Mama Feet: um coquetel de rock com catuaba, Valesca Popozuda e foot massage

Mama Feet: um coquetel de rock com catuaba, Valesca Popozuda e foot massage

7 de dezembro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

“Um trabalho inspirado nas guitarras pesadas de Mariah Carey, nos acordes atonais de KLB e no ritmo ragatanga de David Gilmour“. Com essa descrição engraçadinha o quarteto carioca Mama Feet se apresenta, e já podemos saber por aí que nenhuma de suas respostas à entrevista será séria. A banda acaba de lançar seu primeiro disco, “Brazilian Democracy”, que está disponível em todas plataformas de streaming desde o final de setembro. “Trata-se de um álbum tão influente que serviu de referência para o ‘Chinese Democracy’ (2008) do Guns N’ Roses. É que certamente o Axl Rose do futuro, depois de conhecer o sucesso de ‘Brazilian Democracy’, voltou no tempo e convenceu a si mesmo de batizar um disco do Guns com uma democracia do BRICS”, explicam Fey e Mylo Samp (vocais e guitarras), Tynho Campo Grande (baixo) e Tommy Lee Dick (bateria).

Deixando as viagens no tempo de lado, o nome do disco se deve ao fato do disco dos tijucanos ter demorado muito para ser lançado – cerca de três anos. O álbum foi produzido, gravado e mixado no próprio estúdio da banda, o Fey’s Garage Studio, no Rio de Janeiro. Uma peculiaridade do disco: todas as letras foram escritas em inglês e português. A música “Marlene”, por exemplo, tem o ponto de vista masculino, enquanto sua versão em inglês, “Marlenny”, conta a mesma história sob a visão da personagem feminina. Ao todo são 28 faixas cheias da irreverência peculiar do quarteto.

Conversei com eles sobre “Brazilian Democracy”, a opção por fazer o disco bilíngue e a vida de artista independente:

– Como começou o Mama Feet?

Começou com uma ação de Natal bem doida da antiga banda (Abstratus), que veio a se tornar Mama Feet. Consistia em uma pegadinha num shopping lotado. Alugamos a limousine mais barata do Rio de Janeiro e fomos com dezenas de amigos atuando como seguranças, fotógrafos, roadies… a brincadeira era fingir ser uma banda gringa mega famosa, entrar no shopping e tirar uma foto com o Papai Noel. Como imaginávamos, causamos um verdadeiro caos no shopping (risos). Essa brincadeira tinha por objetivo comemorar o final de uma série de gravações da banda no programa “Realidade Musical”, que fazíamos para mostrar nosso processo de gravação. Essa pegadinha foi o momento em que começamos a colocar pra fora o “espírito Mama Feet”.

– E de onde saiu este nome?

Em uma noite regada a muita Catuaba, o nosso fotógrafo oficial (que tinha acabado de voltar de Taiwan, onde estava em um retiro espiritual) veio nos mostrar uma técnica nova de “foot massage” (vulgo massagem nos pés). Durante tal experiência, a trilha sonora do momento era a de Mr. Catra, em uma parceria com a cantora Valesca Popozuda, cantando o hit “Mama”. Parecia que o universo queria nos mandar uma mensagem.

– Quais as suas principais influências musicais?

Uma tarefa difícil, mas tentaremos listar aproximadamente 5,49% delas: Hanson, Foo Fighters (2ª formação), Rouge, Metallica (sem o Lars), Terra Samba, Bee Gees, Nickelback (antes de ele cortar o cabelo), Silverchair, Thirty Seconds to Mars (quando era emo), Molejão (todas as fases), Br’oZ, Katy “Musa” Perry, Muse (Em OoS), Pink Floyd, Forfun (na época de sarau), Legião Urbana, Karametade (no auge da banheira do Gugu), Jack sem Meg White, Tame Impala, Rush (o jogo de n64), P.O. Box, Arctic Monkeys, Latino, Slipknot, Ironzinho, Elvis Presley, The Beatles (com Yoko), Queen + Adam Lambert, Maroon 5, The Rolling Stones, Rage Against The Machine

– Me fala um pouco mais sobre “Brazilian Democracy”. E esse chiste com o Guns, não deu problema?

Problema? Nada. O Guns é uma das maiores bandas que já vimos. O “Chinese Democracy” ficou marcado por ser demorado, uma novela. Nosso disco demorou tanto pra sair que o nome foi imediato.

Mama Feet

– E como surgiu essa ideia de recriar cenas do universo pop como capas de discos famosos e cenas de filmes para cada música?

Na nossa ex-garagem, agora estúdio, temos algumas fotos de inspirações do rock. Dentre elas, a famosa foto do Pink Floyd envolto num pano rosa. Sempre olhamos pra essa foto e pensamos “poderíamos fazê-la um dia né, uma bonita homenagem”. Pois bem, esse foi start, o resto veio de longas conversas livres de pudor.

– Como foi a composição dos sons deste disco?

Antes de começar coisas completamente novas, pegamos umas 60 ideias de músicas pra selecionar. Tinha música quase pronta, riffs no início… Olhamos pra cada uma dessas ideias, catalogamos e tentamos imaginar o potencial de cada uma delas. Depois de selecionar o que estaria no disco, paramos pra criar coisas “do zero” e fazer o mesmo processo. Assim nasceu o grupo de “pseudo-músicas” que deveríarmos trabalhar.

– Por que fazer dois discos, um em português e outro em inglês?

Por vários motivos que se somaram. Existia a dúvida sobre cantar em português ou inglês, já havíamos gravado nas duas com a antiga banda, época “pré-Mama”. Existe a vontade de rodar pelo mundo também, então o inglês seria interessante. Porém, estamos no Brasil, queremos rodar aqui antes. Bom, como pode ver, muitas questões. Ao montarmos o nosso estúdio e termos feito uma “consultoria” com o produtor Jack Endino, ficamos confiantes da possibilidade de fazer o mesmo disco nas duas línguas. Esse episódio com o Jack foi interessante. Ele esteve envolvido numa polêmica após postar algo “por que bandas brasileiras estão cantando em inglês?”. Depois de deixar a poeira da polêmica baixar, tivemos um papo com ele sobre nosso som e pronúncia no inglês. O sinal verde dele e do nosso antigo produtor, Rique Seraphico, nos fez seguir com o plano sem ressalvas.

– Como vocês veem a cena independente brasileira hoje em dia?

Confusa, mas promissora. Vemos bandas de rock se juntando, fazendo um movimento de compartilhar e espalhar. Isso é melhor do que a sensação de retração parecia existir há alguns anos.

Mama Feet

– Quais os planos do Mama Feet para 2017?

Conseguir levar a experiência do disco para o palco, de uma maneira sustentável. Nosso trabalho é bastante visual também, isso traz desafios enormes, visto que somos uma banda em inicio de carreira, com uma equipe ainda bem reduzida.

– Recomendem bandas e artistas (especialmente se forem independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Os grandes amigos cariocas do The Outs, Hell Oh, Nove Zero Nove, Coquetel Havana, Brunno Monteiro e El Efecto. Fora do Rio, temos Selvagens à Procura de Lei, Far From Alaska, Scalene, Dillo, Ego Kill Talent, Supercombo e O Terno.