O quinteto Penhasco trabalha em novo disco “mais pesado, mais técnico e mais profundo”

O quinteto Penhasco trabalha em novo disco “mais pesado, mais técnico e mais profundo”

25 de maio de 2016 0 Por João Pedro Ramos

O quinteto paulistano Penhasco está passando os últimos meses praticamente morando dentro de estúdios, gravando, lapidando e reimaginando as músicas que farão parte de seu primeiro álbum. Depois de criar um EP “de rascunho” que nunca viu a luz do dia, a banda ganhou muitos admiradores nos shows energéticos e selvagens que fizeram desde então. Com uma sonoridade que passeia entre o rock alternativo, o metal e o math rock, o grupo conseguiu definir uma identidade muito forte para seu som, forte e pesado na medida certa.

Formado por Bruno (bateria), Luciano (baixo), Fernando (guitarra, backing vocais e teclado), Dija (guitarra e backing vocais) e Boqa (vocais), o Penhasco pretende nos próximos meses fazer shows junto das demais bandas de seu selo, a Howlin’ Records, além de intensificar os trabalhos das gravações de seu debut. “Não podemos firmar uma data para lançamento mas ainda há tempo!”, diz Bruno.

Conversei com a banda sobre sua carreira, letras políticas, o EP que ficou no baú e a cena independente brasileira:

– Primeiro eu queria saber como a banda começou.

Boqa: Eu e Bruno trabalhávamos juntos numa empresa de marketing digital. E ficávamos trocando ideia de som nos almoços. Num surto de irresponsabilidade chegamos à conclusão que devíamos montar uma banda. Acredito que esse surto ocorreu porque tínhamos ouvido o “All We Love We Leave Behind” do Converge. Convocamos o Luciano, que tocava baixo no Sem Registro e já esteve em projetos comigo há uns anos atrás. E Pier para a outra guitarra. Ainda tivemos a participação do Hamilton, que trabalhava conosco e tocava no Centeio. Depois de uns ensaios, Hamilton saiu. Continuamos as sessões até o dia que definimos o nome da banda.

Dija: Bom, eu fui o último a entrar na banda, então só posso contar a história a partir da minha entrada.

Luciano: Eu fui chamado para o que seria a primeira formação. Na época o Boqa disse que só faltava um baixista. Comentou isso logo após eu ter o readicionado no Facebook.

Boqa: Fizemos uma apresentação com essa formação. E depois o Pier foi desligado. Aí o Dija continua.

Bruno: Após compor algumas músicas, um único show e uns tropeços aqui e acolá, houve uma mudança no line up agora contando com o Dija e o Fernando nas guitarras trazendo uma bagagem um pouco diferente e essencialmente o EP inicial que gravamos, mas ainda não viu a luz do dia, era uma mistura das músicas que tínhamos feito e o entrosamento ainda em evolução.

– Esse EP que ainda não saiu tem data para ser lançado? Está em processo de gravação?

Dija: Tivemos diversas dificuldades em relação ao EP e hoje pensamos que ele não representa exatamente a sonoridade que buscávamos para banda. Certamente, ele verá a luz do dia, mas nossa prioridade passou a ser a composição de novas músicas que correspondessem a este desejo de consolidar uma sonoridade na banda.

https://www.youtube.com/watch?v=w3EHnJxvwH4

– Me contem um pouco mais sobre esse EP “experimental” que ficou na gaveta. O que ele tinha de diferente? Como o som da banda evoluiu desde então?

Luciano: De início nós pensávamos muito em nossas influências, pensávamos também em como soaríamos. O EP tem seus altos e baixos (para todo o grupo, mais baixos que altos) devido às circunstâncias de produção e em parte nossa imaturidade na hora de gravar. Após esse EP, uma coisa ficou clara: poderíamos ir além dentro do que buscávamos. Poderíamos buscar nossas referências, mas ao mesmo tempo ter nossa identidade. E é isso que fazemos desde então.

Dija: O EP tinha algumas ideias desenvolvidas pela formação inicial da banda. Com a minha entrada e a do Nando, nós tentamos absorver as ideias daquelas canções. No entanto, conforme fomos nos adaptando à banda, fomos ficando mais amigos e isso resultou num panorama onde ficamos mais à vontade para imprimir nossa identidade no som. Em um dado momento, vimos que o que havia sido feito não tinha exatamente a nossa cara. Era algo meio Tomahawk, meio Black Flag. Estamos concluindo os arranjos das músicas que irão compor o primeiro full-length. A partir daí, vamos imergir no processo de composição. Estamos já explorando temas como o conflito no Oriente Médio, sobre a dualidade do virtual versus realidade e outros temas que achamos interessante explorar.

Bruno: Ele tinha uma mistura de músicas que não necessariamente tinham uma “conversa” entre si, mas sim algumas referências aos artistas iniciais que saíram das conversas de formação da banda. Já as novas parecem ter mais a ver umas com as outras e isso se deve ao tempo que estamos trabalhando juntos.

Penhasco

– Foi meio que um EP de “teste”. Algo como um rascunho pra depois fazer valendo.

Luciano: Eu iria além, foi uma busca de identidade sonora mesmo. Que só foi adquirida após a entrada do Nando e do Dija.

– E como está sendo o processo de gravação do novo EP? Ele já tem nome? O que podem adiantar dele?

Bruno: A base que mantivemos é a temática mezzo política/mezzo intimista que guia a expressão agressiva da banda, agora com mais peso e trabalhos específicos pra 2 guitarras que mudou bastante a sonoridade.

Luciano: O disco novo é um full. Até então com nove sons. Ainda estamos em processo de acerto nas instrumentais e composição das letras. Não há nomes definidos.

Dija: Acabamos de gravar a versão de “Disneylândia” para o tributo aos Titãs “O Pulso Ainda Pulsa” (*nota do editor: aguardem novidades sobre isso!) Apesar de ser uma versão, ela reflete de alguma maneira o nosso atual momento. A pretensão é que o próximo trabalho seja um full-lenght. Ainda não cravamos um nome, mas o que podemos garantir é que ele será mais pesado, mais técnico e mais profundo do que o que vinhamos produzindo antes.

– As letras da banda tocam no viés político. Como esse caos em que o Brasil se transformou têm influenciado o trabalho de vocês? Essa politização rasa da população feita por memes tendenciosos e páginas do Facebook foi o começo do declínio?

Dija: Eu creio que o que vemos nas redes sociais é um mero retrato de uma maneira de pensar que já existia antes da própria internet. Ainda estamos nos descobrindo como país, como um povo e o fato das diferenças e as feridas estarem expostas é positiva em um determinado sentido. Apesar dos muitos problemas, há debate e isso é essencial para o amadurecimento de um consciente coletivo.

Luciano: Acho que há uma perda de sentido de ambos os lados. Não vemos mais o outro como semelhante. É uma sociedade de espelhos quebrados. Onde o diálogo morre.

Dija: Vou além: acho que nunca houve um diálogo em um nível que fizesse com que parássemos para pensar o que somos como país. O que está acontecendo está deixando claro que somos uma terra cheia de pessoas pensando apenas nos próprios problemas. Os debates, na maioria das vezes, objetivam sobrepor ideias e não compartilhá-las e desenvolvê-las.

Bruno: Sem dúvidas que isso reflete no trampo que fazemos, na verdade nos inspira em fazer algo que podemos considerar relevante e informativo através da música a gente tenta passar mensagem e informação sobre o que anda de errado com a sociedade, fazer música para nós, querendo ou não, é uma luta em diversos sentidos.

Dija: Nenhuma democracia foi construída da noite para o dia e se pensarmos que não tem nem 30 anos da nossa primeira eleição direta pós-ditadura, a população ainda precisa passar por muita coisa para adquirir uma consciência social e política efetiva.

Bruno: Abrir os olhos (ouvidos no caso) das pessoas que se identificam com o rock e reforçam que temos que combater e não só ficar de braços cruzados nesse cenário é fundamental.

Penhasco

– E vocês acham que faltam bandas com mensagens políticas na grande mídia, já que a situação está em um debate diário? (Ou talvez uma briga de torcidas diária, se formos ser exatos)

Dija: Eu diria que falta mais fundamentação, antes das bandas e das mensagens. O artista, ao passar uma mensagem, precisa ter profundo conhecimento do que está falando, tem que ter ideia do alcance da mensagem e saber justificar isso.

Bruno: Com certeza… E além disso, mesmo as bandas estando aí, talvez a grande mídia não seja realmente o caminho para esse perfil de banda e mensagem porque o posicionamento deles é bem conhecido: a favor da manutenção dos interesses.

Boqa: A grande mídia cria mecanismos para que as bandas de rock se adequem à um tom conservador. É, de certo modo, tragicômico, mas não deixa de ser uma estratégia efetiva. E muitas vezes subliminar.

– E de onde surgiu o nome “Penhasco”?

Bruno: O nome Penhasco tem muitas explicações, algumas realmente sérias e embasadas, algumas com alusões e interpretações de acordo com cada membro.

Boqa: No Livro “Demian” de Hermann Hesse tem um trecho que conta a fábula de um jovem que se apaixona por uma estrela… Todo final de tarde, esse jovem ia até um penhasco, ponto mais alto, para admirar o fruto de sua devoção, uma estrela inatingível. Ele se fodia por isso, né? Amar uma estrela, algo que nunca tocaria além das críticas que a sociedade acometia. Eis que febril de amor ele foi ao penhasco decidido que ia tocar sua amada, a estrela. Pulou do penhasco acreditando que ia alcançá-la a fim de consolidar sua devoção. E foi de encontro ao chão. Se ele subiu ou desceu, não sabemos, mas é a nossa percepção de vida, arte, procurarmos atingir algo, nos dedicarmos por algo que talvez seja inalcançável. Penhasco representa isso para nós, mesmo distante de tocarmos a estrela, iremos seguir devotos de nossa convicção e amor pelo que nos edifica.

Bruno: Além disso, queríamos um nome forte, que representasse o que a gente estava se propondo sonoramente, simples, com um apelo que também tivesse um impacto visual.

Dija: Herman Hesse foi uma referência importante também por conta dos seus ensaios sobre música. Há uma frase dele que gosto muito: “O simples fato da música existir e de poder um ser humano ficar, por vezes, comovido até o âmago por uns poucos compassos e inundado por harmonias, sempre significou para mim um profundo consolo e uma justificação de vida”.

Boqa: Hesse é foda! Nós amamos ele! Será que vão reclamar de spoiler do livro? (risos)

https://www.youtube.com/watch?v=2WwfEuxyJss&list=PLZ354igEzp55eEg8jGNDkpUqZgNoD3gjw&index=2

– Como vocês definiriam o som da banda?

Boqa: Por sermos um quinteto e termos as duas guitarras trabalhando de uma forma mais aprofundada nessa nova fase, eu acredito que estamos mais próximos do metal alternativo, mas saímos da zona de conforto do Metal em algumas canções. Por exemplo, nas canções mais intimistas e menos agressivas.

Bruno: Tem bastante dinâmica entre as músicas e também dentro de uma mesma música, mas de forma geral é um som pesado (agora mais do que antes) e “bem na cara” mesmo!

Boqa: Não consigo pensar algo do tipo, nós Penhasco somos uma banda disso ou aquilo, acredito que isso nos dá liberdade para explorar inúmeras possibilidades sonoras. Obviamente, sem perder nosso norte que é a música pesada que bebe do Metal e por vezes, um pouco do Hardcore e Math-Rock.

– Se vocês pudessem trabalhar com qualquer pessoa do meio musical, quem seria?

Dija: Minha lista, por ordem de preferência:
1) J. Robbins
2) Steven Albini
3) Will Yip

Boqa: Odair José, Juçara Marçal, Fábio do Animal Fado e Kevin Abstract.

Dija: No caso, eu mencionei músicos que também são produtores e inclusive são influências que trago comigo ao tocar no Penhasco, no caso do J. Robbins, por conta do Jawbox e do Burning Airlines, e no caso do Steven Albini, por conta de Big Black e Shellac. Incluiria na lista um referência nacional também, o Sérgio Ugeda, do Diagonal e do Debate.

Bruno: Eu particularmente nunca pensei nisso, por enquanto eu passo mas é uma boa coisa a se pensar (risos).

Penhasco

– Quais os próximos planos da Penhasco em 2016?

Bruno: Voltar a fazer shows com certa frequência é uma certeza, junto das demais bandas do selo (Howlin’ Records) que está na ativa e lançando material! Também pretendemos pelo menos entrar no estúdio para iniciar as gravações do nosso debut. Não podemos firmar uma data para lançamento mas ainda há tempo! Estamos repensando as músicas do EP que ainda não foram lançadas, mas a produção de material está a todo vapor.

Dija: Assim que for lançado “O Pulso Ainda Pulsa”, é certo que apareceremos por aí, tocando em algum lugar.

– Por falar na Howlin’ Records, o que vocês acham da cena independente brasileira atualmente? Como pode melhorar?

Boqa: Eu creio que já estamos próximos do que pode ser considerado uma melhora. Apesar de ainda em ilhas, algumas bandas resolveram observar outras bandas, consumir produção de outros artistas independentes e colar nos shows. É como se estivéssemos recuperando um importante senso de comunidade na ascensão do “Façamos Nós Mesmos”, uma ótica de agir com sinergia. Um fator importante é intensificar a produção e lançamento de materiais.

Bruno: Além desse trabalho por parte das bandas e consequentemente dos selos, seria mais legal ainda criar uma cultura e um “mercado” relacionando o público com os produtores.

Dija: “Cena” é uma palavra que eu procuro usar com cuidado, pois, na prática, isso não existe. O que existe são diversas pessoas trabalhando com música independente, cada uma de acordo com as suas possibilidades e sem haver muita integração entre elas. Este ultimo ponto até tem melhorado, mas falta muito ainda para chegar perto do ideal.

Bruno: A mídia física apesar de diminuir bastante ainda é interessante em alguns casos, seja CD ou vinil… A produção de artes pra capas, posters, flyers dá oportunidade pra designers… Estamparias pra vender camisetas e outros equipos… Tudo isso também ajuda a manter tanto as bandas quanto outros pequenos negócios circulando e divulgando o trampo de cada um. Portais de notícias fazendo o papel de resenhas e indicações que as revistas faziam antigamente, rádios na web com programação pra mostrar pro público que existem pessoas dispostas… todo mundo ganha com isso, o que falta talvez seja uma conexão, mas aos poucos isso está caminhando!

Penhasco

– Recomendem bandas e artistas (de preferências independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Boqa: Vixe! (risos) A lista é longa e extensa!

Dija: A princípio, sem condescendência alguma, recomendamos todas as bandas da Howlin’ e da Bichano Records.

Boqa: As bandas do Mónó (Chabad, Blues Drive Monster, Vapor, Hollowood e o finado We Are Piano), Bufalo, Blear, Poltergat, In Venus, Gomalakka, Sky Down, Chalk Outlines, The Hexx, Stase e Billy Negra. Todas da casa. The Shorts de Curitiba, El Toro Fuerte, Jonathan Tadeu, gorduratrans, e a terra nunca me pareceu tão distante, Der Baum, O Grande Ogro, Ronca, Empate, Issa Paz, Senzala Hi-Tech, Rincón Sapiência, Hellbenders, Huey, Mais Valia, Herod, St. Louis Disaster, Orange Disaster, O Jovem Werther, Pense, menores atos, Attöm Dë, Massacre em Alphaville, DPR, VIOLINS… Tem muita gente! Ah sim, Krokodil, Projeto Trator e La Burca. Esqueci uma penca, mas esses são altamente recomendáveis.

Dija: Tem as bandas da Sinewave também.

Boqa: Loyal Gun (risos). Todas as bandas do Dija!

Dija: (risos)

Boqa: Ah sim, Lava Divers da massa!