Motormama lança EP com homenagem a Júpiter Maçã em “Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)”

Motormama lança EP com homenagem a Júpiter Maçã em “Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)”

5 de setembro de 2016 1 Por João Pedro Ramos

Um cruzamento entre Mutantes e Neil Young com altas doses de caipiragem e psicodelia. O som do Motormama, banda criada em 1999 da transmutação do grupo Motorcycle Mama, ganhou elogios em publicações como Playboy, Bizz, Rolling Stone, Folha de S. Paulo e Jornal do Brasil. Formada por Régis Martins (guitarra, violão e voz), Joca (baixo, programação e voz), Gisele Z. (vocais), Alessandro Perê (teclados) e Thiago Carbonari (bateria), a banda acaba de lançar o EP com 3 músicas “Se eu Sangrar, Não Chores Não”, contando com um tema instrumental (“Metti La Macchina”, inspirada numa viagem à Itália) e duas canções existencialistas: “Não Sou mais o Mesmo Sujeito” e “Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)”, homenagem à Flávio Basso, o Júpiter Maçã.

Conversei com Régis sobre a carreira da banda, sua discografia, o novo EP e o disco que vem por aí:

– Como a banda começou?

Motormama nasceu em 1999 das cinzas do Motorcycle Mama, grupo com algum destaque no final dos anos 90. Eu e o Joca, baixista, juntamos forças pra fazer um som mais psicodélico e folk. Conseguimos um vocal feminino, a Gisele Z., minha esposa, e um tecladista. No começo, gravávamos e tocávamos com uma bateria eletrônica. Clima lo-fi total. Essa primeira fase é possível ouvir em nosso primeiro EP, “Mestiço”. Esse trabalho teve uma repercussão legal na antiga revista Bizz. O que abriu várias portas pra gente… Lembrando que tudo isso acontecia em Ribeirão Preto, interior de São Paulo…

– E como era essa cena do interior na época? Como ela evoluiu desde então?

A cena no interior é muito irregular. Teve certa força nos anos 1990, mas depois foi deteriorando. Cada começo de década tem sempre uma certa crise que acaba espantando muita gente. No nosso caso, os anos 2000 foram muito benéficos… Mas éramos um caso isolado. Fazer música autorial no interior é uma loucura. É quebrar pedra todos os dias, criar seu próprio espaço, procurar seu público. Muita gente não dá conta, só os malucos como nós (risos). Mas luta continua…

– Como foi a produção deste novo trabalho depois de 3 anos?

O single foi gravado em Ribeirão Preto, interior de SP, cidade natal da banda, nos meses de junho e julho, no UnderStudio. O dono do estúdio, Romulo Felicio, faz parte da banda de metal Necrofobia e vem produzindo os últimos trabalhos do Motormama. O último lançamento foi o compacto ‘Flores Sujas do Quintal’, lançado em 2013. Ou seja, há três anos. Depois de um single em vinil, que é a coisa mais antiga do mundo, vamos para o caminho oposto, um single virtual.

– Me fala um pouco mais do single. Ele foi criado em homenagem ao Júpiter Maçã, certo?

O single tem três canções, uma delas ‘Se o Mundo Desmoronar (Nunca Perca a Cabeça)’ é uma homenagem ao Júpiter que foi um cara que me influenciou muito quando criei a banda. Lembro quando ouvi ‘A Sétima Efervescência’ pela primeira vez e disse: é isso! Nos conhecemos uma vez quando tocamos num festival de Goiânia, acho que era uma pré-festa do Bananada. Ele gostou muito do nosso som e veio falar com a gente, daquele jeito dele. Falando uma mistura de gauchês/inglês/francês, nos disse: ‘Congratulations!’ Fiquei muito triste com a morte dele. Uma coisa bem triste, ainda mais sabendo o que ele vinha passando nos últimos anos. Era um cara muito talentoso que sucumbiu a esse mercado nosso… A música fala um pouco disso: se tudo estiver desmoronando, tente manter a sanidade. É um aviso que também faço pra mim (risos). Espécie de mantra!

Motormama

– Quais são as principais influências musicais da banda?

Rapaz, basicamente Mutantes e Neil Young, mas junte isso aí a Kraftwerk, pós-punk inglês e música caipira. Cada um da banda dá o seu pitaco…

– Por falar nisso, a banda ganhou reforços nos últimos tempos, né?

Na verdade, somos um quinteto desde 2001, mas já mudamos a formação muitas vezes. Da formação original, manteve-se eu, o Joca e a Gisele. Contamos atualmente com o Alessandro Perê nos teclados, que está com a banda desde a participação no Primavera Sound em 2014, na Espanha, e Thiago Carbonari na bateria, que entrou esse ano.

– Me fale um pouco mais sobre o material que vocês já lançaram.

Em 2003, lançamos nosso CD de estreia, “Carne de Pescoço”, por meio de nosso próprio selo, a Kaskavel Music, com distribuição da gravadora Midsummer Madness. Com treze músicas, teve boa repercussão nas principais mídias brasileiras como revista “Playboy”, jornais “Folha de S. Paulo” e “Jornal do Brasil” e destaque no “Jornal Hoje” da Rede Globo. Três anos depois, é a vez do CD “A Legítima Cia. Fantasma”, inaugurando a parceria dos selos independentes Midsummer Madness e Pisces Records, de Bauru, interior paulista. Mais elogios e convites para festivais no país. Foi nosso disco que mais vendeu até hoje. Praticamente esgotado, comemorou dez anos nesse 2016. Em 2010, o grupo grava seu terceiro CD “Aloha Esquimó”, mais uma vez pelo Midsummer Madness . Depois de vários shows por casas e festivais de todo o país, em setembro de 2011, o grupou estreou em terras estrangeiras e se apresentou no festival Pop Montreal, um dos mais importantes do Canadá. Em 2013, o Motormama lança seu primeiro compacto em vinil: “Flores Sujas do Quintal”, parceria entre o selo da banda Kaskavel Musik, e a gravadora carioca Midsummer Madness. Foi uma experiência bem legal. Graças a essas músicas, fomos convidados a tocar no festival Primavera Sound, na Espanha em 2014.

– Como foi a experiência no Primavera Sound? Como rolou o convite?

Temos uma agência gringa que nos informa sobre shows internacionais, a Sonicbids. Ela nos envia diariamente sobre inscrições em festivais. Graças a eles, conseguimos participar do Pop Montreal, no Canadá, em 2011, e o Primavera Sound, em 2014. Na época o Primavera escolheu quatro bandas do continente americano: uma do Canadá, uma dos EUA, uma da Argentina e uma do Brasil, no caso, a gente. Foi uma grande surpresa. É um baita festival, um dos maiores da Europa.

Motormama

– O que você acha da cena independente atual? Como ela difere da do final dos anos 90?

Hoje as pessoas não se preocupam com gravadoras grandes, em tocar nas rádios comerciais ou no programa do Faustão. A internet facilitou muito a vida dos independentes, na hora de mostrar o trabalho e fazer a divulgação. Existem muitas bandas boas, mas ainda acho que falta um mercado que sustente tudo isso. Tudo se pulverizou e viver de música hoje é uma batalha sangrenta…

– E você acha que existe uma maneira da indústria voltar a dar atenção para os independentes?

Vejo sinais como a Skol Music e a Sony que lançou uma coletânea virtual com bandas novas, me parece. O problema é que aqui é 8 ou 80. Não é como os EUA, onde um mercado independente prospera com um roteiro fantástico de casas de shows, selos e produtores. Mas o Motormama se beneficiou muito com esse novo espectro. o trabalho de blogs e sites hoje é uma coisa fantástica no país… Antes você chorava para ter um espaço numa Folha de S. Paulo. O mundo é outro. Agora, viver de música é outro papo.

– Quais são os próximos passos da Motormama?

Queremos fazer shows com esse novo material para ter grana suficiente para gravar um disco completo. Nosso intenção é gravar nosso novo álbum até o inicio de 2017.

– Vocês já estão trabalhando nas músicas deste álbum? 

Sim, semanalmente. Será um disco mais psicodélico e ‘hard’. É um novo momento da banda e, por vezes, pisamos em terreno desconhecido. Espero que funcione. Se der tudo certo, (re)começamos a gravar em outubro ou novembro…

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos

Cara, as bandas que mais ouvi nos últimos tempos foram Cidadão Instigado com o ‘Fortaleza’ que adorei, e o mais recente do Thee Oh Sees, banda de São Francisco que faz um som malucaço. O disco é o ‘A Weird Exits’ e considero até agora, o disco do ano…