa.

– Quais as principais influências musicais da banda e desse disco especificamente?

Ouvimos muitas coisas. No início, a banda tinha uma influência grande da surf music. Desde os Dead Billies, gostamos muito de bandas como The Ventures, Trashmen, Surfaris, Man or Astroman?, e caras como Dick Dale e Link Wray. Eu e Morotó sempre fomos fãs de rockabilly, swing jazz e psychobilly. Para compor esse disco, buscamos inspiração nas trilhas dos filmes de espionagem dos anos 1960. John Barry, Lalo Schifrin, Jerry Goldsmith, Mancini, Piero Piccione e Bruno Nicolai, criaram trilhas incríveis utilizando o que era pop na época: surf music, bossa nova, música latina, jazz e rock.

– Em 7 anos tivemos muitas mudanças e um estouro das redes sociais. Como isso afetou a vida do artista independente?

Todos nós nascemos em 1972, exceto Julio que já completou 51 anos. Não é muito fácil acompanhar essa evolução, tudo muda muito rápido, quando você começa a entender como funciona o myspace, ele já não serve mais pra muita coisa, é complicado pra gente que é velhinho. Somos do tempo da fita demo (que parece até que tá voltando) e nos comunicávamos com o mundo por cartas. Na época dos Dead Billies ainda era assim, acredite. Hoje, tudo tá mais fácil, seu trabalho tá aí pra todo mundo, tudo acontece rápido. Por outro lado, é muita informação circulando ao mesmo tempo e é preciso realmente ter um bom trabalho pra ser notado no meio de tanta coisa. A gente ainda tá tentando entender como funciona.

Retrofoguetes

– Quais são os próximos passos da Retrofoguetes?

Conquistar a Europa, a Oceania e um terceiro continente a nossa escolha.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eu costumava conhecer as bandas através dos festivais, isso era incrível. Andamos meio afastados dos palcos e estamos voltando agora a tocar nos festivais. Mês passado, tocamos pela terceira vez no Goiânia Noise e pude sentir esse gostinho de novo. Não sou muito de ficar pesquisando na internet e termino ficando um pouco por fora do que tá rolando. Aqui em Salvador, tem as instrumentais Ifá Afrobeat e Ivan Motoserra, a Orkestra Rumpilezz continua sendo pra mim a melhor coisa que ouvi nos últimos anos, a Baiana System é um exemplo de profissionalismo e cuidado estético, e a Vivendo do Ócio e a Maglore seguem fazendo um trabalho muito bonito. Gosto muito dos Baggios e tô ouvindo o último disco da Plástico Lunar, duas bandas incríveis de Aracaju. Luciano Leães, pianista e organista gaúcho, lançou “The Power of Love”, o melhor disco de blues nacional dos que eu já ouvi. Ele participa de cinco faixas do “Enigmascope Volume 1”. Da turma do surf, tem o novo disco do Gasolines e dos cariocas da Beach Combers. Tô curioso pra ouvir o disco solo de Clemente, dos Inocentes/Plebe Rude, disco que conta com Joe, Rodrigo Cerqueira e Johnny Monster, grandes amigos meus. Bom, certamente tô esquecendo uma porrada de gente.