MC Gorila, ex-Gorila e Preto: “Os outros dizem que eu sou engraçado, mas eu sou é neurótico”

MC Gorila, ex-Gorila e Preto: “Os outros dizem que eu sou engraçado, mas eu sou é neurótico”

28 de agosto de 2015 3 Por João Pedro Ramos

Depois de 20 anos integrando Gorila e Preto, uma das dupla mais irreverentes do funk carioca, MC Gorila resolveu que era hora de seguir em carreira solo e buscar novos objetivos. Lógico que ele não largou a veia cômica que foi sempre o pilar de seu trabalho: músicas como “Mamãe Passou Petróleo Em Mim”, “Banhadão da Ostentação” e “Boneco de Olinda” continuam em seu show, assim como o mega hit dos abraços enlouquecidos “Agarra”.

Agora, Gorila ataca com as novas músicas “Garçom”, “Os Novinhos Estão Sensacionais” (feita para o público gay) e “Cheio de Sal”, versão sobre ~odores corporais~ para “Safe and Sound”, do Capital Cities que ganhou um clipe e viralizou no Facebook. Gorila sempre foi adepto das versões, mesmo que elas não sejam de funk. Beyoncé, Sean Kingston, Bragaboys, Shaggy e até transformou “We No Speak Americano”, do Yolanda Be Cool (aquela do ~Pa-panamericano~), em “Pa-Paraibano”.

Conversei com Gorila sobre sua carreira solo, a indústria do funk na mídia, suas versões para músicas famosas e a participação no quadro “Palhaço Gozo” de Hermes e Renato:

– Como está sendo a recepção de “Cheio de Sal”?

Como se diz aqui no Rio, tá estouradaça! É o carro chefe do meu show!

– Como rolou essa versão de “Safe and Sound”? Vocês sempre fizeram versões de músicas de fora do funk, como Beyoncé, por exemplo, né?

Eu tenho essa facilidade de fazer versões das músicas famosas, entendeu? E no funk eu tive quatro versões estouradas, que foram “Te Amo Mas Tu Me Fudeu” (versão de “Beautiful Girls”, de Sean Kingston), uma de “Boombastic”, do Shaggy, “O Movimento É Sem Sal” (de “Bomba”, dos Bragaboys) e essa, “Cheio de Sal”. E ficou maneiro, eu fiz brincando e acabou estourando!

– O seu funk sempre foi para o lado mais engraçado, da comédia. Você se considera um artista de humor?

É um lado engraçado, um mercado que está muito fraco e está crescendo no funk. O funk é classificado de várias formas: funk neurótico, consciente, funk melody… E tem essa ostentação aí também, né, mermão? Tem sacanagem, putaria… tem de tudo no funk, irmão. E esse lado cômico, que é o lado que eu trabalho há 20 anos. Mas eu sou um cara neuróticão. Me considero um cara muito neurótico. Eles que me acham engraçado, mas eu não sou de humor não.

– São 20 anos de carreira. Como você começou?

Foi a “Dança do Gorila”, em 1995, na Furacão 2000, na antiga Filco em São Conrado. Foi a primeira oportunidade. Ia ser Gorila e Preto, mas o Preto preferiu trabalhar e eu me arriscar na carreira. Nós dois trabalhávamos na mesma firma, Papel Principal. Chegando o mês de dezembro, precisavam de ajudante e o Preto era office boy. E ele era um bom office boy, e eu que chamei ele pra esse mundo. (Neste momento, Gorila cantou um trecho de “Dança do Gorila”)

– Por falar no Preto, depois de tanto tempo de carreira, vocês decidiram seguir caminhos separados. O que rolou?

Eu queria partir pra minha carreira solo um dia, e consegui, e tô trabalhando pra isso. Foi 20 anos e eu queria uma coisa nova. 20 anos não é 5 dias, um mês, 2 anos. 20 anos é 20 anos. Cada um seguiu seu caminho e legal. Cada um seguiu seu objetivo, já que nenhum de nós ainda conseguimos nossos objetivos. Aí eu segui por um caminho e ele por outro, entendeu? E assim vai, a amizade continua e tudo OK. Ele continua a carreira dele, eu continuo a minha e vamos que vamos.

MC Gorila

– Você acha que o funk é visto com preconceito?

Antes era mais, agora ainda rola um pouco…

– Vocês participaram algumas vezes do programa Hermes e Renato. Como rolou isso?

Os caras são cria lá de Petrópolis, então eram fãs da gente. Aí eles sempre assistiam nossos shows lá no Petropolitano e iam falar com a gente. Então eles viram um videoclipe e entraram em contato com a gente pra gravar com eles. Numa boa, tranquilão, aí fomos fazer uns eventos, curtimos umas noites lá e aproveitamos e já fizemos uns programas com eles. Um deles até me roubou, roubaram minha camisa!

– Roubaram sua camisa?

Roubaram uma camisa minha dos Simpsons que eu amava (e que eu amo) da Cavalera. Roubaram minha camisa da Cavalera. Mas não tem problema: quando eu voltar lá eu roubo eles. Tranquilidade!

– A mídia abraçou o funk?

Pô, então, agora eu acho que a mídia tá com o funk e muito! Só que pra alguns ainda tá faltando oportunidade…

– Que sons você curte ouvir fora do funk?

O que tá me inspirando agora, que eu demorei a me adaptar e os moleques de São Paulo já estavam vendo faz muito tempo atrás e eu não consegui reparar, porque eu tava muito cego: a nova geração do hip hop americano chegou pra dar um drible de novo aqui no Rio de Janeiro. Não só no Rio de Janeiro, né,  já que o funk não é mais só no Rio, é em todo o Brasil… O hip hop americano tá botando pra foder. É isso aí mermo. Tá mostrando como se faz: chega de rostinho bonito na televisão. Mais vale ser um cara bom com talento no palco, algo que tá faltando no mercado brasileiro: talento. Porque, porra, um rostinho bonito e sem talento tá estragando tudo. É o que tá acontecendo: tá fazendo o funk clássico voltar de novo. Essa nova geração de funk do Rio de Janeiro só é bom de rádio, mas quando vai ver ao vivo não é aquilo, e é por isso que o funk antigo tá voltando. Por isso que os MCs da antiga estão voltando de novo: as pessoas pensam que o que vão ouvir na rádio é a mesma coisa que vai rolar no show e não é o que acontece. O povo quer ver talento, sentimento, quer ver o show. E assim complica.

– O que você acha de artistas de funk que mudam de estilo assim que fazem sucesso, como por exemplo Naldo e Anitta?

Perde a essência, perde a raiz, né, cara. O Naldo nem tanto, mas já não é funk. E não consegue voltar pra origem: esses MCs que mudam o estilo e viram global não conseguem voltar e acompanhar o funk, que muda direto. Esses que mudam de estilo não conseguem voltar de novo.

– Qual a principal diferença do funk do Rio pro de SP?

O dinheiro! Os caras são mais profissionais em São Paulo.