O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

O futuro que já foi: Chemical Brothers – “Surrender” (1999)

20 de julho de 2017 2 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Apesar de considerar Dig Your Own Hole” (1997) o ápice criativo do Chemical Brothers, Surrender” (1999), além de também ser excelente, me marcou mais. Esse, que é o terceiro álbum da dupla, talvez tenha sido o primeiro disco que me fez voltar os olhos para a música eletrônica.

O som idealizado por Tom Rowlands e Ed Simons vai muito além das efêmeras batidas de pista de dança. O eco psicodélico de influências sessentistas, a euforia da Madchester e o tom melodioso do contemporâneo britpop dão ao Chemical Brothers um forte tempero exótico, credenciando o duo como um dos mais importantes e influentes grupos do gênero Big Beat, representado também por Prodigy e por Fatboy Slim. Por um momento, esse foi o som mais convicto do futuro.

Em “Surrender” temos uma banda recém-consagrada e ávida por atenção, ou seja, aquele era o momento essencial para não deixar a peteca cair. Sabendo disso, percebe-se como esse trabalho foi pensado com cautela e consequentemente importante tanto para o gênero quanto para a dupla.

Dá para dizer que esse é o disco mais popular da dupla, isso porque pelo menos dois hits de grande sucesso estão na tracklist. Além disso, as participações especiais de peso chamam atenção até mesmo do público que não se liga em música eletrônica. Por exemplo, a irresistível e já clássica “Let Forever Be”, com vocais de Noel Gallagher (Oasis), é algo extremamente memorável entre os hits dos anos 1990. A lisergia a la “Tomorrow Never Knows” combinada com a bateria dançante embalam até hoje uma infinidade de discotecagens por aí. Ainda dá certo e tudo indica que sempre dará.

Mesmo se não fosse um dos êxitos comerciais de “Surrender” “Out Of Control” continuaria sendo um destaque. Também conta com participações, dessa vez com os vocais de Bernard Summer e Bobby Gillespie, New Order e Primal Scream, respectivamente. Isso por si só já é histórico. Aquele baita groove mais parece um Depeche Mode com esteróides.

Orange Wedge” e seu baixão dá uma cadência ao álbum, descendo os BPMs. De uma forma mais chapada, o duo monta um crescendo em “Sunshine Undergound” e nos quase nove minutos dá uma aula de rave.

Coloridas, vibrantes e preenchidas de um ritmo inteligente, “Music: Response”, “Under The Influence” “Got Hint?” e “Surrender” apresentam a possibilidade de música dançante com notável criatividade. Pouca gente é capaz de fazer isso soar coisa séria, e ao mesmo temo é muito difícil ouvir cada um desses sons sem mover minimamente o corpo.

As participações continuam a colorir “Surrender” em “Asleep From Day”, desta vez com Hope Sandoval (Mazzy Star) nos vocais, em um dos momentos mais bonitos e relaxados do LP.

Mas para muita gente todos os holofotes se voltam para o super hit “Hey Boy Hey Girl”, uma espécie de hino de nicho. Dá até pra arriscar dizer que todo mundo que saiu alguma vez na vida na ~night~ ouviu essa música, se empolgou e acabou dançando, ao menos batendo o pé. Para o bem ou para o mal (isso para quem torce o nariz para o eletrônico) esse pode ter sido o último grande sucesso dos anos 1990, haja vista que foi lançado como single em maio de 1999.

Para encerrar o álbum, o Chemical Brothers vai de “Dream On”, com outra participação. Jonathan Donahue (Mercury Rev) faz os vocais, violão e piano. O LP encerra gerando boa impressão. Por fim, “Surrender” consegue manter a gigante reputação do duo, consolidada em “Dig Your Own Hole”, e ao mesmo tempo abocanha mais público com hits relevantes.

Mesmo que não seja amplamente reconhecido dessa forma, este é sim um trabalho fundamental para se compreender toda uma época, quando na virada do milênio as coisas no mundo da música pareciam meio caóticas e sem uma direção a ser tomada (o que permeia até hoje). É um bom disco para recomendar para quem nunca prestou atenção no Big Beat. E, além dos rótulos, é um bom disco por si só.