Picanha de Chernobill lança “O Conto, A Selva e o Fim” falando sobre preconceito, machismo e desigualdade

Picanha de Chernobill lança “O Conto, A Selva e o Fim” falando sobre preconceito, machismo e desigualdade

9 de janeiro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Se você é um dos muitos paulistanos que aproveita o domingo para passear pela Avenida Paulista sem a presença dos inúmeros carros que abarrotam a cidade, já deve ter ouvido um pouco o som do trio Picanha de Chernobill, presença quase obrigatória no local. A banda formada em 2009 no Rio Grande do Sul conta hoje em sua formação com Matheus Mendes (voz e contrabaixo), Chico Rigo, (voz e guitarra) e Rafael Rosa (bateria e percussão) e acaba de lançar seu terceiro disco, “O Conto, A Selva e o Fim”, por meio de financiamento coletivo pelo Catarse.

“O disco foi pago com a grana que conseguimos tocando nas ruas e pra finalizar, masterizar e fazer as cópias a gente fez um projeto de financiamento coletivo no Catarse”, conta Matheus. “Ele fala muito sobre a nossa trajetória até aqui, as experiências que a gente vê e observa. E as músicas, a gente se deu conta que elas fechavam uma história. A gente não teve a pretensão de fazer um álbum conceitual, ou coisa do tipo. O que aconteceu mesmo foi que a gente percebeu foi que tudo tinha ligação, desde a capa do disco até a sonoridade e o encarte, feito em máquina de escrever. A gente masterizou em fita… Tudo relembra o passado, tudo que foi contado”, explica.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, a vida de artista independente, o palco nas ruas e a mudança para São Paulo e, é claro, o disco “O Conto, A Selva e o Fim”:

– Como a banda começou?

Cara, a banda começou em 2009. A formação era diferente, era o Chico, Morcego, Gordo, Schmidt e Bid na bateria, e nesse período foi gravado o primeiro disco da banda, com isso a gente ganhou um concurso da cerveja Polar de Melhor Banda Independente do Rio Grande do Sul, e também foi gravada a música “Vá” com o Christian & Ralf, o que deu uma maior visibilidade pra nossa banda. Eles gravaram nossa música. O engraçado é que a música foi gravada pesada também e a galera dos sertanejos, os fãs deles, deu bastante repercussão, eles acharam bastante diferente do que eles estavam fazendo. Enfim, deu uma coisa legal de quebra pra banda.

– Cara, como foi esse contato com o Christian & Ralf? Chegaram a fazer algo juntos, tocando junto com eles? Têm vontade de fazer algo nesse esquema?

Cara, a gente entrou em contato com Christian & Ralf quando a gente fez o primeiro disco, que era no formato SMD, uma criação do Ralf. Ele que criou o Semi Metalic Disc, um disco mais barato, na época era vendido por 5 reais, um preço camarada, justamente para a circulação do disco. A gente foi uma das bandas que gravou em SMD, que era mais barato e mais acessível por causa da pirataria, era metade do preço de um disco normal, entramos em contato com eles e eles gostaram da banda e especificamente da música “Vá”, que eles regravaram pra dar uma força.

– E de onde surgiu o nome Picanha de Chernobill? Qual o significado?

Chernobill é o mundo atual, o mundo que a gente está passando, e picanha é a carne nobre dessa confusão toda.

– Voltando ao primeiro disco: me fala mais um pouco de como rolou a gravação dele.

O disco é mais simplório, mais independente, de garagem, sabe? Teve muita resistência por parte do Chico no disco, de botar pra frente a banda. E eu vi que as forças foram se somando, fomos arranjando muitos parceiros. Até nessa época, que o “Velho Bar” não tinha sido lançado, a gente começou a arranjar muitos parceiros que nos arranjaram muito, até da forma que a gente veio, a gente veio em 8, não eram só os músicos, era o Samir, o Andy, o Zina, muita gente que nos apoiou muito desde que a gente fez a turnê do “Velho Bar” aqui em SP, então o primeiro disco foi importante pra gente se situar no estilo. A gente viu que em Porto Alegre era difícil de fazer o que a gente planejava, a visibilidade era menor, os bares começaram a fechar, e continuam fechando… Então quando a gente veio pra São Paulo, a gente fez uns 12 shows, fizemos Sorocaba, Itu, São Carlos, Indaiatuba, capital também… Aí a gente viu que aqui o que se plantava se colhia mais, a galera era bem mais receptiva. A gente começou a fazer um monte de amizade aqui, criar raízes. Quando voltamos à Porto Alegre fizemos um último show, um show meio de despedida. A gente veio sem batera, e ficamos um tempo compondo em casa, a gente não se apresentava muito. Parte das músicas que tocamos são dessa época, que a gente começou a tocar na rua, isso fez com que a gente conseguisse viver da música, conseguindo mostrar os trabalhos e vendendo discos. Isso deu todo o norte para a banda, inclusive financeiramente. Inclusive na popularidade, todo dia que a gente toca na Paulista são novas pessoas que a gente conhece, novas amizades. E desde quando isso foi acontecendo, desde 2014 no Largo do Paissandu todos os sábados, em 2015 a gente começou a ter outra visão da música, começamos a fazer algo mais acústico, e começamos a tocar todos os dias na hora do almoço na Praça do Patriarca, Largo São Bento, Viaduto do Chá, Barão de Itapetininga, pontos-chave do centro de São Paulo. Conforme a gente foi tocando no Centro vimos que também dava pra tocar na Paulista. A gente leva o equipamento num carrinho de metrô e vimos que era um lugar acessível, também. Na hora do almoço também, ou depois das 18h, acabamos fazendo muita história lá, foi muito divertido. Várias galeras fizeram jam com a gente, isso começou a animar a gente a ir pra rua. Conhecemos até o Tony Osanah, que gravou “Gita” com o Raul Seixas. Aquele entusiasmo da galera de fazer alguma coisa junto, isso deu mais cor para a cidade. Isso graças à gestão do prefeito Haddad, que autorizou e regularizou esta questão do artista de rua, dando a oportunidade de muita gente sobreviver da própria arte. A rua fez com que a gente gravasse vários programas de TV bacanas como o da TV Cultura, Gazeta, programa do Ratinho, da Sabrina Sato, Roberto Justus, Otávio Mesquita. Isso tudo a gente conseguiu através da rua, o que ajudou a fazer com que a gente angariasse um novo público aqui em São Paulo. Agora a gente toca de vez em quando no centro durante o final de semana, mas o sagrado mesmo é o domingo na Avenida Paulista.

Picanha de Chernobill

– E como rolou o segundo disco? Como ele evoluiu do primeiro?

Do primeiro pro segundo disco teve aquela coisa de mudança de integrante, mudou a voz, né. Queira ou não queira muda um pouco a identidade, mas enfim, é a mesma linguagem. Gravar mesmo o disco foi aquele prêmio da Polar que a gente tinha conquistado, e uma série de músicas que a gente foi compondo desde que eu tinha ingressado na banda. A gente tinha já uma ideia nova de disco, de fazer alguma coisa diferente. Eu acho que tem uma evolução também muito grande da parte acústica. Com a venda do primeiro disco a gente conseguiu comprar uma viola caipiria que até hoje é um dos instrumentos mais usados na nossa banda, o que fez com que a gente compusesse músicas como “Sol do Novo Mundo”, parceria minha com o Chico, que tem violão e viola caipira, e “Ilha de Vera Cruz” para o terceiro disco.

– Agora vocês estão lançando um disco novo. Me conta um pouco mais sobre ele!

Esse disco foi pago com a grana de “O Velho Bar” nas ruas e pra finalizar, masterizar e fazer as cópias a gente fez um projeto de financiamento coletivo no Catarse, e a gente acabou resgatando a meta. Ele fala muito sobre a nossa trajetória até aqui, as experiências que a gente vê e observa. E as músicas, a gente se deu conta que elas fechavam uma história. A gente se inspirou na foto que usamos para a capa do disco, do tio do Chico, de quando ele foi pra Nova Prata, pra tribo dos índios coroados nos anos 70. Com essa imagem a gente acabou tirando uma história dela, fazendo com que as músicas se conectassem e tivessem um segmento, sobre a história desse trabalhador que deixa a mulher e a filha em busca de oportunidades novas e uma nova perspectiva de vida em uma cidade maior. Nisso ele se encontra com diversas coisas, desigualdade social, preconceito… Tudo isso nessa viagem dele. E ele se perde, a filha dele que acaba sendo protagonista da história. É o legado da vida, deixamos o legado para os filhos e a história continua. O disco trabalha com várias questões sociais, como a exploração do trabalhador, desigualdade racial e social, machismo… Todas essas questões humanas da atualidade, tem tudo nesse disco. “Ilha de Vera Cruz” fala um pouco sobre o descobrimento do Brasil, a exploração do Brasil, né? “Tumbeiro” fala sobre os navios negreiros, sobre quem ficava doente no navio era jogada ao mar, quando diziam que os negros não tinham alma. Uma história longa que todo mundo conhece. A música do disco, “O Conto, A Selva e o Fim” seria sobre a filha, a menina da capa do disco, que está continuando essa história também. Ela quer se jogar ao mundo e se depara com o machismo e os limites impostos a ela como canaleta. Ela quer voar, ela quer sentir. Mas o homem de Cristo, o homem “de bem”, tá sempre limitando ao varal, às atividades domésticas. Então ela trabalha muito com esta história, o que ela vai trabalhar com isso. A gente quis fechar uma história inteira sobre aquela foto da capa. Ela diz muito sobre muitos que tiveram essa realidade de sair de uma cidade em busca de oportunidades e a gente fez com que tivesse uma sensação de continuidade, que o tempo passasse e as coisas fossem contadas, e dependendo da interpretação de cada um, vai se entendendo a história. “Anhangabablues”, por exemplo, é uma música que fala sobre uma mulher que a gente conhece que tá sempre no centro quando a gente toca. Ela sempre quer arranjar alguma confusão porque na verdade ela é uma doente, assim. Eu até fico pensando “cadê a pessoa dentro dela?”, deve ter uma pessoa ali dentro. Ela anda às vezes nua pelo centro, as pessoas ficam olhando e ela fica jogando coisas nos outros. Muitas vezes ela pegou coisas no nosso chapéu, a gente nem fala nada. A gente sempre vê essas pessoas no Anhangabaú, temos muito contato com isso. Como um cara que tem esquizofrenia do centro, um músico tecladista. Ele pirou de alguma coisa, tipo cogumelo, e ficou doidão, e ele não gosta da gente. A gente tentou ao máximo fazer amizade com o cara e ele briga com todo mundo. Sempre na pilha, assim. Disso a gente pegou esse sentimento dessas pessoas perdidas do Anhangabaú e fizemos o blues do Anhangabaú, o “Anhangabablues”, que deu nome ao festival. O interessante sobre esse nome é que o festival era um encontro nosso com o Lumineiro quando a gente tava sem batera e se encontrava ali no Anhangabaú pra tocar uns blues antigos como Robert Johnson, Earle Dickson, e o Lumineiro deu o nome pro festival. A gente já tinha essa música, mas não tinha letra. Aí tudo se juntou, letra, música, e acabou tudo se juntando nesse festival, que a gente fez no Estúdio Lâmina em novembro e foi bem massa.

– Então podemos dizer que “O Conto, A Selva e o Fim” é uma ópera-rock?

A gente não diria ópera-rock, pois a ópera-rock tem um conceito bem diferente. A gente não teve a pretensão de fazer um álbum conceitual, ou coisa do tipo. O que aconteceu mesmo foi que a gente percebeu foi que tudo tinha ligação, desde a capa do disco até a sonoridade e o encarte, feito em máquina de escrever. A gente masterizou em fita… Tudo relembra o passado, tudo que foi contado. A gente procura contar uma história aí, fica livre pra cada um tirar as conclusões do que é contado. Tem muito a ver com a vida, cada um tem as impressões de algo que é contado de forma universal.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Acho que tudo que a gente vê e escuta, as bandas de nossos amigos, tudo influencia a música, o resultado final. A musicalidade sempre foi uma coisa mais voltado pro 70, a gente curte pra caralho essa coisa da psicodelia, do trio, aquela coisa mais rock, mais repentista, a gente também tem muita coisa de viola caipira, mais acústica. A gente sempre tenta trabalhar com uma outra pegada, pra não ser sempre o trio. A gente andou escutando muito sertanejo de raiz, baião também, e lógico, a gente mergulhou muito no Robert Johnson também, que a gente tocou na rua e a gente tá começando a fazer vários blues e acompanhamento com essa onda do blues antigo e resgatando algumas outras coisas. Mas não só nisso, todas as bandas que envolvem a cena de hoje em dia, pelo menos a de São Paulo independente, todas se ajudam e influenciam. O resultado final faz transparecer. A gente sempre tenta resgatar alguma coisa que seja original na gente, alguma coisa sincera. As influências sempre são do rock por causa daquele velho sentimento que a gente teve quando a gente quis ser músico e aprender a tocar. É sempre uma busca, né. Sempre uma busca interminável pela tua obra, pelo que tu vai dizer, pelo que tu vai viver,  o que vai tirar proveito disso. Tudo é uma lembrança ou uma canalização, toda música tem sua coisa diferente, sua capacidade de mudar. A gente sempre tenta buscar isso, alguma coisa a mais.

Picanha de Chernobill

Picanha de Chernobill no Anhangabablues Festival

– A psicodelia está voltando no mundo independente?

Acho que a psicodelia sempre esteve no mundo independente. Na TV a gente não vê psicodelia, a psicodelia sempre esteve presente e é uma forma também de sustentar um mundo diferente, uma ideia diferente de mundo, uma transformação da realidade. Eu acho super importante no mundo independente, ela não tem forma. É que nem Mutantes no começo, bem psicodélico. Pode ser psicodélico pra lá ou pra cá, não importa, é sempre um grito de atitude.

– Me fala mais sobre o Anhangabablues Festival que aconteceu agora no final do ano. Pretendem fazer disso algo periódico?

Cara, o Anhangabablues a gente tá decidindo se vai fazer uma vez por ano ou duas. Mas estamos conversando pra fazer o próximo. A galera curtiu demais e anda cobrando, perguntando, pilhando pra gente fazer de novo. A gente vai fazer, é só pegar uma data legal e fazer na rua, né. Porque esse primeiro era pra ter sido na rua, só que tava ameaçando muita chuva, e acabamos fazendo dentro do Estúdio Lâmina, que não suportou a galera. O Lâmina é relativamente pequeno, e o tamanho do evento não suportou. Tinha 10 pessoas saindo e 4 entrando uma hora, senão não dava pra circular. Foi uma maravilha, por esse ponto, mas era pra ser um evento de rua. A parceria desse evento é da Picanha com o Mustache & os Apaches. O Lumineiro é o mestre-sala do evento, baita mestre-sala, apresenta as bandas, pilha a galera antes do shows, o que é importante… E ele é um dos produtores comigo. Eu e o Lumineiro sempre tivemos essa relação de agitar coisas, de fazer acontecer. A gente pegou esse festival pra oficializar essa parceria, pra fazer não um selo, mas um festival onde todo mundo se encontre e saiba que pelo menos muitas bandas do cenário independente vão estar lá. Bandas que recém-lançaram um disco, a gente sempre dá ênfase às bandas que estão lançando trabalho novo, produzindo algo novo. A grande sacada do Anhangabablues é ter mais parcerias, cara. Ter um momento em que a gente possa providenciar um palco com um praticável de bateria, PA, sub, segurança, banheiro químico, assim. Por enquanto é um festival independente, um festival da galera que vai abrigar muita coisa nova e muita coisa boa da cena independente.

– Quais os planos da banda para 2017?

Cara, os principais planos são divulgar “O Conto, A Selva e o Fim”, agora no começo do ano, e já ir compondo coisas pra fazer o próximo. A gente quer começar a gravar no meio do ano, fazer a pré um pouco antes. Se instalar em um sítio pra extrair o melhor de cada música. A gente ficou 4 ou 5 anos sem lançar disco, só evoluindo, tocando na rua, em busca da grana, e tal. Agora a gente quer voltar a produzir, desmistificar essa coisa, a gente ficou muito tempo sem produzir. Eu acho que hoje em dia tá tão mais fácil de gravar, tão mais acessível, né. Que a gente pode fazer uma pré massa, a gente pode produzir mais… então a gente tá tirando mais proveito dessas novas características. Agora com internet, com essa coisa de qualquer um ter uma placa de som e poder compor uma coisa de qualidade, isso é uma revolução pra todos, né. O plano é produzir mais e fazer o ano girar em torno da criação.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Meu velho, eu queria agradecer a oportunidade de estar falando do disco, de estar falando da banda, aí pro site. E acima de tudo também falar sabe os álbuns que foram lançados este ano de nossos amigos mais próximos, como “Durango” do Bruno Sá, “Time Is Monkey” do Mustache & Os Apaches, o “Tropicaos” do Molodoys, “Projeções” do Pedro Pastoriz, o Grande Grupo Viajante também tá gravando disco, vai lançar agora. Tem muita coisa boa vindo e muita coisa boa que foi lançada este ano. Então queria mandar um salve pra essa galera que nos apóia pra caralho e mandar um salve pra ti, velho. Muito obrigado por ceder espaço!