Os Muzzarelas estão voltando pra botar mais cerveja, monstros, pizza e mutantes no rock

Os Muzzarelas estão voltando pra botar mais cerveja, monstros, pizza e mutantes no rock

10 de junho de 2015 1 Por João Pedro Ramos

Os Muzzarelas - 2015

Os Muzzarelas estão na ativa desde o comecinho dos anos 90 mostrando que a cidade de Campinas, no interior de São Paulo, tem uma bela cena de rock alternativo. Afinal, são mais de 20 anos juntando punk rock, cerveja, hard rock, mutantes, zumbis, metal e monstros do espaço sem perder o fôlego (ou quase). A banda teve um período de “hiato” (ou acabou mesmo, pra ser mais explícito) e resolveu retomar os trabalhos em 2013, com shows que continuam insanos e com cerveja voando pra todos os lados.

Agora, a banda está em fase de ensaios e criação de novos sons. Não precisa se preocupar: eles não vão colocar nada do famigerado ~indie rock~ com roupas bem alinhadas e guitarras baixas que dominou o cenário. “Vai ser aquela coisa de sempre na mesma pegada: canções sobre cerveja, pizza, monstros, mutantes e merda. Punk, metal, hard rock, hardcore e garage, tudo misturado, sem esquecer dos nossos clássicos solos farofa e refrões grudentos”, contou Daniel Ete, baixista e responsável pelas ilustrações de porcos, caveiras, mutantes e monstros derretidos que estão para os Muzzas como Eddie está para o Iron Maiden.

Formada também por Alexvideo (vocais), Stênio (guitarra e vocais), Flávio (guitarra e vocais) e Marcel, vulgo “Vovó Mafalda” (bateria), novo membro do grupo que já tocava com Ete nos projetos Drákula e Desenmascarado.

Bati um papo com o Ete sobre o retorno da banda, os novos sons que vem por aí e o cenário rock mundial hoje em dia (e sua ausência de volume e sujeira):

– O Muzzarelas chegou a entrar em hiato indefinindo, né? Como rolou a volta?

Sim, nós acabamos com a banda em 2010, ninguém mais se aguentava (risos). Fazer o quê, é a convivência desses anos todos, né? E também precisávamos de mais tempo para cuidar de nossos trampos e filhos pequenos. Chegamos a fazer uns 2 shows em 2011 para comemorar os 20 anos da banda, mas foi só isso. Um tempo depois, bateu a saudade e resolvemos voltar, isso foi no final de 2013. Até agora ta tudo correndo bem e por enquanto ninguém morreu.

– Parece que vocês estão ensaiando e rolaram sons novos, é verdade?

Sim, estamos escrevendo material novo para gravar algo ainda esse ano ou no ano que vem. E vai ser aquela coisa de sempre na mesma pegada: canções sobre cerveja, pizza, monstros, mutantes e merda. Punk, metal, hard rock, hardcore e garage, tudo misturado, sem esquecer dos nossos clássicos solos farofa e refrões grudentos. Em suma, a mesma música de mal gosto duvidoso de sempre, coisa de caipira frequentador de auto lanche tosco que pira em filmes vagabundos, revista Mad, Kiss e Ramones.

– Pode contar um pouco do que estão criando nos ensaios?

Temos 2 músicas novas meio a caminho, já. Uma é um tipo hardcore podrão pegada das antigas, por enquanto está sem letra, provavelmente homenagearemos alguém com ela. A outra já está praticamente pronta, tem bem a cara das coisas que a gente costuma escrever, mas dessa vez de uma forma diferente. Mas no fim dá na mesma: estão lá os refrões e os solos farofa a la CC Deville. A letra dela conta a história de um encontro entre antigos amigos, no caso um cara e uma mina. Só que a mina quando vai na casa do cara dá sempre um cagão monstro que zoa o banheiro todo, e pelo andamento do papo parece que o cara se amarra nisso (ou pelo menos foi isso que eu entendi). Não deixa de ser um belo tema para uma canção, não é mesmo? O nome dela é “Meteor Girl” por que segundo diz a letra, os cocôs que ela fazia eram do tamanho de meteoros. Alguns dirão que é nojento, escatológico e desrespeitoso, outros dirão que é uma canção de amor. A melodia dela é bem romântica, para falar a verdade…

– Vem disco novo por aí?

Que vem, vem… Nós só não sabemos quando, ainda. É meio cedo para definir o formato, se vai ser um LP, compacto, CD, Mp3, fita cassete ou qualquer outra merda dessas. Provavelmente vai ter um monstro na capa. Ou dois.

– E aquele DVD ao vivo no Costella, rola? (A banda gravou um show no Estúdio Costella, de Chuck Hipolitho, em 2013)

Esperamos que sim, mas aí é com o Chuck, que ainda está mixando a parada. Ouvi um som que ficou pronto e está bem legal.

 

– Vocês chegaram a falar em fazer um livro e um documentário da história dos Muzzarelas. Como anda isso?

Íamos fazer um livro, mas o cara que tava escrevendo fez cagadas demais e então colocamos ele para andar e abortamos esse projeto. Pode ser que um dia a gente retome essa idéia, mas não no momento. Quanto ao documentário, esse vai rolar sim. Estamos na fase inicial, digitalizando velhas fitas de VHS e juntando os arquivos… Tem bastante coisa legal já: nossos primeiros ensaios, o Stênio com cabelo, nosso show no primeiro Juntatribo, a gravação do Jumentor e mais um monte de coisas. Já gravamos algumas entrevistas também.

– O que você acha do esquema de crowdfunding?

Acho bem legal porque é um esquema que coloca em ligação totalmente direta todos os interessados na parada, fica tudo muito próximo e descarta os intermediários. Pode ser que façamos algo nesse sentido em breve para um disco ou para o documentário.

Muzzarelas - 2015

– O que você acha da cena rock no Brasil atualmente?

O underground sempre vai ter coisa boa, isso é inevitável. É uma força da natureza, seja na época que for: nos porões sempre tem coisa boa. Tenho viajado bastante para tocar e a gente sempre esbarra em coisas boas. Já no maravilhoso mundo da comunicação direcionada para as massas, quase sempre é uma merda geral, isso também é inevitável, já que nesse ambiente maravilhoso o papo do produtor/investidor/feitor ou qualquer outra desgraça tem mais peso que o do artista. O que vale são os números e carinhas bonitas, e não a pegada. Mas no geral, tenho achado a maioria das bandas um saco, os vocalistas parecem sempre estar sempre com gripe, a maioria dos guitarras tá fazendo só cócegas nos instrumentos… É como se os Ramones nunca tivessem existido. Fora a síndrome Los Hermanos Wannabe que a gente vê por aí. Parece que o mundo é lindo e ninguém mais tem aquele ódiozinho no coração que faz do rock o rock. Falta pegada, falta sacanagem (favor não confundir sacanagem com machismo ou sexismo: quando digo sacanagem, digo The Cramps), falta vergonha na cara e originalidade. Como dizia a minha avó, falta é pegar na enxada. Sei lá, é como se fosse uma geração inteira que cresceu ouvindo NXZero, deixou a barba crescer quando entrou na faculdade e pirou no Coldplay. Gente que tem o Danilo Gentilli como referência. Não me admira que tantos jovens tenham migrado para o funk ou sertanejo, o rock feito para o grande público tá zuado. Sempre foi zuado, mas agora tá demais da conta.

Muzzarelas 3

– Quais bandas novas você acha que valem a pena ser ouvidas?

Tem muita coisa boa no subterâneo que apareceu nos últimos 10 ou 15 anos, bandas maravilhosas como o Violator, Leptospirose, Evil Idols e Estudantes. Tem coisas mais recentes que também merecem atenção como Slag, Mahatma Gangue, Anjo Gabriel, Os Pontas, Human Trash, Test, Bode Preto, Lo-Fi, Motor City Madness, Modulares, Renegades of Punk, Whipstriker e mais um monte. Tem coisas boas acontecendo em vários estilos e de várias formas, mas isso você não vê nem nunca viu na Rolling Stone. Hoje tem internet e essas porras todas, é tudo bem fácil de se conseguir, então faça um favor para você mesmo e procure ouvir pelo menos uma destas bandas que eu citei acima. Aproveite as facilidades que o mundo moderno te proporciona, tudo ao alcance de um clique, é só procurar. Quando eu era jovem, há muito tempo atrás, era tudo uma merda no sentido da logística toda: eu tinha que me desdobrar para conseguir o material das bandas que eu gostava e nem por isso ouvi Ultraje a Rigor, RPM e aquela merda dos Engenheiros do Hawaii. Portanto, o que eu tenho a dizer é que sempre vale a pena chafurdar por aí atrás de bandas legais.

Ouça um pouco da loucura cervejeira dos discos dos Muzzarelas:

2010“We Rock, You Suck”

2007“Beergod”

2002“Lotus Rock AxDx”

1998“Gorgonzullah!”

1996“Jumentor”