Molotov Conspiracy, de Minas Gerais, injeta a cultura skate em seu punk rock rápido e sem freios

Molotov Conspiracy, de Minas Gerais, injeta a cultura skate em seu punk rock rápido e sem freios

30 de março de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Formada por Gustavo Ottoboni (guitarra), Gabriel Ottoboni (bateria) e Caike Motta (baixo), a Molotov Conspiracy é de Piranguinho, uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Lá, o trio começou em 2012 sua mistura de hardcore, punk, surf music e thrash crossover e chegaram até a ser expulsos de um show ao ar livre por uma igreja das proximidades. Interior, sabe como é.

É claro que o lifestyle interiorano não é poupado nas letras do primeiro disco do trio, “Country Pit”, que mostra um pouco das influências de Suicidal Tendencies, Agent Orange, as trilhas da série de jogos “Tony Hawk’s Pro Skater”, surf music e molecagem. Agora, eles preparam seu segundo trabalho, a ser lançado em breve.

Conversei com eles sobre sua carreira, a vida de banda independente no interior, a influência do skate e sua cultura e mais:

– Como a banda começou?

Caike: A banda começou em 2012. A ideia inicialmente era se ter uma banda pra tocar por diversão nos rolês. Trabalhar numas músicas autorais. Acabou que foram surgindo músicas, ideias, e a gente foi levando. Cada hora trazendo um tipo de influencia diferente, desde que soasse rápido. O projeto foi inicialmente idealizado pelo Gu,
acho que ele pode comentar mais sobre as origens, pré 2012.

Gustavo: Entre 2006 a 2008 mais ou menos eu tinha uma outra banda de HC melódico com o Gabriel e o Yuri, um amigo nosso de Piranguinho, a Fastfood. Não chegamos a gravar nenhum material oficial, além uma demo caseira de um som que se chama “Esse É Um Lugar Feliz”. Foram tempos divertidos, mas a banda não vingou. Se hoje em dia o espaço pro underground é limitado aqui no sul de Minas, imagina há 10 anos atras. Fora outros projetos da adolescência como o The Mente e o Punk Rock 900º que tomaram o mesmo rumo, sem registros. Bom, a partir de 2009 eu comecei a entrar mais na onda do HC oitentista depois de ver o Suicidal Tendencies com o clip de “You Can’t Bring Me Down” na MTV e ter achado a proposta do som fodástica. Na sequencia fui descobrindo os clássicos do HC/skate punk, tipo Black Flag, Dead Kennedys, JFA, Agent Orange, Bad Brains, a Grinders e assim por diante. Nessa pegada fui redescobrindo o punk rock como lifestyle e o skate também. E então, em 2010, rolou em Itajubá, uma cidade vizinha, a segunda edição do Sobrevivência Punk, onde tocaram entre outras bandas o Lo-Fi Punk Rock e o Orgasmo de Porco. E foi nesse caldeirão que tive o insight de voltar a fazer som, com uma pegada mais agressiva e barulhenta, e em meados de 2011 começar a compor “Freedom is my Religion”. Mas o maior problema estava sendo achar um baixista para fechar o power trio, sempre tive preferência por tocar em trio, gosto do desafio de fazer um som legal com menos. Todos que ouviam a proposta achavam o som barulhento demais. Então, em 2012, o Caike me mandou por acaso uma demo tocando baixo, gostei da pegada e então convidei ele pra fazer parte do trio e então começamos a trampar nos sons.

– Quais as principais influências musicais da banda?

Gustavo: A base de tudo que fazemos é a música veloz em geral, que seja HC punk, crossover e “crássicos” da surf music como “Wipe Out”, “Misrlou”, “Malagueña”. Fora isso, buscamos colocar um pouco das preferências musicais de cada um da banda. A regra é, não temos muitas restrições pra compor desde que saia algo, rápido, visceral e original. Cada som que compomos tem uma cara própria.

Caike: Eu como baixista traria muito a influencia de Suicidal Tendencies, Red Hot Chili Peppers, Municipal Waste, até um pouco de Funkadelic, John Frusciante… mas aí mais pra criação dos riffs e não no estilo que eles são tocados. Pra tocar, é ser rapido e casar com a melodia.

Gabriel: Bom,  como baterista, comecei a tocar aos 11 anos de idade por conta própria, sempre tive vontade de tocar e na primeira oportunidade que me apareceu eu agarrei e não deixei o prazer da música de lado em nenhum momento até agora. Posso acrescentar que minhas influências são as mais distintas em relação aos outros integrantes da Molotov. Sempre tive a influência mais puxada para o lado metal e thrash, e no começo como baterista, uma das maiores influências mais “puxada” para o nosso estilo foi o Travis Barker (da blink-182), mas com a evolução no instrumento, sua cabeça vai abrindo e novas influências acabam que por conta própria cruzando teu caminho. Não poderia com certeza deixar de lado uma das maiores influências da Molotov, o Suicidal Tendencies. O Eric Moore como baterista pra mim foi uma coisa inovadora, pois o cara sabe usar de recursos como viradas totalmente imprevisíveis e muita velocidade, o que me deixou ainda mais surpreso porque eu pude notar que a velocidade com certeza é questão de prática,  se é que vocês me entendem (risos). Enfim, acho que toda essa miscigenação de influências e toda a bagagem que a gente vem carregando nesses anos todos favoreceu demais pra composição geral de um estilo que considero totalmente original.

Gustavo: O Gabriel é o cara das técnica. (risos) Bão demais!

– E de onde surgiu o nome da banda? O que ele significa pra vocês?

Gustavo: Sendo bem sincero? Foi coisa de molecagem. Como estava na vibe de fazer um som mais barulhento e agressivo, da mesma forma queria um nome que soasse agressivo, e a primeira coisa que veio a cabeça foi algo que tivesse a ver com bomba e explosões. Foi uma escolha meio pretensiosa? Foi! Mas conforme fomos colando nos rolês e a galera foi acompanhando o som, o nome vingou e se espalhou. Daí ficamos com esse mesmo. (risos)

– Me falem um pouco mais do trabalho que vocês lançaram até agora.

Caike: O nosso primeiro EP é mais um compilado das músicas autorais que a gente vinha coletando entre 2012-2014. Sempre que o Gu surgia com um riff novo, uma letra nova, a gente fazia uma música dali. A ideia foi sempre trazer musicas novas, pra que a gente não ficasse limitado ou tivesse que tocar só cover. Porque a banda começou com uma música autoral, no máximo duas! Como foram músicas que foram surgindo num período de 2 anos, cada uma representa um momento específico. Eu vejo o álbum mais como uma carta de apresentação. Ele foi gravado em Cambuí, no Totem Studio, com a exceção de uma música, “We Are The New Working Class”. Foi um processo longo, caro (custeado pelo Gu) e totalmente no DIY. Mas a intenção era ter um material pra dar um passo à frente, sair das garagens e tentar alcançar novos lugares.

Gustavo: Esse EP é bem nessa vibe mesmo, foram sons feitos entre o início da banda até 2015, mais ou menos. O nosso processo de composição é lento. Esse ano pretendemos lançar material novo e que vai seguir mais ou menos o mesmo processo, mas pode esperar que vem mais pancadaria por aí!

Caike: O que fez a diferença e a gente não quer agora, por exemplo, é gravar cada música em uma época… A gente quer um EP que soe único. Gravar as músicas numa data especifica, pra não soar cada música como se fosse gravada em uma época.

– E como a cultura skate faz parte do som da banda?

Caike: Gustavo vai poder falar melhor sobre isso, mas, de forma resumida… toda a influência de sons pra banda vem do skate. “Tony Hawk’s Pro Skater”, querendo ou não, foi um meio de propagar tanto o skate pra galera, quanto as bandas que rolavam na cena. Tiramos dali boa parte das influencias. Mas o Gu vai poder ir além, porque ele era o skateiro daqui (risos).

Gustavo: Como o Caike disse, o THPS popularizou a contracultura do skate, e foi a partir dos games clássicos que entrei no skate e comprei meu primeiro board vagabundo. Eu tinha uns 14 ou 15 anos, acho, e com o tempo fui tomando conhecimento do que o skate representou na decada de 80 e 90, a transgressão de ambientes, a marginalização, e, claro, a sonoridade que cercavam essa cena, como Grinders, JFA, The Faction, Agent Orange, entre outras coisas que rolam nesse meio. Na banda, especificamente, trazemos a parada da diversão e agressividade e a insatisfação com a questão de o skate ter perdido esse sentimento outsider pra se tornar algo cool nas grandes mídias, ser encarado como esporte e chegar ao ponto de ser inserido nas Olimpíadas, e tudo isso após as grandes corporações se adentrarem nesse meio. Pra nós o skate é diversão, transgressão, integração de tribos, um trabalho de criatividade e roque veloz, somente.

– É, aqui no Brasil normalmente skate aparece meio sempre ligado ao Charlie Brown Jr.

Gustavo: Sim, não que isso seja completamente ruim, o Chorão sempre esteve ligado com o skate e isso é bacana, porém a coisa ferrou quando atingiu as Rede Globo da vida. (risos)

Molotov Conspiracy

– Bom, como vocês veem a cena independente hoje em dia?

Gustavo: Hoje em dia pra quem gosta de rock, principalmente, a cena independente está em ebulição. Acho que nunca antes fazer uma gravação de boa qualidade foi tão acessível quanto hoje em dia. Somos muito fãs dos 80’s em termos de hardcore, mas hoje em termos de qualidade de gravação a coisa tomou um aspecto mais bem produzido, mas sem ficar fresco e cheio de firulas. Aqui em Minas muita gente diz que não há mais rock, porém eu digo que é falta de buscar se informar. É muito facil conhecer bandas legais hoje em dia, independentemente do seu gosto musical. O lance é que a forma das bandas se articularem hoje em dia é completamente diferente das décadas passadas. E muita gente não se adapta por falta de interesse e caretice mesmo, mas em contrapartida a galera produz mesmo e tem um certo público. Costumamos dizer que o rock voltou pra onde nunca devia ter saído.

– Já que você falou de Minas, como anda a cena por aí?

Gustavo: Ela é espalhada aqui no sul de Minas, em cada canto tem algumas bandas. Tem nós em Piranguinho, Santa Rita tem o Pino de Granada, Pouso Alegre tem o xBicuda do Rastax e o Casca Podre, Cambuí tem o Tumbero e o Monstreze e assim vai, mas é sempre difícil adentrar os festivais grandes da região que focam em bandas cover de classic rock e metal. O nosso movimento se concentra em praças, pistas de skate e no CPB, o rock bar de Cambuí do Manoel (Tumbero).

Caike: Tem mais banda na real, tá surgindo uma levada diferente também, tipo a galera da Galope Discos, que é um selo de Pouso Alegre que até pouco tempo eu desconhecia. https://galopediscos.bandcamp.com/  É uma vibe diferente da nossa, claro, é uma coisa mais experimental. Mas é autoral, e não dá pra negar que é um movimento.
Também tem uma cena de hip hop, mas acho que a galera ainda tá muito presa na ideia de ser o que foi o Bonde da Stronda, por exemplo. Mas só de começar algo autoral na região, onde tudo é consumir mais do mesmo, já é algo bem relevante.

– Quais são os próximos passos da banda?

Caike: Sem dúvidas alcançar públicos e espaços que a gente ainda não chegou. Uma das metas da banda pra esse ano é começar a tocar aqui em SP, quem sabe em outros lugares também. Sair um pouco do ciclo do sul de Minas, começar a levar banda pra lá e a exportar banda de lá. Também estamos querendo gravar um EP novo aí, 4 musicas que já tocamos, mas que estamos dedicando todo o carinho e atenção pra fazer uma coisa grande, bem feita. Quem sabe algum EP de instrumental surf, é uma possibilidade também, mas esse é só plano!

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Caike: Vamos lá: Tumbero, Casca Podre, xBicuda do rastax, The Barber, Water Rats, Lo-Fi, Deb & The Mentals, A Creche, Lomba Raivosa, Aloha Haole, Middlemist Red, Ventre, Dum Brothers… The Barber é muito o que a gente tá esperando pro próximo EP. É uma banda russa, que tem uma pegada bem do jeito que a gente gosta. Mais uma banda: Molho Negro!

Gustavo: Do que ando acompanhando, tenho muito em comum com o Caike!