Luiz Thunderbird diz que rock continua bem vivo e promete programa no Youtube

26 de janeiro de 2015 2 Por João Pedro Ramos

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Quando você olha para Luiz Thunderbird, provavelmente vai lembrar de uma coisa: música. Talvez por ele ter sido uma peça-chave na história da Mtv Brasil quando esta ainda tratava mais de música e menos de reality shows de pessoas se pegando. Ou talvez por ele ter uma infinidade de projetos musicais e você provalmente já ter visto algum pela noite paulistana. Ou, quem sabe, porque o próprio visual e papo de Thunder é mais recheado de música que qualquer mp3 player por aí.

Conversei um pouco com o Thunder, que falou sobre a vida, o universo e tudo mais.

– Quando o rock entrou em sua vida?

Muito cedo. Assisti “Help” no cinema e o impacto foi grande. Tive a sorte de ter um pai músico, que incentivava muito, com rádio-vitrola estereofônica e muitos discos. Meus primos também me mostravam sempre as novidades dos anos 60 e 70. De lá, pude continuar no rock por conta própria.

– Quais artistas e bandas te inspiraram a criar o Devotos DNSA?

Minha primeira banda de Rock foi o Aerozow (em 85), quando fazíamos psychobilly. Depois veio a banda Neocínicos, que fazia um som modernoso, cheio de poesia. Mas Chuck Berry ficava gritando no meu ouvido: “Poesia? O que importa no Rock é métrica e energia!!!” Diria que Chuck Berry, Stray Cats, The Cramps, The Ventures e todos os expoentes rockers me inspiravam.

– Quais as melhores bandas que você conheceu graças ao período em que trabalhou na Mtv Brasil?

Nirvana (92, no VMAs), Johnny Johnson (pianista do Chuck Berry, em 96), Mano Chao (em 91, no Rockblocks – MTV), Arrigo Barnabé (em 92, no CEP MTV).

– Peraí: você chegou a conhecer o Nirvana? Conta mais disso! 

Em 92, vivenciei uma situação inusitada com o Kurt e a Courtney, mas essa estória terá que aguadar o lançamento do livro que estou escrevendo com Mauro Beting e Leandro Iamim.
– A Mtv Brasil dos velhos tempos acabou apenas por questões comerciais ou você acha que um canal como a Mtv clássica não tem mais espaço nos dias de hoje?

Os diretores da MTV declararam na virada do século que o videoclipe havia morrido. Que a música não ajudava na audiência. Demoraram uns 10 anos pra perceberem que o “M” da MTV era a essência da emissora. Em 2011 eu voltei com a missão de recuperar espaço da música na MTV. Mas já era tarde, visto que os planos da Abril de devolver a marca pros donos americanos já haviam sido traçados. Eu nunca vou saber com certeza as razões de tudo aquilo.

– Você sempre tentava incluir mais informação sobre música durante sua fase na Mtv, inclusive no Contos de Thunder, programa que passava filmes da Troma na íntegra. Quais sons mais te lembram a época deste icônico programa?

Bandas de Psychobilly e a formação espetacular dos Devotos com Gigante Brasil na bateria e Marcopolo Pan na guitarra. Era foda! Me refugiava nos ensaios e shows.

– O CEP Mtv foi um grande programa e revelou muitas bandas para o Brasil, já que contava com música ao vivo. Quais você mais tem orgulho de ter apresentado?

Arrigo Barnabé, Jorge Ben (ainda sem o “Jor”), Raimundos (pela primeira vez ao vivo na MTV), Carlos Careqa (o iconoclasta paranaense), Faísca e banda (quase derrubou o estúdio), Angélica (linda e virgem!).

Thunder cercado de ex-VJs no último dia de vida da Mtv Brasil clássica

Thunder cercado de ex-VJs no último dia de vida da Mtv Brasil clássica

– Será que Gene Simmons realmente está certo: o rock morreu?

Acho que ele (inconscientemente) quis dizer que o Rock morreu pra ele. Acho que só assim consigo entender a polêmica declaração dele. O Kiss nunca fez minha cabeça. Sempre achei que se tratava de uma banda para crianças. Nada de errado nisso, mas quando o Kiss surgiu, eu estava muito ocupado com o Rock clássico, o rockabilly, o punk, o pós-punk.

– Estes dias você falou que foi ameaçado de morte graças ao nome de sua banda Devotos de Nossa Senhora de Aparecida. Conta melhor essa história.

Tem fanático religioso em todo o planeta. Isso aconteceu em 1987, no Espaço Mambembe, no bairro do Paraíso, em São Paulo. Nnao foi além da ameaça. Intolerância, ignorância, fanatismo, essas coisas que estão com a humanidade desde sempre.

– O que você pode citar como diferenças entre o primeiro disco do Devotos e o último?

Houve uma reaproximação com o rockabilly, com o blues elétrico americano, mas o primeiro disco foi feito na loucura, em condições muito adversas. O último, com toda dedicação, n’A Voz Do Brasil, um dos mais emblemáticos estúdios do Brasil.

– Você tá cheio de projetos musicais, né. Quantos são, hoje em dia?

Vejamos… Devotos de Nossa Senhora Aparecida (www.tdnsa.com), Tarântulas e Tarantinos (www.facebook.com/TarantulaseTarantinos), ThunderStandards (Com o Gaspa, baixista do Ira!), Pequena Minoria de Vândalos (com o Miro e o Ari da banda 365), WES (que toca as trilhas dos fimes do Wes Anderson), Black Monks (que faz um crossover das bandas ESG e The Monks) e Flaming Birds (minha banda gaúcha de clássicos do rock).

Isso quer dizer que o Fuck Berry não tá mais ativo?
Fuck Berry faz o mesmo repertório da Flaming Birds. Mas o Gaspa (que toca no Fuck Berry e no ThunderStandards) está ocupadão com seu disco solo. Fuck Berry fará eventuais apresentações, mas a banda está em stand-by.

– Porque criar vários projetos em vez de concentrar todos os sons em um só? 

Meu jeitão prolífico de ser… hahahaha…

foto por Carolina Bitencourt

foto por Carolina Bitencourt

– Quais bandas atuais você acredita que valem a pena ser ouvidas?

As clássicas, claro! Novidades dependem da digestão que cada um faz dessas bandas emblemáticas.

– Então você acredita que essas bandas novas que estão por aí não são tão boas quanto o que o rock já criou?

Bandas novas não são referência pra mim, mas, por vezes, me trazem oxigênio. Eu busco novidades todo dia. Foi um bararto quando descobri o som do Tame Impala há alguns anos atrás. Essa é uma banda que escuto frequentemente!

– Existe alguma banda que só você conhece e acha que deveria ser mais conhecida pelo público?

Não acredito nesse negócio de “Só eu conheço essa banda”. Mas algumas bandas conhecidas podiam ter mais alcance. Falo de The Bees, Django Django, Patife Band

– Você acredita num ressurgimento do rock nas paradas de sucesso ou esse estilo está cada vez mais se dirigindo apenas aos fãs?

Eu não me ligo nas paradas de sucesso. O Rock tem seus representantes populares que lotam estádios. No Brasil, tem roqueiros bem sucedidos.

Mas você acha que uma “cena” rocker ainda pode se reerguer, mesmo que fora das paradas de sucesso? Estamos próximos de um ressurgimento de um “movimento” rocker? 
A “cena” depende dos organizadores de festivais, dos donos das casas noturnas, dos clubes de rock. Esses caras, tenho certeza, podem se organizar melhor, valorizar mais as bandas com cachês decentes, talvez. Sempre haverá pessoas que acreditam, apostam, se entregam ao rock’n’roll.
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– Hoje em dia você está na TV Cultura, apresentando o Mythbusters. Existe algum projeto mais direcionado à música preparado pra você no canal? Estamos sentindo falta!

Apresentei alguns projetos pra TV Cultura, mas a coisa não está caminhando como deveria. Não sei de mim por lá.

– Muitos dos seus ex-colegas da Mtv estão investindo em outros meios, principalmente o Youtube. Você tem vontade de fazer algo para este canal?

Sim, tenho meu programa de rádio (Thunder Radio Show www.central3.com.br) e preparo um programa especificamente para o Youtube. Em breve estará disponível.