Raggabund, a banda alemã que mistura reggae, hip hop, raggamuffin e um tiquinho assim de salsa e cumbia

Raggabund, a banda alemã que mistura reggae, hip hop, raggamuffin e um tiquinho assim de salsa e cumbia

15 de fevereiro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Fundada em 2000 em Munique, a banda Raggabund é formada pelos irmãos Paco Mendoza (El Penal) e Don Caramelo, ambos descendentes de latino-americanos. Depois de passarem por diversos outros projetos, a dupla resolveu se unir e criar o projeto que une reggae, dancehall, rock e ritmos latinos como a cumbia e a salsa, por exemplo.

Com três álbuns de estúdio (“Erste Welt”, de 2006; “Mehr Sound”, de 2012 e “Buena Medicina”, de 2015) e diversas participações em músicas de outros artistas (além de mais de 20 singles), o Raggabund passou pelo Brasil em 2015, onde angariou diversos fãs com sua mistura inusitada, levando inclusive influências daqui para seus próximos trabalhos. A dupla se declara fã de bossa nova e MPB, sem esquecer do popular funk carioca. Conversei com a dupla sobre o liquidificador de influências de seu som, a passagem pelo Brasil e a internet atuando como propagadora de músicas e artistas:

– Como foi a turnê no Brasil?

A viagem foi incrível. As pessoas no Brasil nos receberam com muito amor – e isso fez a gente se sentir bem. Também tivemos a oportunidade de estar no palco e em lugares bem legais. Em Salvador, por exemplo, nós tocamos no “jamnomam” – uma jam de jazz à beira do mar. As pessoas começaram a dançar e cantar com a gente. Em Porto Alegre, tivemos milhares de pessoas gritando e cantando com a gente. Rio, Brasília e São Paulo… Foram momentos muito inspiradores e emocionantes.

– A banda mistura várias influências musicais e nacionalidades. Criando esta mistura?

Sempre achei a música muito ampla para se concentrar em um único gênero – que crescemos com ritmos latinos como salsa, valsa ou cumbia. Então, começamos a gostar do reggae jamaicano e sua mensagem rebelde ou o hip hop. Finalmente começamos a misturar todos os ritmos e também na turnê pela América Latina tivemos muitas inspirações, que também acabaram entrando em novas canções, como a música andina ou o funk brasileiro.

– Quais são suas principais influências musicais?

Nosso conceito musical é mais do que offbeats ou cumbia e vem de nossos próprios projetos e de outros projetos: Caramelo Criminal, Paco Mendoza ou Les Babacools. A gente junta cumbia, chicha ou valsa com batidas eletrônicas, rock com raggamuffin, huayno peruano com ska, mas o reggae sempre nos serviu como elemento de ligação entre os gêneros. Com a Raggabund trabalhamos mais com batidas urbanas e reggae. Lá nós digeririmos nossas influências como Public Enemy, Peter Tosh, Marley, SuperCat, KRS ONE, Die Ärzte, Hans Söllner e vários outros.

– Você ouviram alguma coisa da música brasileira quando passaram por aqui?

Não só quando passamos por aí. O seu país tem uma das maiores e mais interessante variedade musicais do planeta – nós amamos a velha música  avant-garde como Bossa ou MPB. Mas também o samba ou variações urbanas brasileiras do hip hop e do reggae. A esperança, ritmo e paixão que levam a música brasileira são uma grande fonte de inspiração.

Raggabund

– Como surgiu a banda?

Bom, fundamos a Raggabund com a intenção de tocar a nossa ideia de reggae com letras em alemão, castelhano e inglês. No início, só fazíamos música em castelhano e isso rolou muito bem por aqui. Mas, para chegar a um público europeu com letras políticas, também é necessário para as pessoas entenderem o que você diz – então começamos a colocar outras línguas em nossas músicas. Isso nos permitiu criar um grande público na Suíça, Áustria e Alemanha. A Raggabund tem várias formações vivo. Para as festas com a banda, acordeão, trombone… em clubes com DJ & Soundsystem, temos nós mesmos com guitarra e beatbox, mas sempre os dois em frente ao microfone interagindo com o público. Em suma, somos vagabundos musicais. E de “Vagabund” (vagabundo em alemão) é o nosso nome.

– Como vocês descreveriam o som da banda?

Essa é uma pergunta muito difícil – o som é global, e a mensagem positiva e consciente. Para que escrever músicas ruins, em um mundo com tanta negatividade? Nós gostamos de criar soluções mais positivas com mensagens de esperança – este mundo, com todos os seus problemas, ainda é maravilhoso e muitos detalhes mostram grande beleza – o problema é que muitas pessoas se cegam para não ver essa grandeza de perto.

– Fale um pouco mais sobre o material que vocês já lançaram.

Durante os últimos anos fizemos muitas colaborações com vários artistas. Nós lançamos cerca de 10 álbuns com diferentes projetos. Paco tem o seu programa de rádio FM Mestizo na grande WDR na Alemanha. Nós fazemos tours, shows e festivais em muitos países da Europa, América Latina e Ásia. Em 2013 lançamos a canção “La Frekuencia” no filme “The Counselor”, de Ridley Scott, com Penélope Cruz, Brad Pitt e Javier Bardem. E a Raggabund segue em frente 🙂

– A Internet ajuda ou atrapalha na propagação e proliferação de música ao redor do mundo?

Percebemos que as estruturas musicais de hoje são diferentes do que eram há 15 anos, quando começamos a fazer música profissionalmente. Cada um tem que cuidar de mais coisas por conta própria, mas também pode se beneficiar de ter uma comunidade que o suporta. Isso funcionou muito bem em nossa campanha de crowdfunding e foi muito agradável para obter uma resposta direta dos fãs. Isso nos ajudou muito concretizar o álbum “Good Medicine”. É um álbum de reggae de raiz em espanhol e alemão, algo que ainda não foi feiro. As letras são sempre em espanhol e alemão. Parece muito tradicional, porque nós evitamos o uso de batidas digitais e gravamos todas as músicas com os músicos da banda The Dubby Coquerors. Estamos agora ansiosos para saber como a música será recebida.

Raggabund

– Quais são os planos da banda para 2016?

Estamos atualmente preparando um novo álbum com toda a inspiração dos nossos passeios ao redor do mundo nos últimos dois anos – estivemos em lugares exóticos como Vietnã, Guatemala e Bolívia – e estamos agora finalizando as composições para lhes proporcionar em breve mais som Raggabund.

– Recomendem e artistas que chamaram sua atenção ultimamente e todos deveriam conhecer! (Especialmente se forem independentes!).

Nós amamos as batidas do DJ de neo-cumbia DJ Nirso – ele é de São Paulo e é dedicado aos ritmos latinos. No Chile, estávamos em um show do Matanza (nota do editor: não confundir com a banda carioca de mesmo nome) – eles se misturam música eletrônica com instrumentos andinos e harmonias, soa muito espiritual. Nós também amamos a cumbia urbana, com seus protagonistas Erick Jaimez Dallas, Captain Planet e Sumo Hair de Los Angeles – eles mostram que os ritmos latinos tradicionais também funcionam num contexto de balada, com um grave ardente e baterias digitais.