Lava Divers, um pé na porta que revela a força da nova geração do rock mineiro

Lava Divers, um pé na porta que revela a força da nova geração do rock mineiro

17 de fevereiro de 2016 1 Por João Pedro Ramos

Com pouco mais de um ano na ativa, o Lava Divers surgiu em Araguari, Minas Gerais, e chamou a atenção por seu som sujo e barulhento, mas com melodias que grudam na mente como chiclete debaixo da cadeira. Sempre na estrada fazendo shows, lançaram um single, três clipes e um EP com quatro faixas gravado e mixado pelo produtor Gustavo Vazquez (Violins, Macaco Bong, MQN, Black Drawing Chalks), do Rocklab Produções Fonográficas. Formada por João Paulo Porto (Voz/Guitarra), Ana Zumpano (Bateria/Voz), Glauco Ribeiro (Baixo/Voz) e Eddie Shumway (Guitarra), a banda passeia entre o Lo-fi, Grunge, Shoegaze, Pós-Punk e Britpop. Agora, o quarteto prepara seu primeiro álbum, previsto para o segundo semestre de 2016. Depois, pé na estrada novamente.

Conversei com a banda sobre sua carreira, lançamento, a cena do underground e o rock em Minas:

– Como a banda surgiu?
O baixista (Glauco Ribeiro) e o vocalista (João Paulo), apesar de morarem respectivamente em Araguari e Uberlândia (cidades bastante próximas do triângulo mineiro), se conheceram em São Paulo, num show do Suede. Empolgados com o show, viram que tinham muitos gostos musicais em comum e resolveram montar um banda juntos. Foi então que chamaram o guitarrista (Eddie Shummway) e a baterista (Ana Zumpano), que até já se conheciam e tinham projeto de montar uma banda juntos.

– Quais suas maiores influências musicais?
Essa é bem difícil porque, apesar de a banda frequentemente ser encaixada no estilo das guitar bands, do noise e do college rock noventistas, cada um dos quatro tem influências muito variadas, como Sonic Youth, Pixies, Jesus and Mary Chain, Slowdive, Suede, Teenage Fanclub, Breeders, Ride, Butch Walker, Fugazi, Nirvana, Built to Spill, Guided by Voices, etc…

– A cena underground está em uma retomada? O número de bandas independentes está aumentando? Como vocês veem esse cenário hoje em dia?
Na verdade, a cena underground nunca parou. Sempre existiram boas bandas, adeptas do “do it yourself”, que, sem apoio nenhum, fazem a parada acontecer. Talvez elas estejam mais ativas e em maior número devido à maior facilidade de divulgação de material e da cada vez mais crescente difusão de técnicas e aparelhagem (mesmo simples) de gravação. Nem a atenção do mainstream pode entrar nessa conta porque, convenhamos, ela é cada vez mais limitada e o rock está cada vez mais sendo deixado de lado…

– De onde surgiu o nome Lava Divers?
Na verdade é um drink alucinógeno feito pelo Eddie Shummway que vai vermute, leite com nescau, Ritalina, uva passa e viagra.

Lava Divers

– Me falem um pouco mais sobre o EP da banda.
O EP contém as 4 primeiras composições/gravações, logo no surgimento da banda. Com produção do Gustavo Vasquez (Violins, Hellbenders, Black Drawing Chalks), gravado no Vintage Rock Estúdio, do grande amigo Pablo Vieira, e no RockLab de Pirenópolis-GO, basicamente foi o cartão de visitas da banda, com boa aceitação de público e crítica. Passamos um ano tocando e divulgando esse EP pelo Brasil afora. Agora o próximo passo é o full álbum, que sai no segundo semestre.

– O rock anda sumido das paradas de sucesso. Será que está na hora da retomada do estilo, como já aconteceu nos anos 90?
Isso é uma grande verdade. Pra gente, é difícil fazer uma análise que não seja enviesada sobre o que está acontecendo com o rock ou pra onde o estilo vai. Como fãs de bandas de rock, o que podemos dizer é que sentimos falta de barulho e guitarras, mesmo dentro do que existe no mainstream do rock atual. Sinceramente, não sabemos se isso é ponto pacífico entre fãs do estilo, mas a impressão que temos é a de que além do rock estar cada vez mais ausente da mídia, ele está se distanciando do charme do lo-fi, do fuzz estourado, da caixa que racha, do baixo cheio de semi tons, da guitarra barulhenta ensandecida… quanto mais verdadeiro, cru, visceral e sincero, melhor. Isso era algo bem óbvio e reconhecível nos anos 90, mas hoje, no mainstream, é mais raro. E sim, nós temos saudades…

– Pelo que venho observando, Minas Gerais novamente é um berço de novos artistas e bandas. Vocês têm percebido isso? Qual o diferencial dos artistas do MG?
Nós concordamos e acreditamos que a localização geográfica e a diversidade da música mineira (mesmo fora do rock) contribui em muito com isso. A impressão que dá é a de que as bandas não têm medo de misturar influências, ainda tendo o mérito de fazê-lo de forma natural, com boa qualidade e de forma muito pertinente. E o mais curioso é que dá pra ver isso claramente mesmo fora dos grandes centros. É difícil descrever um cenário quando se está imerso nele, mas dá pra perceber que é sim uma cena muito rica e a quantidade de experiências sonoras sendo feitas é absurda.

– Com o fim da Mtv Brasil e tantos outros meios que apoiavam as bandas independentes, quais veículos da grande mídia mais dão forças para quem está no underground?
A Mtv Brasil era a mesa de diálogo entre o grande público e tudo de melhor que acontecia no underground brasileiro. Esse papel quase “diplomático” faz falta. Hoje, a força do underground está na internet, nos blogs, colunas e podcasts especializados, nas live sessions promovidas por canais, rádios ou estúdios, nas comunidades e fóruns, etc… pra quem já é interessado no assunto, é muito mais fácil ter acesso e descobrir uma banda do que nos anos 90, mas a impressão que dá é a de que é um meio muito centrado em si mesmo, dificilmente transpõe barreiras de público e, por consequência, não atrai a atenção das mídias de maior abrangência. É um paradoxo interessante: existem mais bandas, essas bandas produzem mais material, têm acesso a ferramentas de divulgação que não tinham antes, mas essa produção dificilmente sai daquele nicho específico de público.

Lava Divers

– Quais os planos da banda para 2016?
No segundo semestre de 2016 sai o nosso álbum. Ainda que as bandas hoje estejam cada vez mais abandonando o formato clássico de um full álbum em detrimento a singles e EP’s por razões principalmente econômicas e de marketing, as músicas novas fazem parte de um contexto temporal e artístico únicos da banda; não reunir isso na linguagem de um álbum, pra gente, é ignorar parte importante do que essas músicas representam pra banda. Portanto, reduzimos a quantidade de shows nesse primeiro semestre, concentrando esforços em produção, composição e ensaios. Depois que o álbum sair, aí é partir pra tour e cair na estrada. Além disso, tem participações em festivais, coletâneas… 2016 já está sendo um ano de muito trabalho e foco na banda.

– Recomendem bandas/artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Uma das melhores coisas de se ter uma banda autoral é conhecer bandas novas. Esses quase 2 anos de banda nos propiciaram experiências musicais espetaculares e a quantidade de gente talentosa e de bom gosto que a gente conheceu é muito vasta. Gente como Loomer, Justine Never Knew the Rules, Travelling Wave, Câmera, Lê Almeida, Sick, Mahmed, Lucas Paiva, Senomar… e gente que já é de estrada também, como o Twinpines, o Cigarretes e o Second Come, que ainda estão na ativa, tocando muito e lançando trabalhos inéditos, continuam chutando muitos traseiros por aí…