Nosso Querido Figueiredo lança uma infinidade de singles, EPs e discos gravados no escuro do seu quarto

Nosso Querido Figueiredo lança uma infinidade de singles, EPs e discos gravados no escuro do seu quarto

4 de setembro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

O Nosso Querido Figueiredo é um projeto solo de experimentalismo e música lo-fi de Porto Alegre nascido em 2008 em um pequeno quarto, quando o músico Matheus Borges aproveitou uma grande decepção amorosa e o segundo turno das eleições municipais para começar a compor.

Desde então, foram muitos (muitos mesmo!) singles, EPs, clipes, vídeos e tudo o que sair da cabeça de Matheus. “Tem gente que acha que é por causa do General Figueiredo, mas não tem nada a ver”, explica. “Tudo bem que, com o passar dos anos, eu fui falando mais de política, mas mesmo assim. Uma vez um cara disse para eu trocar o nome para Saudades do Figueiredo”. Até o momento, o último álbum lançado por ele foi Eu Não Estou Em Sintonia”, em 2015, mas ele já está trabalhando em um novo disco, que provavelmente será lançado ainda este ano.

– Como esse projeto começou?

Em outubro de 2008, eu gravei umas cinco músicas, que na verdade eram poemas que eu tinha escrito, gravei esses poemas acompanhados de violão. Acontece que eu não sei tocar violão. Eu tinha 15 anos. No ano seguinte eu comecei a mexer com softwares, sintetizadores, sequenciadores, etc. Aí foi evoluindo. Os primeiros álbuns são bem rudimentares, acho que não são nem experimentais, são só empíricos mesmo.
A partir de 2012, acho eu, eu já tinha mais uma noção do que eu tava fazendo.

– E como surgiu o nome Nosso Querido Figueiredo?

Disso eu lembro mais ou menos, foi meio que um monte de coisa junto. A primeira ideia era uma banda com um nome muito ruim, um nome que não fosse nem comercial e nem instigante por ser provocativo. Depois eu ouvi alguém falando “ah o nosso querido fulano de tal” e aquilo me deu um estalo, que até hoje eu não sei se foi bom ou ruim. Fui testando um nome aqui, outro ali, para ser acoplado ao Nosso Querido. Não lembro mesmo como cheguei em “Figueiredo”. Tem gente que acha que é por causa do General Figueiredo, mas não tem nada a ver.

– Eu achei que tinha alguma relação com isso, mas as músicas indicavam que realmente não tinha nada a ver.

Não tem, nem de longe. Tudo bem que, com o passar dos anos, eu fui falando mais de política, mas mesmo assim. Uma vez um cara disse para eu trocar o nome para Saudades do Figueiredo.

– Você considera o Nosso Querido Figueiredo um projeto solo ou uma banda?

Eu acho que é um projeto solo, pelo menos é solo agora e tem sido nos últimos nove anos. Mas já tentei montar uma banda, acho que foi em 2012 ou 13. A gente ensaiou algumas vezes, fizemos arranjos novos para composições minhas. Mas também tem algumas faixas com mais gente em alguns álbuns do Figueiredo. “Blues do Recesso” no álbum “Cavá-lo”, “O Que Me Resta” no “Nossa Cidade 16”. São voz e violão/guitarra. Como eu não toco nenhum dos dois instrumentos, as duas faixas têm participações de amigos meus.

– Então é meio que um projeto com formação flutuante, que pode ter só você ou o número de integrantes que calhar em cada som. E você é o cabeça.

Acho que sim, mas na maior parte do tempo é uma cabeça sem corpo. (Risos)

– Quais as suas principais influências musicais pra esse projeto?

Bah, deixa eu pensar… Isso é complicado, tem muita coisa, e muita coisa diversa. Mas acho que nas últimas gravações, de 2015 pra cá, tenho pensado muito no Belchior e no Lou Reed. Não que haja alguma semelhança, mas tenho pensado muito em músicas deles. Isso para escrever. Agora quanto à produção, penso muito em Brian Eno e música alemã dos anos 70, algo de hip hop também.

– Me conta um pouco dessa infinitude de EPs, singles e discos que você lançou.

Bom, cada caso é um caso, mas eu me sentia muito atraído à ideia de álbum conceitual e durante muito tempo eu fiz isso, estendia conceitos em 11, 12 canções. Em 2012 eu gravei dez álbuns. Tens uns bons, outros nem tanto. Mas eu gostava mesmo de estender as ideias, de gravar ao vivo mesmo, cantando sobre a base, o looping, ir improvisando. Era bem mais rápido de gravar assim. Um desses álbuns de 2012, “A Noite do Homem Morto”, eu gravei em uma madrugada. Mas aí eu comecei a trabalhar mais nos instrumentais, editar as vozes, etc. Mais foco, mais trabalho.  No tempo que eu levava para gravar dez álbuns, agora eu gravo dez canções.

Nosso Querido Figueiredo

– Antes era uma coisa mais imediata, mostrando o que inspirou o som, né.

Sim, era bem mais imediato e bem mais associado a um gênero, ou industrial ou rock ou até mesmo samba. Acho que funcionava naquele momento da minha vida, porque eu era adolescente e é isso que adolescente faz, ficar tentando se encontrar o tempo inteiro e de um jeito meio impaciente. Agora eu tenho uma ideia melhor do que eu sou e de que tipo de música eu posso fazer. Então as músicas novas, as que eu tô gravando agora, têm muito mais da minha experiência pessoal do que de pastiche.

– Me fala mais dessas músicas novas.

O último álbum que eu lancei, álbum álbum mesmo, com músicas novas e tal, foi o “Eu Não Estou Em Sintonia”, em 2015. Logo depois que eu lancei o “Sintonia”, larguei mais dois EPs, um de outtakes do disco e um de variações da faixa “Os Dragões”. Entrei 2016 zerado, sem nenhuma gravação que pudesse lançar, nada novo — e essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Logo depois, meu microfone estragou. Então em 16 fiz outras coisas, editei um álbum antigo, o “Nossa Cidade”. Gravei com meu amigo Bruno um LP de nossa banda Creepypasta, produzi o EP do Tiago Félix, que é um poeta lá de Portugal que veio falar comigo. Mas não tinha um microfone. Aí no começo do ano ganhei um microfone novo e comecei a tentar gravar coisas novas. Em consequência da mudança de microfone, acho que minha voz tá melhor nessas músicas novas, mais relaxada, mais natural. Lancei “Para vencer na vida não precisa ser rebelde”e Isso sim é revolução! em junho. Tô colocando elas na internet à medida que o álbum vai sendo gravado. É quase como um álbum novo sendo construído em público mesmo.

– E você às vezes lança também clipes para as músicas. É tudo produzido por você mesmo?

Clipe é uma coisa que eu faço de vez em quando, mas que eu gosto muito de fazer. Nos últimos anos, desde 2014 pelo menos, tenho feito sempre um clipe para cada álbum. Faço eu mesmo, sim. Antes eu gostava de mexer com imagens de arquivo, fiz assim vídeos para “Cavalo Horse” (2013), “A Arma e o Band-Aid” (2014), “Os Dragões” (2015). Em 2016 eu e a minha namorada, Carolina Vicentini, fizemos um vídeo para “Fantasma no Ouvido”, uma das músicas da Creepypasta. E não usamos imagens de arquivo, fizemos tudo em casa, cenários, luzes, ela esculpiu duas cabeças de argila, catamos uns pés de galinha sujos de sangue.
(“Dragões”, “Fantasma” e “Band-Aid” estão aqui: https://vimeo.com/matheusmedeborg)

– Como você vê a cena independente hoje em dia?

Eu ouço bastante alguns artistas independentes brasileiros, mas não sigo religiosamente a cena e a verdade é que eu saio muito pouco de casa. Nos últimos tempos eu vi alguns bons shows de bandas daqui – Mar de Marte e Musa Híbrida, particularmente – mas não me considero parte da cena, não sei. Enfim, meu último show foi em 2011. Às vezes penso em fazer outros shows, mas ainda não me resolvi. Figueiredo sempre foi eu, gravando no meu quarto, divulgando do meu quarto, aí quem quiser ouvir, ouve. Quem quiser falar comigo, fala. Isso desde 2008. Eu tenho a impressão de que eu peguei o modelo de banda de um homem só e transformei na cena de um homem só.

– Quais os seus próximos passos, musicalmente?

Primeiro, vou terminar de fazer esse disco. Do jeito que está agora, acho que tenho com uns 40% dele prontos. Depois, ainda não sei. Talvez eu insista na possibilidade de fazer shows. Show ou shows, mas não uma turnê.

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Bom, eu falei ali da Mar de Marte e da Musa Híbrida, então aí já tem dois. Sei que a Chapa Mamba vai lançar um álbum novo agora e estou ansioso para ouvir. Tem um músico aqui de Porto Alegre, o Guilhermo, ele faz umas coisas bem interessantes dentro de eletrônica. Tem tudo no Soundcloud dele.
https://soundcloud.com/guilhermo-gil/bangbang