Londrinos do Harry Violet and The Sharks trazem o saxofone de volta para o rock’n’roll em “Jungle Cavalcade”

Londrinos do Harry Violet and The Sharks trazem o saxofone de volta para o rock’n’roll em “Jungle Cavalcade”

11 de novembro de 2015 0 Por João Pedro Ramos

Os londrinos Harry Violet and The Sharks acabam de lançar seu primeiro single de 7″, “Jungle Cavalcade/Dance At Korova” e seu som calcado no rockabilly de garagem com um saxofone à frente chama a atenção logo de cara. Tocando algo que eles definem como “sax driven dark rock’n’roll” com influências de surf music e psychobilly, o grupo está trabalhando em seu primeiro disco completo e buscam uma gravadora para lançá-lo.

Tocando em toda Inglaterra e buscando trazer de volta a crueza do rock’n’roll dos anos 50 e 60, a banda, formada por Mad Max Ellenberger (saxofone), Slim Tim Barrow (baixo), Murdo Mackenzie (bateria) e Harry Violet (vocal e guitarra), surpreende por colocar o saxofone à frente dos outros instrumentos. “Isso me fez rir quando a Courtney Love fez algum comentário descartável sobre saxofones não serem bem-vindos no rock, e alguém muito justamente a colocou em seu lugar simplesmente citando The Sonics“, diz o vocalista.

Conversei com Harry sobre a carreira da banda, o poder de um solo de saxofone e o futuro do rock’n’roll:

– Como a banda começou?

Eu cresci na zona rural em uma pequena cidade da Inglaterra, onde não acontece muita coisa e decidi criar um festival de música Do It Yourself sem fins lucrativos em um campo vazio, onde bandas e pessoas vieram para ter algo para fazer. Formei uma banda tocando rock and roll dos 50s e 60s, beat e garage rock com alguns dos meus amigos com uma configuração de guitarra/saxofone já que isso era uma espécie de interesse musical obscuro que eu tinha borbulhando. Tocar esse estilo de música ao vivo em um ambiente fez mais sentido do que qualquer uma das outras bandas onde eu já tinha tocado, as pessoas reagiram imediatamente e curtiram muito a música. Eu continuei montando bandas que acabaram ficando residentes em bares, e sendo contratado para fazer shows – e acabamos indo a Hamberg! Neste ponto, nós estávamos apenas tocando tudo o que achávamos bom – de Little Richard a Curtis Lee.

Voltei para Londres e meu reuni com meus amigos para criar outra banda com essa pegada. Nós começamos a ensaiar em 2014 tocando rock and roll/surf music, tocamos em alguns shows para promotores e aprendemos o quão pouco a gente sabia sobre música ao vivo em Londres e como era fácil ser esquecido. Perdemos um baterista que foi buscar seu sonhp de carreira no verão de 2014 e passamos seis meses procurando um substituto. Através de algum tipo de pacto com o diabo, nossas orações foram respondidas por Murdo, que tem muita experiência tocando com um monte de bandas de rockabilly, rock and roll e psychobilly. As peças se encaixaram desde o primeiro ensaio. Cerca de dois ensaios depois, no início de 2015, nosso saxofonista Max teve um derrame. Nós somos a banda mais sortuda do mundo por ainda tê-lo conosco, e por ele ter se recuperado tão rapidamente.

Com o tempo em que Max ficou incapaz de tocar, e até mesmo pelas dificuldades pelas que ele passou, colocando a vida em perspectiva, percebemos que não queria perder tempo e queríamos tocar nossas próprias músicas e lançá-las. Registramos nossas duas primeiras gravações em abril e produzimos o disco de sete polegadas nós mesmos, já que não queríamos esperar. Queríamos levar a nossa música diretamente para as pessoas, no formato de vinil que faz parte de toda a subcultura do rock and roll. Tivemos a festa de lançamento do single mês passado, que nós mesmos organizamos e colocamos um diversificado line-up de bandas com influências como blues, cantores dos anos 50 e David Lynch. Tivemos uma multidão incrivelmente receptiva por toda a noite. Foi uma transformação completa do que rolava tocando para promotores desinteressados ​​quando começamos em Londres.

harry violet and the sharks

– “Sax-driven rock’n’roll”. O saxofone era um instrumento muito importante no início do rock and roll. Porque ele foi deixado de lado nesse estilo?

Acho que você tem que olhar para o desenvolvimento do rock and roll. Eu examino regularmente as diferenças e os efeitos que as diferenças sutis na forma de tocar têm sobre os estilos do rock and roll e rockabilly. Rock and roll, surf rock, garage rock, o movimento beat – e estes são os estilos de música que aconteceram ao longo de um período relativamente curto de tempo e são diretamente ligados e influenciados uns pelos outros – possuem enormes diferenças estilísticas distintas. Talvez tenha sido a maneira que a música continua a avançar para bem ou para mal – ou pelo menos o que é popular e chama a atenção das pessoas. Em meados dos anos sessenta, o rock and roll tinha sido assumido por uma nova geração, e até o final da década as coisas foram se transformando em rock psicodélico, todo o som Jefferson Airplane. O rock and roll veio de jazz e blues, que é de onde o saxofone vem, mas acho que, talvez, a fim de criar um som novo ou fresco, será que as pessoas queriam distanciar-se dos velhos sons do saxofone? A guitarra é um instrumento que lidera, e foi a responsável em grande parte pela era do rock and roll, então a guitarra tornou-se o novo ponto focal.

Também rolou a mudança potencialmente mais focada nas guitarras serem o instrumento que as pessoas mais jovens que gostavam de música queriam tocar. Elas são mais baratas do que saxofones e mais fácil de pegar e começar a tocar acordes. Um monte de músicas importantes que surgiram na segunda parte do século 20 foram feitas por pessoas com uma atitude muito DIY, e uma guitarra é como um instrumento muito mais DIY. É também um instrumento com um tom tão maleável. Começando com Link Wray ou os Kinks, distorção e, em seguida, outros efeitos de guitarra que ofereceram uma nova maneira inventiva para criar. A cultura tem seguido este caminho para uma medida tão lógica, que agora, ao contrário, ter um saxofone no rock é um instrumento que soa muito excitante e exótico. Isso me fez rir quando a Courtney Love fez algum comentário descartável sobre saxofones não serem bem-vindos no rock, e alguém muito justamente a colocou em seu lugar simplesmente citando The Sonics.

– Quais são suas maiores influências musicais?

Tentamos tirar tudo o que gostamos na linhagem e história do rock and roll. Nosso som vem de uma guitarra, um saxofone, um baixo elétrico e um kit de bateria, o que significa que, no que se refere ao rock and roll, você é colocado em um lugar específico com essa formação. Você não é uma banda de rockabilly para iniciantes. Mas queremos tentar evitar replicar completamente um som anterior. Estamos interessados ​​em utilizar as ferramentas e técnicas do rock and roll e surf, e ver o que nós podemos criar. Quanto à influências, podem ser Screamin ‘Jay Hawkins, mas ao mesmo tempo que podem ser determinadas faixas do “Blue Valentines” do Tom Waits. Nós amamos surf rock, mas nós não somos uma banda instrumental. Queremos tentar capturar a crueza de bandas como The Sonics, Link Wray, mas também o rock and roll dark – seja Vince Taylor com “Brand New Cadillac”, Charlie Pena com ‘Can’t Hardly Stand It’ ou bandas como The Cramps. Recentemente eu estive realmente curtindo o som instrumental assustador do The Viscounts. Estamos todos tentando encontrar lados e sentimentos interessantes dentro do rock and roll para inspiração. Alguns exemplos de sons com saxofone que realmente nos deixam animados, e o uso de ruído, são o Lounge Lizards, Charles Mingus e Roland Kirk. Este tipo de influências são mais difíceis de incorporar em um formato rock and roll, mas queremos tentar incorporar alguns desses momentos. A minha música preferida e do Murdo que sempre tocamos juntos é “She’s My Witch”, do Kip Tyler.

– Me fale um pouco mais sobre “Jungle Cavalcade” e “Dance At Korova”.

“Jungle Cavalcade” e “Dance At Korova” foram os dois primeiros sons originais que nós escrevemos como banda. O título de “Jungle Cavalcade” vem de um dos filmes de Frank Buck. Ele foi essa incrível versão 1930 excêntrica de Steve Irwin que fez os primeiros filmes de sucesso de aventura na selva, onde você podia ver imagens ao vivo de panteras e tigres em combate em filme preto e branco. Ou uma python pulando fora de um arbusto e mordendo a sua mão, e um de seus meninos cortando-a com um facão antes ele atire na cabeça da cobra. Você não pode aplicar a ética de hoje para algumas das coisas que acontecem nesses filmes, mas é uma relíquia fascinante. Isse foi a inspiração para fazer uma canção “selva”, na veia de tantas grandes músicas “da selva” do rock and roll – seja “Jungle Rock” de Hank Mizell ou “King Kong” do Big T Tyler. Há uma série de vocais na faixa, rosnados sujos, rudes e obscuros e também o coro agudo mais tradicional. Quando tocamos ao vivo a crueza é uma grande parte do nosso som, particularmente no final de uma ou duas horas de show suado e queríamos que o lado A agarrasse as pessoas desta forma. É uma grande história fantástica, escura e colorida com um absolutamente nocauteador solo de saxofone de Max, que é o que realmente eleva a faixa. É o suficiente para mostrar para Courtney Love exatamente o motivo pelo qual o saxofone absolutamente pertence no rock. “Dance At Korova” novamente faz referência à Laranja Mecânica – um dos meus livros e filmes favoritos. Estou constantemente fascinado pelo relativismo moral e desconstrução, e a música segue o tipo de formato lírico blues/rock and roll, mas acrescentando uma espécie de moralidade anti-capitalista e anti-moralidade. Ela flerta com as idéias de divertimento do lado escuro, e da loucura da juventude dos personagens em Laranja Mecânica. Ela termina com uma curta seção anti-solo antes de finalizar em um colapso surf rock à toda velocidade.

– O que você acha do rock que é lançado hoje em dia?

Nós todos temos diferentes gostos musicais, e ouvimos um monte de coisas rock and roll e fora do rock and roll. Eu defino rock and roll como música que é fiel aos 50s e 60s, e eu acho que como com qualquer subgênero ou subcultura, há sempre coisas ótimas sendo lançadas. Tenho a impressão de que no momento há dois grandes movimentos que são rockabilly ou garage rock (e as bandas de surf que parecem ser aceitas em todos os lugares). Há grandes gravadoras que parecem ser realmente ativas em todos esses campos – por exemplo a Wild Records, Hi Style, Rhytm Bomb ou até mesmo selos de Londres como o Dirty Water Music. Obviamente JD McPherson está trazendo um público mais amplo para música, como pessoas como Jack White têm feito por um longo tempo, e eu acho que isso é ótimo, já que qualquer subcultura às vezes corre o risco de tornar-se fechada para novas adesões. Mesmo uma banda como The Wytches (que eu adoro) tem uma ligação com os riffs de surf – e é interessante ver novas misturas. Em Londres, nos últimos meses, eu vi The Caezars e The Bombers Delta, entre outros, que comprovam a vitalidade do rock and roll em 2015. Os álbuns e artistas que realmente importam em qualquer estilo de rock estão sendo feitos por pessoas derramam sua vida e seu próprio dinheiro para fazer música, o que torna as coisas realmente difíceis para as pessoas. A “indústria” da música está em um momento ridículo agora, mas isso não significa que as pessoas que estão fazendo música, e as pessoas que estão fazendo o rock and roll, estão fazendo isso pelas razões certas. É apenas uma vergonha que seja um estilo meio “nicho” de música.

– Como você definiria o som da banda?

Nós nos descrevemos como dark sax-driven rock and roll. Nos definimos assim pelo fato de que nós não somos uma banda de rockabilly e nós não somos uma banda de garage, por isso estamos tentando encontrar uma maneira de escrever música com a formação que nos interessa. Queremos que cada música que escrevemos seja diferente, e tentamos não nos repetir muito. Eu acho que ter um saxofone realmente define o nosso som.

– O visual e perfomance em shows contam tanto quanto a música para fazer uma banda de sucesso?

Para qualquer banda hoje em dia, shows ao vivo importam – quer você queira ou não. Shows ao vivo para nós são uma desculpa para vestir blazers e gravatas, e nós amamos isso. Não há dúvida de que quando tocamos ao vivo o fato de que temos uma estética que é autêntica para a subcultura da música que estamos tocando é importante, mas também é visualmente estimulante de qualquer maneira deixar uma impressão positiva nas pessoas. Nós tendemos a ser bem loucos tocando ao vivo, e eu costumo deixar todo o piso do palco molhado de suor. Você tem que ter algo interessante ou apaixonado para que as pessoas se interessem em seu show ao vivo. Com o rock and roll, tem de ser energia. Mas você não pode analisá-lo demais, ou não vai ser genuíno. A nossa abordagem é importante para que o sentimento seja certo. Um show cru e intenso com imperfeições musicais é muito melhor do que algo estático e ensaiado. Contudo, no final do dia, a música é tudo. Nós queremos criar o nosso próprio som, e não queremos ser essencialmente uma banda de covers, então o foco central de tudo o que fazemos é avaliar constantemente a música acima de tudo.

harry violet and the sharks

– Se você pudesse trabalhar com qualquer músico / artista, quem seria?

Eu acho que os lançamentos recentes de Marcel Bontempi são uma visão perfeita do que uma interpretação moderna e ainda fiel ao rock and roll pode ser. Eu amo o som de seus discos, mesmo quando ele vai para talvez um som um pouco mais polido, mas eu acho que ele tem uma abordagem tão fascinante e cumprindo de forma consistente o serviço ao rock and roll.

– Quais são os próximos passos de Harry Violet and The Sharks?

Estivemos muito ocupados fazendo um clipe, e fazendo tudo sozinhos para lançar o nosso disco nos últimos meses, por isso nosso foco agora é continuar a escrever material original e continuar aprimorando. Gostaríamos muito de lançar nosso próximo álbum em uma gravadora, mas por agora, temos que continuar escrevendo e continuar tocando ao vivo.

– Recomendem algumas bandas que chamaram sua atenção ultimamente (especialmente se forem independentes!)

Eu estou curtindo determinados discos em particular, não necessariamente exatamente no momento que eles saem. O 45″ do The Guest Villands “Tornado”/“Forbidden Feelings” tem sido um favorito absoluto com uma destilação perfeita de som – e uma vibe assustadora meio The Viscounts no Lado B. Estou ouvindo menos Garage, mas me apaixonei pelo disco do The Wrong Society “To Be Free” – talvez por ser algo diferente do que eu tenho escutado. Neste verão eu dirigi um pouco um trator e estava ouvindo muito o primeiro disco do The Bellfuries de 2001, que é um excelente rockabilly misturado com Hank Williams, e novamente os EPs 7″ de Marcel Bontempi e sua compilação do ano passado “Witches, Spiders, Frogs and Holes”, um álbum impecável. Dito isso, o último registro que eu comprei foi o primeiro álbum “The Dead Cosmic” do Cardeal Fuzz de drone-krautrock.