Precisamos falar sobre a Augusta: especulação imobiliária e vida noturna batem de frente em SP

Precisamos falar sobre a Augusta: especulação imobiliária e vida noturna batem de frente em SP

1 de dezembro de 2015 Off Por João Pedro Ramos

Quando se fala em Rua Augusta, provavelmente você lembrará de coisas como prostíbulos, bares, casas de shows e baladas. Pois bem: nos últimos tempos, o velho Baixo Augusta começou a contar com mais prédios em construção e o fechamento da muitos “inferninhos” que ali estavam. A especulação imobiliária e os novos moradores trouxeram também uma nova presença: o Psiu. Vira e mexe a PM e fiscais vão às baladas e bares para medir o barulho que está sendo feito e até interditar o local, se for o caso, graças à reclamações do pessoal que se mudou pra lá.

Neste final de semana, não só o Psiu passou pela Augusta como saiu multando e fechando diversas casas na Augusta e arredores, tendo inclusive fechado o Espaço Parlapatões, um dos grandes centros culturais de São Paulo, localizado na Praça Roosevelt. Foi também o caso da Blitz Haus, por exemplo, que ficou duas semanas fechada após uma visita dos fiscais.

“Parte das reclamações não é dos moradores, e sim das construtoras que estão com o prédio quase pronto e ainda não tem 80% dos apês vendidos, pois a galera sabe que o prédio está ao lado de uma balada”, diz Raphinha Lucchesi, produtor e DJ. “A reclamação do Blitz é um exemplo, ele tá cercado por um bar e uma obra, meio difícil o som atrapalhar alguém. O Lab que tem de fato um prédio como vizinho tenta de todas as formas se entender com os moradores, tarefa relativamente mais fácil pois são moradores antigos da rua, prédio antigo. Existem reclamações mas raramente o psiu é envolvido. A verdade é que no final de semana o barulho das casas é o de menos, a rua tem um movimento tão grande que boa parte do barulho está na rua mesmo”, diz Pedro Henrique Fernandes, do Lab Club. “Sempre achei que isso causaria desconforto. Obviamente os imóveis são vendidos como sendo o local de descanso ideal, vendem a região como um bairro familiar e é algo que ela não é. Infelizmente quem compra um imóvel na Augusta esperando sossego tem muito do que se arrepender. As casas vão sobreviver a esta idade das trevas, mas não será fácil”, diz Hernani Silva, repórter e redator.

Imagem: André Pomba

Imagem: André Pomba

A chegada de diversos prédios à região (muitos com kitnets onde mal cabe uma cama sendo vendidos como algo “cool”) trouxe também as visitas mais frequentes do Psiu. A Augusta, aos poucos, está sendo transformada de centro cultural e ícone da noite paulistana em um bairro residencial e “pacato” (ou pelo menos é o que os corretores vendem). “Tentam acabar com a boemia para priorizar o residencial.  Uma balada no meu bairro teria reclamações mesmo se a acústica dela fosse totalmente foda. A galera ia se incomodar por causa dos bêbados na rua, das filas, entre outros motivos. Isso tá acontecendo na Augusta. Não faz muito sentido isso acontecer lá. Gourmetizaram a Augusta. O estilo dos prédios novos que tem lá, leva pessoas que não frequentavam a Augusta, a galera que vai morar lá não vai frequentar as baladas. Os antigos prédios, redutos dos artistas/pessoas da Augusta, estão com alugueis caros, uma parada que dificulta a vida de pessoas “fora do padrão” e faz com que eles saiam da região. Eu acho que a Augusta não deveria ser local para residências e acho bizarro os caras que se mudaram para lá reclamarem, não foi uma balada que foi construída do lado do seu prédio, foi seu prédio construído do lado da balada! Não é como se abríssemos um centro de diversões na Bela Cintra, perto de todos aqueles prédios”, diz Marcos Paiola, produtor e DJ.

Segundo Debbie Hell, DJ e jornalista, “a Augusta já não era a mesma desde a época em que começaram a fechar os lugares para demolição (até mesmo em termos de público, proposta). Testemunhar os prédios serem erguidos era ver o ‘accident waiting to happen’. Tem que ser muito burro se mudar pra lá e depois chiar da ferveção da noite. E mesmo assim, a gente já previa isso”, explica. “Apesar de acreditar em ciclos, acho difícil (triste, pra ser sincera) decretar o fim da Augusta, ainda mais por um motivo escroto. Mas se as casas começarem a serem fechadas massivamente, provavelmente acredito que surja um novo núcleo de casas com o mesmo burburinho organicamente. Outra tendência talvez é que os rolês sejam mais cedo (já que os sábados e domingos também são cheios) com casas abrigando DJs e bandas em novos formatos. Mas uma nova Augusta, aquela que a gente está acostumado a descer a pé tarde da noite com os amigos, fazer tantos outros em situações absurdas, e virar a noite com a rua tomada de gente, infelizmente, acredito ser irreconstruível”

Assim como Debbie, alguns não acreditam na sobrevida da Augusta como um dia já foi e pensam que a solução é debandar da velha rua boêmia e tentar instaurar um epicentro de festas e música em outro local. “Há uns anos, algumas casas da Barra Funda acreditavam e trabalhavam na construção de uma “nova Augusta”, acreditando que isso aconteceria em quatro, cinco anos. Não vingou. Talvez uma das soluções seja voltar pro centro velho, investir em um lugar abandonado, ou até algumas bocadas mesmo (essas Ruas Timbiras da vida) e reconstruir. A Augusta que conhecemos está próxima do fim”, lamenta Raul Ramone, DJ, produtor de eventos e blogueiro.

Imagem> Catraca Livre

Imagem> Catraca Livre

André Pomba, produtor, DJ e coordenador de núcleo no Partido Verde, está pensando em como resolver o impasse que se instaurou. “Eu tenho participado de reuniões da lei de zoneamento, plano diretor, associação de moradores, tenho feito denúncias de fiscais na corregedoria e emparedando a sub-prefeitura de Sé em relação ao que tem sido feito na Rua Augusta e no parque Augusta. A administração atual do Haddad começou bem, mas agora entrou no jogo da máfia dos fiscais e construtoras. Todo mês tem blitz, todo mês tem fechamentos arbitrários. A salvação da Rua Augusta passa por mudarmos a lei de zoneamento, impedindo a construção de novos prédios residenciais, como já é no Alto Augusta (Jardins). A lei já chega na Câmara e vamos atuar com os vereadores para alterá-la. Só que sem pressão não vai. Daí conto com o apoio de todos nessa campanha. PS. O Psiu é uma lei necessária, mas cheia de erros, subjetiva, arbitrária e precisa adaptá-la a realidade sem depender da participação de fiscais que medem o som, sem participação das partes (ou seja colocam o que quiserem)”.

Já os moradores da região se dividem. Paula Boracini, jornalista, diz não se incomodar. “Decidi morar na região justamente por causa do movimento. Me sinto segura para andar na rua de madrugada e por causa de todas as facilidades da região, não sinto falta de carro. E nem preciso de táxi após beber no bar ou balada… Só descer a pé mesmo. Logo que mudei, o barulho incomodava um pouquinho sim, não posso negar. Mas depois de uns três meses, passei a não perceber mais. Acho que quem escolhe morar na região já deveria estar ciente do barulho, né? Não se compra ou alugar um apto esperando que a região mude…” Já Júlia Abrão, vocalista da banda Bloodbuzz e ex-moradora, diz que não são bares e baladas que incomodam. “Como ex-moradora da Augusta digo que: o que mais me fodia a vida e me fazia chorar ao tentar dormir era o barulho da obra do conjunto de prédios que estava subindo ao lado do meu. Reclamei no Psiu diversas vezes e um dia me falaram que eles preferiam pagar multa do que atrasar obra. Eu adoraria continuar morando por lá, o que me fez ir embora foi o preço que subiu muito, e o barulho das obras. O barulho da rua pra mim era o de menos, é como muita gente disse aqui: quem vai morar lá tem que ir esperando isso. É como morar de frente para um viaduto e não querer barulho de carro. As baladas e barzinhos eram a minha certeza de poder chegar em casa a hora que fosse e andar a pé tranquila. Uma pena que isso está morrendo”.

Há quem concorde com o Psiu. É o caso do publicitário André Pontual, morador da Praça Roosevelt. “Falamos do Psiu como se isso fosse ruim, como se as pessoas não tivessem o direito pelo que está determinado em lei, e depois zombamos de nossos políticos que, tal qual os donos dos supracitados barzinhos, “flexibilizam” a lei em prol da comodidade. Acho que antes de entrar no ‘hype’ de falar mal da nova ‘ocupação’ da Augusta, precisamos entender o que é direito e o que é dever. Sou morador da Roosevelt há pelo menos 5 anos e acompanhei desde a velha praça, à reforma (situação na qual fui assaltado mais de uma vez devido à baixíssima iluminação, cuidado e/ou presença de policiamento) até a nova Roosevelt. Vi o publico mudar de travestis, homossexuais e prostitutas (com alguns alternativos, músicos, atores famosos e etc) e ambiente praticamente seguro apesar de ser um bairro “sombrio” para um bairro “claro”, com bares e café aos redor, publico hypado, barulhento, que não respeita moradores, transeuntes ou qualquer lei além de assaltos e outros problema gerais com a lei. Convivo diariamente com a Roosevelt e sei bem pelo que ela passou, mais do que isso, sei bem o que os moradores tem passado, com cantorias até alta madrugada nas terças e quartas até os domingos e uma total falta de respeito com o patrimônio privado, com gente se aglomerando nas portas dos prédios, aproveitando as entradas (aonde ficam as portas dos prédios) para se esconder de policiais e seguranças , seja cheirando pó, baforando lança ou fumando maconha trazendo o cheiro para dentro das portarias, escadas e a alguns andares mais baixos (nos quais, normalmente, pela idade dos imóveis, moram senhores e senhoras de idade), quebrando luz, vaso de planta, incomodando porteiros, impedindo a passagem de moradores e eliminando completamente a nossa sensação de segurança aos finais de semana”, reclama.

“Quando se fala em Psiu acredita-se, de forma errada, que ele é chamado pelo barulho. Mas te digo que não é só por isso. A lei determina que a partir das 22h os barulho deve ser reduzido, é lei. Cabe aos bares, restaurantes, baladas e etc a se adaptarem e isso custa dinheiro. Quando defendemos o bar X ou Y porque o psiu foi la multá-lo, estamos protegendo o fato do dono do bar ter flexibilizado a lei, de ele estar contando com a impunidade ao invés de se adaptar ao que a Lei determinada há anos. Mas, ao defendê-los, esquecemos que o bar deles estar “fazendo barulho” não é o único problema. Enquanto ele está lá, fazendo “barulho” e desrespeitando a lei, existe uma aglomeração de pessoas na região que faz tudo que comentei acima e esta aglomeração (que não cabe nem tem interesse em estar dentro dos bares da região) atrapalha a vida de todos os moradores, inclusive a minha. E uma coisa é minha por direito e não aceito que me tirem: o respeito. Concordo que esta aglomeração passa a sensação de segurança, mas afirmo, com conhecimento de causa, que o bairro não está mais seguro, pelo contrário, os furtos e roubos estão tão comuns que já não desço mais com celular e quando vou ao mercado levo o dinheiro contado ou apenas um cartão. Já fizemos diversas reuniões com os donos dos bares (existe uma associação). O que acontece hoje é que o Psiu comparece e fiscaliza, o que há 3 ou 4 anos seria uma ilusão imaginar que aconteceria. Eles sempre foram chamados (os porteiros são instruídos a tal), mas agora eles estão mais rígidos”, completa.