O que tem de novo no som durante a Quarentena ? – Parte 1

O que tem de novo no som durante a Quarentena ? – Parte 1

12 de maio de 2020 0 Por Vítor Henrique Guimarães

A quarentena parou muita coisa, mas o mercado fonográfico não foi uma delas. Artistas de todos os portes de alcance seguem lançando seus singles, EPs e álbuns, anunciando lançamentos futuros e o que mais der pro momento.

Seria injusto com o público do Crush em Hi-Fi não dividir algumas coisas que saíram desde que entramos na quarentena aqui no Brasil, visto que tem tanta coisa que vale demais serem reconhecidas. Algumas delas são mais ousadas e vanguardistas; outras apontam pra uma tendência de trabalho mais simples (visto limitações logísticas de produção), mas ainda assim muito sensíveis e dignas de notas. Por isso, separei esse oito lançamentos que surgiram no mercado musical nesses primeiros meses de quarentena (contando a partir do dia 16 de março).

Vem comigo?

Sorry – “925”

Os ingleses Asha Lorenz e Louis O’Bryen são melhores amigos e resolveram gravar umas demos caseiras e ver no que dava. História clássica, geral conhece. E deu certão: conseguiram um contrato com a Domino Records, gravadora que tem nomes como Blood Orange, Arctic Monkeys, Cat Power, Nérija, Melody’s Echo Chamber e vários outros nomes de peso e qualidade. Daí no dia 27 de março saiu o álbum debute da dupla, intitulado “925”. Pegando inspirações que vão da experimentação minimalista de The xx ao tom irreverente e quase de brincadeira do rock de The Ting Tings e Franz Ferdinand, a dupla alcança com muita originalidade alguns momentos incrivelmente empolgantes, quase venenosos – e por vezes bastante sexy.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Right Round The Clock”, “Starstruck”, “Rock’n’Roll Star”

925 | Sorry

Cleo Sol – “Rose in The Dark”

Depois de lançar um dos melhores EPs da última década, o Winter Songs (2018), a ansiedade e curiosidade pra ver o que ia sair no álbum de estreia da também inglesa Cleo Sol eram grandes e a expectativa era alta. Para a felicidade de todos, ela conseguiu alcançar o hype. A cantora esbanja elegância no cantar, finesse nos arranjos e muita maturidade, clareza e honestidade pra falar de paixão e de amor. É impossível sair ileso: neo-soul com pitadas de jazz e gospel music pra ambientar aquele jantar e olho no olho com o broto quando a quarentena acabar.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Rewind”, “Sideways”, “I Love You”

Dua Lipa – “Future Nostalgia”

Don’t Start Now” já é um clássico pop dos últimos anos, o que criou grandes expectativas pro que Dua Lipa tava preparando pro futuro. Pois o futuro agora é presente – em quase todos os sentidos que essa frase possa ter. Ela fala do exercício do empoderamento feminino, seja no curtir a própria companhia, seja em não se ver dependente de relações tóxicas, seja na liberdade sexual. No som, um leque de sonoridades que cruzam a disco music, Prince, Daft Punk, Mark Ronson, Lady GaGa, Crystal Waters e muitos outros. Dua Lipa abre o cenário pop dos anos 2020 com primor.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Don’t Start Now”, “Cool’, ‘Pretty Please”

Dua Lipa : il 3 aprile esce il suo nuovo album Future Nostalgia

Lanterns on The Lake – “Spook the Herd

A delicadeza da produção do quarto disco de estúdio dos ingleses Lanterns on The Lake chega a espantar tanto quanto o tom fantasmagórico de suas músicas. Isso rola porque a banda pega alguns elementos do post-rock e do shoegaze e trazem pra uma estrutura convencional, acertando em alguns momentos em algo entre o folk rock de Band of Horses e Fleet Foxes e o dream pop de Beach House e Chapterhouse – na real, é um álbum que lembra bastante o “All Mirrors”, da Angel Olsen, um dos mais elogiados discos de 2019. Uma viagem sonora introspectiva de início ao fim.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Baddies”, “Swimming Lessons”, “A Fitting End”

Lanterns On The Lake lança novo single, "Baddies"

Yves Tumor – “Heaven To a Tortured Mind”

O álbum mais ousado e vanguardista dessa lista, o quarto trabalho do nada convencional Yves Tumor é também o seu melhor definido trabalho. Ele sai um pouco da vibe do hypnagogic pop, mas sem tirar os dois pés de lá, e vem com mais ataque, mais fúria, num ritmo musical mais decidido, com poucos refrões, algumas repetições e sabendo muito bem aonde quer chegar. Ouvir o álbum é uma experiência única e prazerosa, do início ao fim. Lembra muito TV on The Radio (uma das bandas mais subestimadas do cenário alternativo) em todos os seus discos, com sensualidade, guitarras e experimentações de sobra. Um dos melhores discos do ano e que com certeza vai pontuar em várias listas de fim de ano.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Gospel for a New Century”, “Kerosene!,” “Super Stars”

Yves Tumor: Heaven To A Tortured Mind. Vinyl & CD

Àiyé – “Gratitrevas”

A Larissa Conforto, baterista da finada (?) Ventre, apresentou seu lançamento lá pro dia 20 de março. “Gratitrevas” traz 8 faixas ao longe de 23 minutos que passam de maneira muito mais intensa e profunda do que se imagina. Com elementos do trance, dubstep e até do UK garage, Àiyé explora figuras e celebra a poesia num disco impecável, político, com estética sonora sensível e incansavelmente urbano.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Pulmão”, “Terreiro”, “O Mito e a Caverna”

Béla Fleck & Toumani Diabaté – “The Ripple Effect”

O banjoleiro americano Béla Fleck e o tocador de kora malinês Toumani Diabaté se juntaram pra o álbum colaborativo (e ao vivo) “The Ripple Effect”. O álbum faz parte de uma coleção que documenta a jornada do americano pelo continente africano para descobrir as origens do banjo. Um encontro divertido, desafiador e muito bonito de se escutar.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Bamako”, “Nashville”, “Dueling Banjos”

Thudercat – “It Is What It Is”

A galera estava nervosíssima pra ver o que o nerd do Thundercat tava preparando pro novo disco dele. Acabou que o cara trouxe um time de peso pra fazer participações especiais (tipo Steve Lacy, do The Internet, Childish Gambino e Ty Dolla $ign) e mostrou um trabalho final com alto naipe de produção e de som, com uma virtuosidade plástica bastante charmosa. São 15 faixas que duram pouco menos de 40 minutos e que proporciona verdadeiras porradas de ficção científica.

VOCÊ PRECISA OUVIR: “Innerstellar Love”, “Fair Chance”, “It Is What It Is”

Thundercat, “It Is What It Is” | Bandcamp Daily