Portugueses do Dirty Coal Train deixam ouvidos de público de turnê brasileira zunindo

Portugueses do Dirty Coal Train deixam ouvidos de público de turnê brasileira zunindo

31 de agosto de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Os lisboetas Conchita de Aragón Coltrane (ou Beatriz) (responsável pela jinx guitar, refrões possuídos, leitura de mãos) e Reverend Jesse Coltrane (ou Ricardo) (titular do baixo do Velho Testamento, guitarra exorcizada, bateria do capeta e pregação) formam o duo The Dirty Coal Train, que sempre conta com um baterista convidado durante suas turnês pelo mundo. Em sua recente segunda passagem pelo Brasil, o convidado foi Marky Wildstone, responsável também pela Wildstone Records e Wildstone Productions, que trouxe a banda para terras tupiniquins.

Donos de uma bagagem musical respeitável (os EPs e singles “Killer Brains From Venus” (2012, Monotone), “The Beast of Boliqueime” (2014, Zip-a-Dee-Doo-Dah), “Invasion Of The Tiki Men” (2015, Zip-a-Dee-Doo-Dah), “Weird” (2015, Zip-a-Dee-Doo-Dah) e “Spaceship to Cucujães” (Wildstone Records) e os discos “The Dirty Coal Train” (2013, Independente), “Dirty Shake” (2014, Monotone) e “Super Scum” ‎(2016, Groovie Records)), os portugueses mostraram o poder de seu garage rock do submundo com o fuzz pegando fogo em uma turnê brasileira que passou por São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba, Porto Alegre, São Carlos, Poços de Caldas, Franca, Serrana, Americana, Vila Velha, Goiânia, Sorocaba, Botucatu, Passo Fundo e Gravataí. Para eles, a diferença entre o Brasil e Portugal é meramente de tamanho. “Tirando isso, o habitat é o mesmo. Tem bicho bom e bicho ruim como em todo o lado! (risos) O que sentimos no Brasil foi coisas que também sentimos lá: sítios mais competitivos e fechados e outros em que mal chegamos fazemos logo amigos para a vida toda. É só mesmo o facto do Brasil ser do tamanho da Europa e não só de Portugal! (risos)”

Conversei com a dupla (e mantive o português de Portugal nas respostas!) sobre a turnê brasileira, sua carreira, o trocadilho com Coltrane, a cena independente portuguesa e mais:

– Como a banda começou?

A banda começou como projecto de Reverend Jesse (Ricardo) que gravou a 1ª demo sozinho. Depois disso evoluiu para duo, trio, quarteto,.. sempre a variar até estabilizar no trio: Ricardo, Beatriz e mais um baterista convidado.

– De onde surgiu o nome Dirty Coal Train?

O nome apareceu por influencia de um imaginário blues e rockabilly (onde povoam referencias a comboios e linhas de trem), misturado com o amor ao som sujo lo-fi (dirty) e a brincadeira com o nome de John Coltrane.

– Me falem um pouco mais sobre o material que já lançaram.

Ora vamos lá fazer um mini guia das edição então (risos): o primeiro single “Killer Brains from Venus” (edição limitada Monotone Discos, ligada à Groovie Records) foi gravado com Nick Nicotine tal como o primeiro LP. O single esgotou rapidamente e permitiu fazer dinheiro para lançarmos o primeiro álbum. O álbum reúne os primeiros temas, na sua maioria resultantes de demos de Rev. Jesse, mas com as primeiras colaborações com Old Rod (em temas como “Redin”, “Cabrona” ou “Lupus Hell-Oh-Vee” e Marie Laveaux (em “Zombie Bunny”)  Depois gravámos o 2º single, “Beast of Boliqueime” (também no estúdio King e com Nick Nicotine) com um cheirinho a surf sujo e o segundo LP “Dirty Shake” mostra já os primeiros temas com Conchita (Beatriz) como “Malasuerte” e “A Rock to the Muzzle”, temas ainda hoje tocados ao vivo com bastantes bons resultados. Foi totalmente gravado de forma lo-fi DIY numa tentativa de captar o som mais visceral de uma sala de ensaio. Depois da saída de Lena da bateria é lançada a compilação com os últimos temas inéditos gravados com ela e algumas demos: “Same old Lo-fi Shit” e logo de seguida “Invasion of the Tiki Men”, novamente gravado em casa pelo duo Ricardo e Beatriz com alguns amigos convidados. Em “Weird” a gravação caseira e estética lo-fi é levada ainda mais longe pois o duo assumidamente decide brincar ainda mais com a fórmula garage punk, usando por exemplo baterias com latas em vez de tarola na bateria (em “Stay Hungry”) e teclados de brincar (em “Skull”). “Super Scum” marca o 3º album e o regresso da banda a estúdio, ajudada pelo grande baterista Carlos Mendes (que tocou em bandas como Tedio Boys, Parkinsons... e hoje toca em Twist Connection) que ainda toca com a banda pontualmente. Finalmente “Spaceship to Cucujães” é um single gravado na tour Brasileira de 2015 com Marky Wildstone e foi lançado para coincidir com a tour Brasileira de 2016.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Muitas, mas juntamos num caldeirão o garage dos anos 60 (bandas como Sonics, Troggs, Standells, Stooges…), o blues mais antigo (Skip James, Blind Willie Johnson…), algum surf (Dick Dale, Link Wray, Davie Allan…) e passamos tudo pela trituradora do punk rock (desde Ramones a Crass).

– Como foi a recente turnê pelo Brasil?

Excelente! Sabe muito bem acabar uma tour e para além de bons momentos musicais haver um grande número de pessoas com que trabalhámos e tocámos a que passámos de chamar amigos! Demais para referir! Vamos só sublinhar a importância da Wildstone, que apesar de algumas adversidades e pessoal que teima em que não dá para fazer de facto… fez! E mais que fazer, conseguiu arrastar público para ver uma banda autoral que (a maioria) não conheciam. Esta luta de trazer pessoas mais novas da imediatez da promoção da TV e internet para ver ao vivo uma banda que mal conhecem é algo muito louvável e é por aqui que passa a nova musica. Não em programas de TV para eleger novos cantores e novas bandas. Isso é bom para menininhos da mamã, mas não acreditamos que o público fique bem servido nesses programas, seja qual for o estilo da banda ou artista!

The Dirty Coal Train

No Brasil, com Marky Wildstone

– Contem um pouco sobre a cena independente portuguesa para nós. Como estão as coisas por lá? Quais bandas vocês destacariam?

A cena portuguesa é pequena mas está bem dinâmica e é muito rica! Desde bandas essenciais como The Parkinsons e The Act-ups a bandas com gente velha guarda do rock como o caso de Fast Eddie Nelson, Twist Connection, Subway Riders, Volcano Skin, Planeta Quadrado e nomes novos como Conan Castro & the moonshine Pinãtas, O Quarto Fantasma, Thee Brooms, Postcards from Wonderland… muita coisa boa diversificada dentro do independente.

– Quais as principais diferenças entre as cenas underground de Portugal e do Brasil?

O tamanho, tirando isso o habitat é o mesmo. Tem bicho bom e bicho ruim como em todo o lado! (risos) Mas como é sitio mais pequeno tem em muito menor quantidade até porque na cena independente/underground as bandas e outros interessados ou se unem ou acabam por desaparecer (diluídos numa normalidade obsoleta? quem sabe…) O que sentimos no Brasil foi coisas que também sentimos lá: sítios mais competitivos e fechados e outros em que mal chegamos fazemos logo amigos para a vida toda. É só mesmo o facto do Brasil ser do tamanho da Europa e não só de Portugal! (risos)

The Dirty Coal Train

– Acreditam que a internet ajudou a aproximar bandas de outros países de forma mais simples? A internet ajuda o artista independente?

A internet é uma ferramenta enorme para divulgação e fazer contactos. Claro que nesse sentido ajuda. Por outro não podemos esquecer a evolução que a livre circulação de informação trouxe sobretudo na imediatez com que se consome tudo e também no quão rápido algo se torna obsoleto e ultrapassado. Isso acontece também com bandas. A imprensa está sempre à procura da banda nova para vender/promover. Essa pressão também chega ao underground mas aí vemos quem está mesmo de coração e quem estava para tirar foto e aparecer na revista. Quem está de coração fica e continua a tocar depois de levar chute no cu da revista, não é? (Risos)

– Quais os próximos passos da banda?

Tocar mais e lançar gravações de uma demo caseira gravada em 2012 com uma temática muito especial.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Para além dos nomes portugueses que dissémos? Nós só ouvimos banda velha! (risos) Mas vamos tentar disparar uns recentes também misturados: Goggs, Cheater Slicks, Chain & the Gang, Oblivians, Thee Headcoats, Mummies, Gories, 13th Floor Elevators, The Seeds, The Music Machine, The Electras… e não deixem de ouvir as 2 melhores bandas de rock de sempre: Cramps e Dead Moon!