“Pra quem sobreviveu à fome e balas perdidas, encarar o Twitter é mole”, diz o rapper Flávio Renegado

“Pra quem sobreviveu à fome e balas perdidas, encarar o Twitter é mole”, diz o rapper Flávio Renegado

16 de novembro de 2015 0 Por João Pedro Ramos

“Basta de tempo ruim e clima fechado, tá brutal / Século XXI, racismo, ultravírus na rede social / Insultos mil: tição, macaco, criolo, complete a lista / Enquanto a KKK bate panela na Paulista”. Foi com versos como este, sem anestesia, que Flávio Renegado se apresentou no Criança Esperança, da Rede Globo, em outubro deste ano. A emissora, é claro, não ficou muito contente, já que é uma das apoiadoras dos que fazem uma verdadeira Timbalada de panelas toda vez que Dilma Roussef aparece na TV, ignorando os escândalos de outros partidos. A ala reacionária e conservadora da internet também não gostou, criticando e falando no clássico e sem sentido “racismo inverso”. E isso é ótimo. Significa que os versos do rapper atingiram exatamente quem deveriam.

O rapper mineiro atualmente trabalha seu recém-lançado EP “Relatos de um Conflito Particular”, que conta com sete faixas que mostram, além do rap, influências de reggae e funk, além de participações especiais de Alexandre Carlo, do Natiruts, e Samuel Rosa, do Skank. Em 2008, Renegado lançou o disco de estreia “Do Oiapoque a Nova York”, fazendo shows na Europa, Oceania e todas as Américas. O disco seguinte, “Minha Tribo é o Mundo” (2011), o levou a tocar em festivais como o Back2Black e o Rock in Rio, colaborando para o lançamento do CD e DVD “Suave ao Vivo” (2014), que contou com direção musical de Liminha e Kassin.

Conversei com Renegado sobre o novo EP, sua carreira e a cutucada na Rede Globo durante o Criança Esperança:

– Você participou do Criança Esperança, na Globo, e fez um verso que vai totalmente contra a ideologia da emissora, cutucando-a ao vivo. Como foi isso?

Fiz o que é o meu som e falei o que a minha música fala. Sou assim.

– Você sofreu algum tipo de crítica com isso?

Quem acompanhou o caso pelas redes viu as críticas e o nível dos comentários. Mas pra quem sobreviveu à fome e às balas perdidas, encarar o Twitter é mole.

– A música foi criada especialmente para a ocasião?

Sim.

– Me fale mais sobre “Relatos de um Conflito Particular”, seu novo EP.

Concebi este trabalho como um grito de alerta. A humanidade está dando passos rumo ao abismo e estamos apáticos. Não podemos achar normal a série de absurdos que estamos assistindo. São pessoas sendo julgadas e executadas por causa da cor da sua pele ou classe social e há uma crescente violência contra as mulheres e homossexuais, isso sem falar dos desvios de verba e crimes políticos. Considero “Os Relatos” uma carta de socorro dos humanos para a humanidade pois a situação é emergencial.

– A faixa “Rotina” conta com Samuel Rosa, do Skank. Como rolou essa parceria?

Somos amigos e estamos desenhando essa parceria há algum tempo. Rolou o protesto certo na hora certa, é muita felicidade no som.

– Quais as suas expectativas?

Estamos em fase de montagem do show e da turnê. Estou muito feliz porque está ficando afinado com a proposta do disco, música e visual. Quem acompanha o trabalho vai curtir a evolução.

– Quais são suas principais influências musicais?

Gosto da diversidade e minhas influências passam por vários lugares: James Brown, Bob Marley, Jorge Ben, João Gilberto, Planet Hemp, Chico Science e Nação Zumbi, Racionais e Public Enemy.

Flávio Renegado

– Como você começou sua carreira?

Comecei a cantar rap moleque no Alto Vera Cruz, tinha uns 15 anos. Mas considero o start da minha carreira quando lancei meu primeiro álbum o “Do Oiapoque a Nova York” em 2008.

– Você veio de BH. A cena do hip hop é forte em Minas Gerais?

Sim e está cada vez mais estruturada. A produção está em uma crescente e vemos uma nova geração super talentosa surgindo.

– Normalmente as pessoas polarizam o rap entre Rio e SP, criando inclusive uma rixa entre as cenas…

Man, eu transito bem pelas duas praças e acho que esse papo já ficou no passado. O rap é grande e somos uma família.

Flávio Renegado

– Você está construindo uma ONG no Alto de Vera Cruz. Me fala mais disso!

Estamos a todo vapor na estruturação dessa nova empreitada. Em breve vou poder contar mais detalhes.

– Recomende alguns artistas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Tenho escutado muito 3030, Haikaiss, Felipe Ret. Em BH particularmente descobri uma galera nova bem legal, Zarastrutas, vale a pena dar um check.