Por uma Transa com outros Clubes da Esquina ou Pelo fim da automatização limitadora

Por uma Transa com outros Clubes da Esquina ou Pelo fim da automatização limitadora

27 de setembro de 2018 0 Por Pedro Vivas

O Brasil é muito mais diverso do que rankings de vídeos de Youtube e sugestões de algoritmo do Spotify.

Transa – Caetano Veloso – 1972

Na música brasileira e na música mundial há um constante embate, silencioso ou não, entre os críticos, entre os produtores ou entre os ouvintes sobre o que é definitivo, o que é moda, o que é mainstream e o que é alternativo. Se décadas atrás era muito mais fácil definir isso, com discos de vinil muitas vezes inacessíveis, raros e desconhecidos, hoje, com o advento dos serviços de streaming, a música se democratizou. Como tudo nessa vida, há pontos positivos e negativos dessa democratização tal como ela se dá. Hoje o Spotify e seus algoritmos tem grande protagonismo na definição de tendências e no ressurgimento e protagonização de discos do passado. O fato é que a escuta é muito mais acessível no nosso tempo.

Ao mesmo tempo em que a escuta torna-se acessível, o que antes era cult, underground, profundo e obscuro para a nossa geração vai se estabelecendo como cultura mainstream, vai se propagando. Hoje, qualquer pessoa que tenha um pouquinho mais de interesse na música brasileira vai saber o que é o Transa”, o que é o Clube da Esquina”, o que é o Acabou Chorare” e a lista segue com mais alguns discos. O que dizer da mais nova moda “cult” da obra autointitulada de Arthur Verocai? Um disco colocado em evidência através da cultura de samples no rap depois de décadas renegado. Na ocasião do lançamento foi retirado das prateleiras para dar lugar ao então recém lançado Secos e Molhados” e por décadas foi tratado como piada na indústria brasileira, sendo então motivo de vergonha para o próprio artista. Verocai finalmente está tendo o reconhecimento (e a grana!) que merece. A internet definitivamente tem um papel importante nisso.

Arthur Verocai – autointitulado – 1972

Ao mesmo tempo, como o crítico Luiz Felipe Carneiro analisa em vários de seus vídeos no canal Alta Fidelidade, cria-se uma espécie de processo automatizado em que as pessoas limitam os artistas a apenas essas obras, com respostas prontas e um pensamento que é fruto tanto do desconhecimento, quanto da disseminação dos rankings de Facebook. Fala-se em Novos Baianos, se responde automaticamente “Acabou Chorare”. Fala-se em Caetano, a resposta instantânea e robótica é “Transa“. Fala-se em Milton, o instinto grita “Clube da Esquina”. Tudo isso seria muito bacana se aparentasse ser um processo consciente, de quem teve de fato uma escuta revolucionária desses discos – o que não parece ser o caso na maioria das vezes. É visível que muita gente sequer ouviu esses discos, mas reproduz essas falas em troca de sabe se lá o que… É um processo automatizado, vazio.

Eu sou muito grato de ter escutado esses discos, mas alguns deles não estão entre os meus favoritos. O “Transa”, por exemplo – reconheço sua importância, mas eu prefiro muito mais a fase da “Outra Banda da Terra” de Caetano, aquela compreendida entre o Muito de 1978 e o “Uns” de 1983. Só tem discaços! E o que falar de Milton? É muito mais do que o Clube da Esquina… o próprio “Clube da Esquina Dois” é tão bom quanto o primeiro e é meio deixado de lado nessa simplificação. Boa parte da crítica também idolatra o Minas”, de 1975. Outros dizem que o “Novos Baianos F.C  pode até ser melhor do que o “Acabou Chorare”.

A grande oferta musical estaria nos tornando limitados musicalmente? Limitadores de nós mesmos? É uma dúvida honesta. Sem conservadorismo besta de quem teme o avanço das mídias digitais, mas sim de quem imagina uma potencialidade de aprendizado e revolução musical gigantesca que é reprimida pela automatização, pelo “cérebro eletrônico”, pelo “big brother” e seus algoritmos, quem sabe? Essa espécie de automatização é bizarra e redutora.

Quando se fala do disco de Arthur Verocai, mais uma vez, outro aspecto que chama atenção é o fato de que foram os gringos que “ressuscitaram” o disco! Se dependesse do Brasil toda a musicalidade do disco estaria perdida. Quantos outros discos foram perdidos pela nossa incompreensão e nossa síndrome de vira-lata? O rap brasileiro e boa parte da música popular atual tem tido um papel importante na reversão dessa tendência (O sample de “Dedicada a Ela” no disco “Esú” de Baco Exu do Blues é um exemplo). A gente precisa ter posse dos nossos rumos e do resgate do nosso passado musical! O país coloca fogo no seu patrimônio e não é só metáfora. O dia-dia é prova disso e essa merda tem que acabar.

O Brasil precisa descobrir os seus Brasis, as suas emancipações musicais. O artista é muito mais do que um disco e uma sugestão do algoritmo de um serviço de streaming. Discutir o que é mainstream e cult no final, não vale de nada, é uma conversa pra mesa de bar e ponto. Muitas vezes é até conversa pra boi dormir, disputa egocêntrica de quem conhece mais o que… que sono.

O que vale no final é reconhecer a multiplicidade de nossa cultura que produz Luiz Gonzaga, Elis Regina, Liniker, Mano Brown e tantas outras e outros. Limitar qualquer artista que seja a uma única produção e linha musical é um erro. Um erro que pode evoluir para um genocídio musical.

https://open.spotify.com/playlist/7IJLnrf8aR3mpd7UvPDsjm