O Grandaddy está de volta do hiato (e valeu cada minuto)

O Grandaddy está de volta do hiato (e valeu cada minuto)

7 de março de 2017 0 Por Daniel Feltrin

Poptopia! por Daniel Feltrin

Depois de onze anos longe dos estúdios, a emblemática banda de indie rock Grandaddy está de volta com “Last Place”, um disco de inéditas que retoma a pegada da banda cheia de melodias sonhadoras e batidas punk orquestradas na voz sussurrante de Jason Lytle e de seus famigerados teclados.

Grandaddy que sempre foi uma banda que prezou pelo afastamento do mainstream, volta de um hiato causado pela dificuldade financeira de se manter aos seus princípios e pela personalidade do vocalista. Lytle, que afirmou sempre ter se considerado um solitário com dificuldade de adaptação e pertencimento, havia lançado os ótimos solos “Yours Truly, The Commuter” e “Dept. of Disappearance”, sempre expressou nas letras sua dificuldade de se relacionar e seus problemas com drogas, o que não é diferente em “Last Place”.

A alegre “I Don’t Wanna Live Here Anymore” e a melancólica balada de piano “This is the Part” sugerem esta inadequação em meio a registro opostos que definem o som amargodoce das composições de Lytle. A Lost Machine é outra canção que discute relacionamentos e a complexidade da adaptação a eles, mas sob o viés da metáfora da tecnologia, outro tema muito recorrente na carreira do Grandaddy.
Falando em tecnologia (e em metáfora), a sonhadora “Jed the 4th” possui a frase “this is just a metaphor” trespassada pelo efeito robótico na voz de Lytle distorcendo tudo como se nos retirasse abruptamente da posição de conforto que o estilo bem formado da banda produz, nos jogando na cara a consciência de que estamos num disco de música que é um deslocamento afetivo, como numa metáfora.
“Jed” mesmo, que funciona como um hino a mais um grande personagem da banda, remete a essa figura sulista refletida no som californiano que fazem e a continuação de uma linhagem é a metáfora perfeita para o que Grandaddy busca com “Last Place”.

Quando no ano passado a banda lançou duas músicas inéditas, inclusive a faixa que abre o disco “Way We Won’t”, parecia tomar um direcionamento mais pop, no entanto, com o lançamento do disco o que vemos é um apanhado do melhor que o Grandaddy já produziu.
Canções como “The Boat is in the Barn” e “Evermore” trazem uma sonoridade distorcida e mais desafiadora. “Oh She Deleter” e “Check In Jin” a vibe punk das origens da banda. Entre batidas e pop e baladas espaciais “Last Place” é, no fim, o resultado de duas forças conflitantes: o poder acachapante das melodias pops e o magnetismo conflitante das canções que vão desafiando esta ordem.

Ao abrir com “Way We Won’t”, com um refrão cativante, seguir com “Evermore” distorcendo tudo, continuar diminuindo o tom alegre do disco, passando pelo trio de baladas “That’s What You Get From Getting Out of Bed”/“This is the 4th”/“A Lost Machine” (com o breve interlúdio de “Jed, the 4rth”), e finalizando com “Songbird Son”, o álbum percorre com beleza rara hoje em dia uma gama de poder musical que só poderíamos esperar de Jason Lytle e cia. Altamente recomendável.