Orgânica e setentista, Não Alimente Os Animais prepara seu segundo disco para o segundo semestre

Orgânica e setentista, Não Alimente Os Animais prepara seu segundo disco para o segundo semestre

3 de maio de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Vinda da junção de diversos projetos paralelos, a Não Alimente Os Animais surgiu em 2014 buscando fazer um som orgânico e recheado de influências do rock dos anos 70 e o groove do funk da época. Os gaúchos Alexandre Alles (teclados e voz), Felipe Magon (teclados e voz), Lucas Ceconi (bateria), Lucas Chini (baixo e voz) e Luis Fernando Alles (guitarras e voz), conterrâneos de Caxias do Sul, lançaram em agosto do ano passado seu primeiro disco, gravado em dezembro de 2015 nos estúdios da ACIT, em Caxias do Sul, em um estúdio inspirado no lendário Abbey Road, e preparam seu sucessor, que deve ser lançado no segundo semestre deste ano. “Nesse semestre também vamos lançar nosso primeiro videoclipe, também produzido pela Rayza Roveda, que fez a capa do disco homônimo”, conta Luis Fernando.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, suas influências, o primeiro disco e sua ótima capa e a queda da cultura do álbum:

– Como a banda começou?
A banda começou em meados de 2014 quando os tecladistas Alexandre e Felipe começaram a se reunir para trocar ideias de timbres e arranjos de teclados. Eles começaram a mostrar um para o outro suas composições e dai surgiu a ideia de montar um novo grupo para compor. Em seguida entraram os dois Lucas, baixo e bateria, e por último eu me juntei à formação para tocar guitarra.

– De onde surgiu o nome da banda?
Surgiu em algum ensaio, onde provavelmente alguém fez alguma besteira ou brincadeira e outro alguém disse “não alimente os animais”. Daí ficou esse nome, mas, na verdade nós interpretamos o nome como sendo para não alimentar os atos irracionais que muitas vezes cometemos e acabam prejudicando a nós mesmos e aos outros. E como o ser humano tem muito disso, achamos que o nome encaixou bem com a proposta da banda.

– Quais suas principais influências musicais?
A banda como um todo puxou influências principalmente do rock dos anos 70 e final dos anos 60. Então a gente tem essa pegada “setentona”, onde ficam evidentes os timbres orgânicos e a espontaneidade de uma banda tocando ao vivo. Acredito que Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, The Band são nomes fortes para nossas influências, mas, aliado ao rock, temos muito gosto pelo funk e soul norte-americano, e ritmos latinos e brasileiros, o que acabou influenciando também na sonoridade da banda. Nós costumamos dizer que fazemos um “rock groovado”.

– Me contem mais sobre o primeiro disco da banda.
A banda começou em meados de 2014, mas somente em agosto de 2015 começamos a nos apresentar ao vivo, então nós ficamos mais de um ano só compondo e ensaiando. Chegamos a um ponto de ter em torno de 25 músicas para trabalhar, mas dessas, somente oito foram para o primeiro disco. Foi bem difícil escolher essas faixas para o álbum, mas optamos por aquelas que estavam mais prontas e se encaixavam melhor para o conceito de lado A e lado B, como se fosse um LP. Nós gravamos as bases do disco em dezembro de 2015, de forma totalmente independente, mas do jeito que queríamos, com Hammond B3, caixa Leslie, Fender Rhodes, Piano acústico, bateria Ludwig, amplificadores valvulados… enfim, toda aquela sonoridade orgânica que almejávamos, e de forma bem espontânea, com poucos takes e overdubs. Em abril de 2016 voltamos ao estúdio para gravar as vozes e todos os arranjos que haviam faltado. Vale ressaltar a participação dos amigos Alisson Witt, na faixa “King Kong”, Marte Fros em “Um Espejo em Cada Mirada”, e as queridas Bruna Toledo e Mari Mussoi, backing vocals nas faixas “Unforgettable”, “And I Try” e “Big Guy”. Enfim, o disco foi construído de uma maneira bem participativa e amigável, com muita gente nos apoiando. O álbum saiu pelo selo Retrola, do nosso camarada Vini Lazzari, que foi quem coproduziu e mixou o disco.

Não Alimente Os Animais

– Como foi criada a capa?
A capa é obra da Rayza Roveda, uma amiga e fotógrafa muito talentosa que está conosco desde o início da banda produzindo as fotos e algumas artes. O conceito é todo dela, nós só chegamos no set, que na verdade era um galpão lá na casa do Lucas em Antônio Prado, e posamos de modelo. As máscaras também são criação dela, então o mérito é da Rayza que conseguiu criar essa capa que fechou exatamente como pensávamos, algo meio sombrio, sarcástico e divertido.

– Como anda a cena de rock gaúcha hoje em dia?
A cena no Rio Grande do Sul está boa, mas ainda em crescimento e em constante formação de público. Existem muitos artistas e bandas, mas muito mesmo, de muita qualidade, que a cada ano lançam álbuns cada vez melhores. A grande dificuldade ainda é formar um público. Existem excelentes festivais voltados para a música como o Morrostock e o Pira Rural, que trazem atrações de todo o Brasil, e acaba rolando muita troca de informação. Mas, fora desses festivais específicos, á mais difícil alcançar as pessoas. Eu diria que o Rio Grande tem quantidade e qualidade de bandas e artistas, mas falta dar aquele passo, circular, expandir seu público. Com certeza é algo que vai melhorar se depender de nós artistas e dos produtores culturais, há um grande esforço para isso. E a cena rock do Rio Grande do Sul é algo maravilhoso, com muitas novidades a cada ano, vale a pena olhar para os artistas daqui.

– Como vocês veem a atual cultura do streaming? Ela atrapalha ou ajuda?
O streaming veio para ficar e nós artistas temos que nos adaptar a isso. Veio para ajudar, pois o acesso à sua obra é muito mais fácil, e a divulgação enorme, mesmo para quem nunca ouviu falar de você, às vezes aparece em uma playlist no Spotify, por exemplo, e você acaba sendo conhecido por um público que nem te procurou (obrigado algoritmos). Veio para atrapalhar um pouquinho também, pois dificulta e muito a vendagem das mídias físicas, que bandas independentes como nós ainda precisamos.

– Vocês fizeram um disco com um conceito, começo meio e fim. A cultura do álbum ainda existe? As pessoas ainda param para ouvir um álbum de cabo a rabo? Qual a importância disso?
Pois é, isso meio que vai de contramão ao que a sociedade vive nos dias atuais, aquela coisa rápida, volátil, muita informação. Nós amamos música e acreditamos que existem muitas pessoas que pensam que nem nós, que a música não é descartável, e sim, é algo sentimental, que nos faz rir, chorar e sonhar. Então acho que precisamos desacelerar, ouvir o disco de cabo a rabo sim, pegar o LP na mão, manuseá-lo, olhar a capa e o encarte, escutar um lado, depois o outro, é quase uma terapia. A Não Alimente os Animais faz música para nós mesmos e para as pessoas que gostam de curtir a música como um todo, e não apenas um pedacinho.

Não Alimente Os Animais

– Quais os próximos passos da banda?
Nesse semestre vamos lançar nosso primeiro videoclipe, também produzido pela Rayza. Pretendemos gravar nosso segundo álbum a partir de julho, e se tudo der certo, lançá-lo ainda esse ano. Nós já temos uma assessoria de imprensa em São Paulo, que trabalhou na divulgação do primeiro disco, dando aquela semeada inicial, e partir dai pretendemos circular pelo Brasil e o que mais vier.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Bom, vou começar citando nomes daqui da nossa cidade, de muita qualidade, que já tem discos gravados e vêm fazendo um belo trabalho: Cuscobayo, Catavento, Yangos, Mindgarden, Spangled Shore, Natural Dread, GrandFuria, Velho Hippie, Magabarat, Maragá, JL, Ária Trio… Enfim, são apenas alguns nomes de artistas de diversos gêneros aqui de Caxias do Sul que vem fazendo música boa. Também acho que selos independentes vêm fazendo um excelente trabalho, então vou citar alguns artistas que têm nos representado bem pelo Brasil e mundo afora, a Mahmed do RN e a Boogarins de GO são bandas independentes que já saíram do Brasil algumas vezes. Esses dias a Carne Doce, também de Goiás, tocou aqui e me encantei com o show deles. E por fim vou citar alguns nomes que assisti no último Festival Pira Rural, do qual participamos, e me chamou muita atenção pela qualidade: Quarto Sensorial, Guantánamo Groove, Solo Fértil, Kiai Grupo, Kula Jazz, Pata de Elefante, Tagore. A música brasileira é muito rica!