Raíz de quase tudo que você ouve: Robert Johnson – “King of the Delta Blues Singers Vol.1 & 2”

Raíz de quase tudo que você ouve: Robert Johnson – “King of the Delta Blues Singers Vol.1 & 2”

6 de abril de 2017 0 Por Victor José

 

Bolachas Finas, por Victor José

Na verdade, o texto de hoje vai além de uma resenha. Falo de toda uma carreira.

Imagine a música pop como um grande edifício e encare Robert Leroy Johnson, este homem errático, como um dos fundamentos desta complexa estrutura.

Robert Johnson é muitas vezes citado como o maior compositor do século XX. Logo numa primeira impressão, pensamos em muitas razões para questionarmos este pretensioso título. Coisas como a ascensão de ícones posteriores como Chuck Berry, Bob Dylan, Lennon, McCartney e Bowie podem ser alguns dos válidos argumentos. Mas é certo que todos esses citados respeitam Johnson e sua obra, consciente ou inconscientemente, e muitos beberam dessa fonte antes de serem grandes estrelas.

Nós, que convivemos diariamente com a estética da cultura contemporânea o reverenciamos. É inevitável. Ou seja, esse é o cara.

Em termos de relevância, a inestimável atitude do que se ouve em seu blues vai muito além da falação em torno de seu hipotético pacto com o diabo em troca de talento, aliás, fato que se torna secundário por si só. O padrão repetitivo e envolvente do ritmo de seu violão, o imperfeito canto emotivo e mais próximo da linguagem falada, o conteúdo mundano das canções, sua origem… Esses sim são os ingredientes perfeitos para solidificar um símbolo capaz de sobreviver quase oitenta anos depois de seu último riff de blues tocado para uma ínfima plateia.

Robert Johnson, um rapaz que muitíssimo pouco se sabe de verdade sobre sua vida pessoal, registrou 29 canções em material fonográfico, sem contar algumas versões alternativas. Isso foi o que bastou para que ele ajudasse a transformar a arte de fazer música com sua mensagem dificilmente exemplar e muitas vezes amedrontadora e obscena. Mas por trás de sua persona violenta (“32-20 Blues”), embriagada (“Malted Milk”) e diabólica (“Me And The Devil Blues”), você pode encontrar um traço a vulnerabilidade de um sujeito amável (“Honeymoon Blues”) e solitário (“Love In Vain”), com um passado que o perseguia como um fantasma (“Drunken Hearted Man”). Johnson não tinha medo de expressar seu lado sombrio e escancarava suas emoções; no fim das contas, essa acabou sendo a principal lição do blues.

Por volta de 1936, em Jackson, Mississippi, um caçador de talentos e dono de uma venda, H. C. Speir, colocou Robert em contato com Ernie Oertle, que trabalhava no ARG (American Record Corporation). Oertle apresentou o rapaz ao produtor Don Law e firmaram um contrato para gravar suas primeiras sessões. Durante os dias 23, 26 e 27 de novembro daquele ano, no quarto 414 do Hotel Gunter em San Antonio, Texas, Robert Johnson executou clássicos como “Sweet Home Chicago”, “32-20 Blues” e “Kind Hearted Woman Blues”; 16 ao todo, além das versões alternativas.

Os takes alternativos foram gravados somente por precaução, em caso de algum problema com a master, que nesta época era fabricada com cera. As gravações, como produto final, eram transportadas de navio para o norte dos Estados Unidos para então serem produzidas em disco, mas muitas vezes a cera derretia no meio do trajeto.

Durante as sessões o tímido Robert supostamente tocou de frente para a parede, o que mais tarde alimentou o imaginário do público; há quem jure de pé junto que ele tocava de costas para sua plateia para esconder seus olhos vermelhos, por estar tomado pelo demônio. Mas é mais plausível que possa ter sido uma manobra para aprimorar a acústica obtida de sua voz e violão chamada pelos profissionais de áudio de corner loading.

Por outro lado, Don Law já chegou a confirmar que ele era de fato muito tímido e tinha medo de palco: “Ele era muito reticente. Esta [durante as sessões de gravação] foi a primeira vez que ele tinha ido para o que ele considerava uma cidade grande. Eu tinha comigo alguns músicos mexicanos no estúdio, então eu disse: ‘Robert, cante alguma coisa para nós’. Ele não nos encarava. Então ele virou as costas, foi para um canto da sala e aí cantou uma canção”.

Além da formatação quase religiosa dos 12 compassos no blues, uma das principais sacadas de Robert Johnson, embora sutil, tenha sido a consciência de que uma canção com três minutos de duração seria um padrão perfeito para um disco de 78 RPM (Rotações por Minuto). Isso nenhum de seus companheiros do delta blues chegou a pensar antes dele, e até hoje essa é uma das “regras fundamentais” de uma faixa pop. “Terraplane Blues” chegou a ser um sucesso regional, vendendo aproximadamente cinco mil cópias.

É bem provável que talvez ninguém venha a saber como de fato Robert soava a partir de seus registros em disco. Naquela época era comum selos de blues e jazz masterizarem o material coletado com a velocidade acima do normal, fazendo com que a faixa soasse mais “vibrante”. Por outro lado, muitos musicólogos descartam a hipótese deliberada e culpam a precariedade dos equipamentos de gravação disponíveis até então. Sendo assim, alguns especialistas no assunto acreditam que todo o catálogo de Johnson esteja adulterado, 20% mais rápido que sua verdadeira performance.

O ex-executivo da Sony Music Lawrence Cohn, vencedor de um Grammy em 1991 por ter reeditado toda a obra de Johnson, reconhece a possibilidade de as gravações terem sido aceleradas no produto final, pois o selo Vocalion, que originalmente lançou o material, costumava alterar a velocidade de seus lançamentos. “Às vezes era 78 RPM, às vezes 81 RPM”, disse Cohn. Não há mais como afirmar com certeza sobre essa informação, isso porque as matrizes de metal utilizadas para duplicar os discos originais de 78 RPM desapareceram.

Pouco depois, Robert ainda gravaria mais uma porção de canções, dessa vez nos dias 19 e 20 de junho de 1937, em um estúdio improvisado pela Brunswick Record Corporation no terceiro andar do 508 Park Avenue, prédio da Vitagraph, empresa da Warner Brothers. Era época do alto verão texano e, segundo quem estava lá, fazia tanto calor ao longo das sessões que toda a equipe e o músico gravaram somente usando roupa de baixo. Dessa vez Robert registraria canções fundamentais como “Love in Vain”, “Milkcow’s Calf Blues” e a controversa “Me And The Devil Blues”.

Alguns historiadores do blues e da indústria fonográfica dos Estados Unidos afirmam que a American Record Corporation tenha pago ao compositor entre e 10 e 15 dólares por cada uma das 29 músicas e as versões suplentes, sem royalties. Naquela época era muito dinheiro.

Finalmente tudo o que ele mais desejava estava se tornando realidade. Mas um ano após seu maior trunfo, Robert Johnson, aos 27 anos, morreria de maneira misteriosa (história que pretendo um dia contar em uma outra oportunidade, junto como todo o resto que sei sobre ele).

Seu modo honesto, puro e ingênuo de escrever e interpretar canções mostrou o caminho para muitos outros que depois dele abraçaram esse sentimento de urgência tão presente no blues. Em uma primeira análise, o excesso de coloquialismo e o insistente “grifo” de ideias ao repetir versos sem qualquer discriminação ou maiores pretensões podem parecer grosseria, mas é inegável que sejam virtudes que funcionam perfeitamente como veículo.

É claro, ele não foi o primeiro a cantar suas lamentações dessa maneira, mas seu talento à flor da pele fez dele peça fundamental para qualquer um que queira entender como se expressa marginalidade com certa classe. Escrever uma única boa letra de blues pode ser um desafio para toda uma vida. Pensa bem: quantos de fato conseguiram isso?

O interesse pela sua obra foi sendo construído aos poucos, praticamente no boca a boca. O depoimento de seus renomados colegas que chegaram a conhecê-lo, a consolidação do eletrificado blues de Chicago e também o posterior surgimento de um revolucionário gênero com raízes no blues – o rock ‘n’ roll – culminaram no surgimento de bandas fortemente inspiradas na música produzida pelos negros dos arredores do Mississipi.

Em 1961 seria lançado o LP “King of the Delta Blues Singers”, que muitos consideram como um dos maiores álbuns de todos os tempos. O disco com 16 das faixas gravadas entre 1936 e 1937 foi uma das grandes vitrines do catálogo de Johnson, pois coincidiu exatamente com o momento de “redescobrimento” do blues, liderado pelos jovens brancos da Inglaterra. Grupos como The Rolling Stones, Cream e John Mayall & the Bluesbreakers sempre reverenciaram seu legado.

Em 1971, em um período no qual o estilo já havia sido dissecado e repaginado por um sem-número de bandas de rock, seria lançado o “King of the Delta Blues Singers Vol. II”, com o restante das gravações que não haviam entrado na primeira edição e algumas versões alternativas.

Daí em diante ficou esclarecido que Robert Johnson é um importante emblema, mais verdadeiro que a própria vida e nem por isso isento de inúmeras boas e más interpretações acerca de quem de fato foi. A cada década surge uma espécie de revigoramento de sua herança, seja por meio de artistas buscando inspiração nas canções, de apreciadores fascinados pela pureza do som e das letras ou até pelos curiosos atraídos pelo macabro de toda essa mística. Quando nasceu? Como morreu? Como era sua aparência? Como conseguiu ser tão bom e influente em tão pouco tempo? As perguntas são muitas. Mas o que importa mesmo são aquelas 29 canções. Ponto. E acredite: já é muito.

Na arte, não há nada melhor que a honestidade, e Robert Johnson é isso.