Reconhecimento tardio: Big Star – “Radio City” (1974)

Reconhecimento tardio: Big Star – “Radio City” (1974)

13 de julho de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Se tivesse que apontar para “a banda mais injustiçada” de toda a trajetória do rock, sem dúvida essa seria Big Star. Com suas melodias absurdamente lindas, composições de alto nível, sonoridade direta e uma dupla de compositores de mão cheia, o quarteto de Memphis, Estados Unidos, e principal expoente do chamado power pop foi tudo isso, exceto um caso de sucesso.

Extremamente mal divulgado pela Ardent, o grupo não deslanchou, o que resultou em um injusto marasmo em termos de recepção do público. Dizem que o selo, que era subsidiária da Stax – uma gravadora predominantemente de black music –, não soube bem como vender o peixe daquele quarteto de rock. No caso do primeiro trabalho deles, o ótimo “#1 Record” (1972), a zica foi tamanha a ponto de o LP não ser encontrado nas lojas por conta de problemas com a distribuição. Chegou ao ponto de o público local sequer conseguir achar os álbuns para comprar. Sendo assim, as vendas daquele que álbum que um dia se tornaria um clássico obscuro foram ínfimas.

Para ajudar, Chris Bell, guitarrista e vocalista, já andava sofrendo de depressão e se viu desmotivado com aquele enorme fracasso, por isso abandonou o barco para seguir carreira solo. A banda chegou a ficar uns meses sem trabalhar em coisa alguma. Quase não rolava shows e o futuro era incerto. Mas eis que nesse cenário de deterioração, os remanescentes Andy Hummel (baixo), Jody Stephens (bateria e vocais) e o lendário Alex Chilton (guitarra e vocais) juntaram os cacos para fazer mais um álbum e tentar a sorte outra vez. Para isso banda apostou em um som mais roqueiro e agressivo, sem tantas melodias na tracklist e um clima mais solto. O resultado foi Radio City” (1974), um registro também antológico e para muito ainda melhor que seu antecessor.

Apesar de todos contribuírem para as composições, sabe-se que desde o início Bell e Chilton formavam uma dupla prodigiosa, como uma espécie de Lennon e McCartney fracassada em termos de reconhecimento. Com a saída de Bell, Alex Chilton imprimiu ainda mais sua vibe discretamente excêntrica.

Você logo de cara nota a diferença de timbres nas guitarras. Vale dizer isso desde já: provavelmente esse é o único disco que você vai escutar com esse som específico. A mixagem é um monumento por si só, e mesmo soando bastante limpa, em muitos momentos soa como uma porrada. A bateria é explosiva, a guitarra é cortante e o baixo aglutina tudo de modo que a gente pode falar de boca cheia que isso é um power trio.

“O My Soul” abre o disco com tudo. Apontando para uma direção mais direta e bastante diferente da onda prog da época, o Big Star parecia não ter medo de soar direto revisitando o rock básico. E com um compositor tão criativo como Alex Chilton, o resultado não poderia ser mais adequado. “Life Is White” seria extremamente segura e pop se não fosse aquela gaita estridente que chega a ser excessiva, mas parece que essa era a intenção. Essa banda tem dessas coisas, brinca com elementos sutis para de certa forma camuflar seu som extremamente pop.

Stephens assume os vocais em “Way Out West” e resulta em um dos melhores momentos do disco. Uma faixa com clima estradeiro e com um refrão que lembra muito (até demais) a “Primavera” de Vivaldi.

Um romantismo dilacerante toma conta da alma de Chilton quando canta na semiacústica “What’s Going Ahn”, uma faixa incrível, com um riff de guitarra choroso e a bateria solta, igualmente emotiva. As melodias costuradas entre os vocais e a guitarra conseguem te segurar firme do início ao fim sem qualquer dificuldade. Fechando o lado A, “You Get What You Deserve” também apresenta riffs pegajosos, e você nota muito facilmente de onde o R.E.M. tirou boa parte da inspiração.

“Mod Lang” é a mais roqueira e previsível de “Radio City”, embora nesse caso isso não significa desprestígio. Cumpre seu papel divertido. Depois disso vem aquela que talvez seja a melhor faixa do disco, “Back Of A Car”. Com uma guitarra incrível e a bateria cheia de energia, acho muito difícil alguém escutar isso e não gostar minimamente. Há quem diga que Chris Bell ajudou nessa composição, embora não creditado. Não há muitos erros para apontar na obra do Big Star, e essa música talvez sintetize o que o grupo criou em “#1 Record”, “Radio City” e no derradeiro e bem estranho “Sister Lovers”.

Um clima ameno (talvez psicodélico?) dá início à montanha russa que é “Daisy Glase”, algo que consigo imaginar o Wings fazendo com um pouco mais de retidão. Em “She’s A Mover” o Big Star volta a apostar no rockão com pegada sessentista e de novo abre alas para uma pérola: “September Gurls”, aquela que talvez seja o hino do gênero power pop. A faixa é um memorável caso de amor entre The Byrds e The Beatles, o que parece bastante óbvio, mas a música exatamente é isso. Um pop irresistível, como poucas vezes se ouviu. Ali há ecos de uma infinidade de bandas posteriores. Com essa música Big Star fez escola.

O disco encerra com duas baladas curtinhas, as belas “Morpha Too” e “I’m In Love With A Girl”, que soam como resquício da doçura do álbum de estreia. Mas fato é que “Radio City” encerra e você percebe que ouviu algo acessível, ao mesmo tempo diferente, pegajoso, profundo… e quem sabe ele não te conquista como conquistou Jeff Buckley, Teenage Fanclub, Lemonheads, Kurt Vile, Bangles, Dinosaur Jr., Pixies etc.

O disco naufragou da mesma forma que o primeiro, o que no fim das contas acarretou na saída de Andy Hummel. Como uma dupla, Chilton e Stephens gravaria o bizarro e interessantíssimo “3rd/Sister Lovers” em 1975, que por sua vez só sairia como um lançamento oficial em 1978. Apesar disso, a banda era vista como promissora pela crítica especializada, e ainda é, haja vista que esses três álbuns são citados vez ou outra entre os melhores de todos os tempos. Big Star é a prova de que o reconhecimento vem quando a criação de fato tem valor relevante. Indispensável para qualquer um que acredita na força das boas melodias e nas canções simples.