“O Rap precisa ser menos orgulhoso e menos cara feia”, diz SuspeitoUmDois, que lança o single “Eu Sei”

“O Rap precisa ser menos orgulhoso e menos cara feia”, diz SuspeitoUmDois, que lança o single “Eu Sei”

15 de junho de 2015 0 Por João Pedro Ramos

O SuspeitoUmDois é um grupo de rap vindo diretamente da cidade de Correntina, na Bahia, que começou há mais de 10 anos sem muitas pretensões, buscando apenas se divertir.  Desde 2014, Binho SUD (Letrista e Vocalista), Maurício MDN (Vocal e Beatmaker) e Bruno Santos (DJ) estão em São Paulo buscando seu espaço na cena do rap da selva de pedra. Lançaram em maio o single “Eu Sei”, seu primeiro trabalho em solo paulistano, e atualmente estão trabalhando na produção de seu próximo álbum.

O grupo lançou uma demo chamada “Suspeito Até Morrer” com 15 faixas em 2008, além de participarem de clipes juntamente com a família Realidade Sangrenta, com quem lançaram o single “Não Sou Artista”. Em 2011, lançam seu primeiro álbum, “BemSuspeito”, e em 2013 o EP “K-Taflã”.

Conversei com o grupo sobre o novo single, a trajetória da banda, o funk ostentação e a cena rap paulistana e carioca:

– Me falem mais de seu novo single, “Eu Sei”.

O single “Eu Sei” é uma música de 2009 que tava no fundo da gaveta. Resolvemos lembrar um pouco as composições antigas e decidimos produzir um novo beat e regravá-la. Na música temos a participação do nosso Beatmaker e produtor Maurício MDN, que tem seus trabalhos solo, mas que hoje é um integrante do SuspeitoUmDois, pois onde estamos ele também está, seja em shows ou no rolê. O Beat navega meio que entre um Blues e um Funk dos anos 70, com característica a batida seca e o baixo marcante de referência. A letra trata mais das questões particulares dos integrantes do grupo e da vida de quem busca alcançar através da música sua glória em meio a sociedade, família e condições.

– Como o SuspeitoUmDois se formou?

O SuspeitoUmDois surgiu sem muita pretensão de ser um grupo de rap no cenário nacional. Em 2004, ainda em Correntina, interior da Bahia, nossa perspectiva de vida era outra, a gente tava na faixa dos 15 e 16 anos, era mais diversão ao invés de compromisso. Mais para 2011 que começamos a investir, ir pra estúdio, investir em CD, vídeos, se aprofundar mais no quesito informação, leitura, a cultura, empreendedorismo e tudo mais. No início o grupo tinha 6 integrantes, em 2009 houve outra mudança e em 2014 o grupo acabou seguindo apenas com o integrante Binho SUD e o DJ Bruno Santos ainda em Salvador, Bahia. No ano de 2015 Maurício MDN entrou para o grupo, como vocalista e letrista, juntamente com Binho, agora já em São Paulo.

– Quais são suas maiores influências musicais?

Escutamos muita música popular brasileira, particularmente os integrantes tem suas preferências. O DJ Bruno é voltado mais para escutar um ragga, dub, reggae, bossa nova, samba. O vocalista e letrista Binho SUD é muito fã de Gonzaguinha, Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Chico César, 2Pac, Tim Maia, Wilson Simonal e em especial do forró pé de serra, pois vem de uma família engajada no ritmo. O vocalista e beatmaker Maurício MDN tem muita influência de dentro do rock e reggae, da galera mais underground da cena, do funk nacional também e da música gaúcha, desde Nitro Di até Rutêra.

– Vocês acreditam que a cena rap está se expandindo no Brasil?

Sim! O Rap hoje em dia tá tendo mercado e um público mais jovem. Muitos confundem esse público como algo maléfico para a cultura, mas nós do SuspeitoUmDois não. Acreditamos que aquilo que se movimenta, que se renova e não se estagna, é que sobrevive em meio ao tempo e as circunstâncias. Ir na Tv fazer o que se faz em qualquer palco não significa estar desorientado, ao contrário, é necessária muita orientação para fazê-lo. Outra questão é a propagação dos trabalhos via internet, mídia muito importante para a rapaziada dessa nova era.

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– Ainda existe uma rivalidade entre rap paulistano e carioca?

Estamos em São Paulo há pouco mais de um ano, viemos de uma realidade totalmente diferente da cena daqui, somos da Bahia, de uma predominância brutal do pagode, axé e demais ritmos locais. O que conseguimos ver é que há uma diferença gritante do rap do Rio e do rap SP. O rap do rio é semelhante a um aluno do último semestre de um curso superior, mais soltão e despreocupado, já o rap de SP, apesar de ser pioneiro, ainda parece aquele aluno novato, fazendo um rap preocupadão, preso a certos paradigmas. Nós gostamos de muitos rappers de SP, uns são mestres, mas a rapaziada do Rio faz mais um som com a cara da Bahia, talvez por sermos litorâneos.

– O rap americano possui muito da “ostentação” que aqui aparece no funk. Porque o rap em geral não entrou nessa?

O rap até que queria entrar nessa, dá pra notar, mas a rapaziada do Funk veio, se adiantou, se informou e explodiu. O rap vendo isso tudo, pensou, “vamo ficar na nossa pois a gente é muito maior do que isso”. Daí surgiu aquela questão, de que o funk chegou onde o rap faltou. Mas achamos que o rap precisa ser menos orgulhoso e menos cara feia. É o que achamos, o público quer ser feliz e ver os artistas felizes também. Nós do SuspeitoUmDois somos amigos de MCs de funk, de cantores de axé e forró, somos desprendidos de qualquer tipo de preconceito.

https://www.youtube.com/watch?v=KQ2q25GKeCw

– Quais rappers brasileiros que não estão na grande mídia vocês recomendam?

Recomendamos os grupos Opanijé, Turma do Bairro, Noblah, Sensato Du-etos, da Bahia. Também os grupos NSC de Alagoas e Agregados do Rio Grande do Norte. Há muitos outros rappers, mas preferimos citar os que ouvimos e vemos com frequência.