O duo Projeto Trator prepara três lançamentos ainda em 2016 e inicia a turnê “Fora Temer”

O duo Projeto Trator prepara três lançamentos ainda em 2016 e inicia a turnê “Fora Temer”

13 de junho de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Paulo Thompson Ueno (guitarra e vocal) e Thiago Padilha (bateria) começaram o Projeto Trator em 2006, quando se conheceram no falecido Orkut. Desde então, o duo paulistano já lançou 7 trabalhos com uma sonoridade que passeia o sludge, o stoner, a psicodelia e o experimental, citando influências que vão de Melvins a Violeta de Outono, passando por Cólera, Black Flag, Fudge Tunnel e Ratos de Porão.

Depois de tocarem em quase todo o Brasil e fazerem diversos shows na Argentina, a dupla realizou em 2015 a sua primeira turnê sul-americana (pelo Uruguai, Argentina e Chile) divulgando seus três lançamentos do ano passado. Para 2016, o duo promete mais três lançamentos e está dando o pontapé inicial em sua nova turnê, singelamente denominada “Fora Temer”. “Na verdade a turnê iria se chamar “10 anos de Projeto Trator”. Mudamos rapidamente para de “Matando Temer”, trocadilho com clássico disco do Brujeria. No final decidimos “Fora Temer”, mais objetivo e direto”, explica Paulo.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, um pouco sobre seus lançamentos, turnês, a cena independente e a situação política do Brasil:

– Como a banda começou?

Na segunda metade de 2006. Nos conhecemos em uma comunidade do Orkut. Mas foi no início de 2007 com o primeiro EP em mãos que começamos a tocar.

– E como foi esse primeiro EP? Já gravaram antes de tudo?

Eu acho mágico esse EP até hoje, “A Bombástica Barafunda do Batizado”. Roubamos esse título de uma revista MAD que estava jogada no Estúdio Caffeine, onde gravamos. É um disco bem cru e o pesado que rendeu boas resenhas e muitos shows pela capital e estado. Nosso primeiro show havia sido na Outs com o Zeferina Bomba. Bons tempos.

– Já que falou em bons tempos: você acha que o apoio à shows autorais diminuiu desde então?

É um misto de preguiça com ostentação: o sujeito não tem 10 reais para ver a banda do camarada ou alguma outra banda nacional, mas descola 150 rapidinho para ver a banda”x” pouco conhecida dos EUA,. Europa. Hoje tudo é um pouco mais fácil: tem tudo no Youtube, dá para baixar coletâneas em minutos… Acho que isso deixa o sujeito mal acostumado e preguiçoso e acaba impactando nas casas de shows, que estão fechando aos poucos. Triste.

– Bom, voltando à banda: depois do EP, você começaram a trabalhar em material novo, certo?

Sim. Depois desse EP lançamos outro em 2009 “Azedou o Caldo” que chegou a contar com a participação de dois grandes irmãos: Don Orione (3éD+/Videocassetes) e o Clayton (Umbilichaos). É um disco que transita entre o experimental sludge malucão e o stoner clássico com refrões e clichês. Depois voltamos a gravar só em 2013 e de 2013 pra cá acho que lançamos mais de 5 trabalhos entre full, EP e splits.

Projeto Trator

– Me fale um pouco mais sobre o full album que lançaram.

O primeiro full de 2013 se chama “Na Fronteira do Ordinário Planeta Pêssego Azul”, produzido por Eduardo Murai no Estúdio Casa de Bomba que fica na Casa Mafalda. Esse disco tem uma aura bem mais psicodélica com espírito punk, críticas sociais e altas brisas. Nos rendeu boas turnês, como tocar pela primeira vez no Nordeste e Mato Grosso do Sul.

– Por falar em críticas sociais, a turnê atual da banda se chamará “Fora Temer”. Pode me falar mais disso? Qual a opinião de vocês sobre a situação atual do país?

Sim. Na verdade a turnê iria se chamar “10 anos de Projeto Trator”. Mudamos rapidamente para de “Matando Temer”, trocadilho com clássico disco do Brujeria. No final decidimos “FORA TEMER”, mais objetivo e direto. É tão difícil omitir essa situação toda. Esse golpe da elite. A Dilma errou pra caralho e todo mundo sabe. Ela também estava muito mal acompanhada, mas foi eleita democraticamente, coisa que o Temer jamais seria. Dá até vontade de ligar para o SAC (risos). Eu votei nela, mas eles inventaram mil motivos para ele sentar no trono. Se bem que isso me pareceu orquestrado. Um grande retrocesso, estamos voltando no tempo. O mote de toda a treta foi a economia… será mesmo? E as conquistas no campo dos direitos humanos? Isso é preocupante. É necessário de uma mega faxina. Deletar logo aberrações como Renan, Sarney (essa porra não morre nunca), Cunha, Bolsonaro… Pra que tanto evangélico? Reforma política urgente. Eu não sou nada otimista. Tem umas notícias surreais como o Alexandre Frota em reunião no MEC. Esse momento é delicado e é mais que importante se posicionar, não pode deixar barato.

– Quais são as principais influências da banda?

Somos dois. O batera, Thiago Emanuel da Silva Padilha, curte essas bandas Melvins, Black Flag, Eyehategod, Om, Ratos de Porão… Eu também gosto muito das mesmas bandas mas faço um anexo: Violeta de Outono, Cólera, Discharge, Neurosis, Patife Band, Fudge Tunnel, Sepultura (somente até o “Chaos AD”), Sarcófago, The Mist… thrash metal bay area e bandas da Dischord, SST… Se deixar não acaba mais.

– E de onde saiu o nome “Projeto Trator”?

Lá no inicio da banda, pensamos primeiro em “Trator”, metáfora que remete à peso e algo arrastado, mas na primeira consulta ao oráculo Google, desencanamos. Achamos várias bandas o esse nome, e como a ideia da banda estava em gestação e tocávamos em outras bandas, eu no Atitude!, banda punk crossover dos anos 90 e o Padilha numa banda cover, aí veio o “Projeto”.

Projeto Trator

– E o que vocês acham da cena rock hoje em dia no Brasil?

Existem vários festivais fora do eixo RJ-SP, as bandas estão circulando mais, saindo de suas cidades, coletivos realizando eventos e ocupando o espaço público. Em Maceió tem o pessoal da PopFuzz, em Recife a Stoned, em Natal o Natal Experimental, tem o German (Rarozine) em Atibaia/Bom Jesus dos Perdões/SP… Isso é muito bom. A gente roda bastante e eu vou aproveitar o embalo para citar algumas bandas incríveis: o Cassandra (Curitiba), Marte (Curitiba), Os Brutos (surf music – SP), Autoboneco (Bauru), DeafKids, Kalouv (PE), RG Noise City (SP), Mondo Bizarro (PE), Necro (AL), Koogu (RN), Black Witch (RN), Cocaine Cobra (CE)… O mais é fundamental para a saúde desse cenário, é comprar os produtos das bandas.

– Se vocês pudessem trabalhar com qualquer pessoa do meio musical, com quem trabalhariam?

Se eu pudesse faria um EP sludge bem gosmento, ultra pesado e arrastado com Alex do Krisiun mandando um vocal e um baixo. Isso me deixaria bem feliz (risos).

– Quais são os próximos planos da banda?

Como de praxe, lançar logo o novo álbum, que foi gravado no projeto da Converse Rubber Tracks, produzido pelo ex-batera do Sepultura e pelo nosso parceirão David Menezes. Esse trabalho está sendo masterizado nos EUA e tocar. Estamos planejando um giro pela Europa mas queremos tocar mais pela América do Sul, voltar para a Argentina, Chile e tocar mais no Brasil, ainda ainda não fomos para Belém, Manaus. Tem muita coisa.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Opa. Acho q cheguei a citar algumas bandas à cima, vamos lá: Mondo Bizarro (Recife/PE), Kalouv (Recife/PE), Cosmo Grão (Recife/PE), Necro (Maceió/AL), KOOGU (Natal/RN), Venus Negra (Natal/RN), Talude (Natal/RN), Black Witch (Mossoró/RN), Cocaine Cobras (Fortaleza/CE), Cassandra (Curitiba/PR), Marte (Curitiba/PR), Pantanum (Curitiba), BlackSlug (Vitória/ES), Gasoline Especial (Jundiaí), Videocassetes (SP), Testemolde (SP), Desgraciado (SP), O Grande Ogro (SP), La Carne (Osasco), Armagedom (SP), Tuna (SP), Rakta (SP), DeafKids (RJ), Água Pesada (SP), Noala (SP), Cruel Face (SP), Desalmado (SP), Chemical (SP), Fatal (SP), Surra (Santos)…