King John pondera sobre o bem e o mal em seu primeiro disco, “All The Good Men That Did Ever Exist”

King John pondera sobre o bem e o mal em seu primeiro disco, “All The Good Men That Did Ever Exist”

8 de julho de 2020 0 Por João Pedro Ramos

Lançado em março, “All The Good Men That Did Ever Exist” é o primeiro disco do multi-instrumentista e produtor português King John. Passeando por camadas de rock, soul, blues e indie rock, ele cita entre as influências de seu primeiro álbum pessoas como Charles Bradley, Andrew Bird e The Arcs. O conceito do trabalho é pensar sobre todo o bem que as pessoas podem fazer umas pelas outras, homenageando todas as grandes mulheres e homens que já existiram.  

“O ser humano consegue ser muito cruel com a memória dos que fizeram coisas incríveis e que já não estão entre nós”, conta. “Pessoas que lutaram e lutam pelos nossos direitos e liberdades; Pessoas que ajudam a preservar a nossa mãe natureza; Pessoas que contribuem para as artes; Pessoas que estão presentes no nosso dia-a-dia e que nos tornam mais fortes e equilibrados”.

  • Vamos começar falando de seu disco. Como foi a criação de “All the Good Men that Did Ever Exist”?

A ideia para escrever o disco começou no início de 2019. Achei que depois de quase 4 anos de descoberta enquanto artista, estava no ponto certo para concretizar o meu primeiro LP. Foi escrito, gravado e produzido por mim e foi também o encerrar, por assim dizer, da fase mais “experimental” de KJ.

  • Alguns dos adjetivos que foram usadas sobre o álbum são “fantasmagórico” e “misterioso”. Como você vê isso?

Conseguido perceber que digam isso sobre o disco porque aqui e ali, as guitarras e as teclas, carregam esses sentimentos, juntamente com a voz. Mas para ser sincero, o objectivo do album é exactamente o inverso. É uma tentativa de encontrar o melhor que há em nós identificando o que de mal fazemos com as nassas relações humanas, com os seres vivos, com o nosso planeta, etc. Isto tudo do meu ponto de vista, claro.

  • E isso está descrito no título do álbum, né. Como você chegou a este conceito?

Sim, acho que está implícito no título. Surgiu durante um festival de música aqui em Lisboa. Nesse ano era suposto o Charles Bradley tocar, mas infelizmente a doença contra qual ele batalhava levou a melhor e ele faleceu. O festival fez uma bonita homenagem e fizeram um “screen” do documentário dele “Soul of America”. Quando saí do teatro, e já depois de ter rido e chorado ao mesmo tempo, ouvi, as mesmas pessoas que viram esse documentário, a falar sobre as maiores asneiras/coisas sem interesse, como se nada daquilo se tivesse passado. Foi como se aqueles 50 e poucos minutos não tivessem existido. Percebi ali, o ser humano consegue ser muito cruel com a memória dos que fizeram coisas incríveis e que já não estão entre nós.

  • Quais são as principais influências do King John, principalmente neste álbum?

Charles Bradley, pela mensagem que sempre passou nas suas músicas. Broken Bells e The Arcs, na parte sonora. Com as devidas diferenças, claro! 🙂

  • Você mencionou que é o fim de uma fase experimental. Como foi essa fase?

Foi uma viagem incrível que começou com as questões mais elementares: perceber que guitarras utilizar, que amplificador/es, como escrever as músicas, explorar a minha voz. Avançou depois para as primeiras gravações (home made), e tudo o que isso implica, ao mesmo tempo que surgiam as primeiras actuações ao vivo. Depois mais a sério a primeira gravação em estúdio e concertos em palcos “grandes” e finalmente o último ano, com a escrita e gravação do primeiro LP.

  • Como surgiu o projeto King John?

Surgiu de um impulso e de uma necessidade de exorcizar todos os impulsos criativos, que sempre tive. Nunca tive outra experiência musical antes de KJ e também não tenho formação musical, mas a verdade é que a música sempre esteve muito presente na minha vida e até foi bastante natural, a passagem da minha vida de atleta/estudante universitário, para músico/produtor. O projecto começou na ilha de S. Miguel (Açores) de onde sou natural e viajou comigo para Lisboa em 2017.

  • E como chegou ao nome King John?

É uma homenagem ao meu avô paterno, em particular, mas também a todos os que vieram antes de mim e que me ensinaram a viver a vida da melhor forma. Quando estava à procurar de um nome para o projecto, um comentador de um campeonato de surf, descreveu o o surfista John John Florence como “the king of pipeline, King John”. Fiz de imediato uma associação do nome ao meu avô, que se chama João, e achei que para além do valor sentimental, também tinha uma nota artística.

  • Como foi esse lançamento em pleno começo da pandemia?

Foi um pouco estranho, tenho que confessar. Acho que ninguém imaginava que as coisas se desenrolassem desta forma. Teve um impacto directo nas artes e nos artistas, em particular. Mas para mim fazia todo o sentido lançar o album na data prevista e não adiar. Precisava mesmo de encerrar aquela etapa.

  • Nestes tempos de pandemia, como está fazendo a divulgação e como está rolando a recepção?

A divulgação está a ser canalizada maioritariamente, através dos meios de comunicação online e através de algumas rádios, via entrevistas telefónicas e escritas. Também, através de alguns concertos acústicos em casa. Isto tudo com o apoio da incrível Throwing Punches. Acho que as pessoas têm recebido bem o disco. No final do dia é sempre uma questão de gosto pessoal, mas consigo perceber que os ouvintes encontram sempre pontos diferentes com os quais se identificam na minha música, o que deixa-me muito feliz.

  • Você falou que esse álbum é o fim desta fase experimental. Qual a próxima fase do King John?

Eu adorava que a próxima fase fosse explorar este alum ao vivo. Ter inputs dos músicos e redescobrir as músicas, será um pouco difícil agora. Pelo menos nos moldes que idealizei. Por agora, e agora que já tenho mais certeza de como quero que KJ soe, estou a trabalhar a parte da produção e gravação, quem sabe já para um segundo LP no início do próximo ano.

  • Já tem músicas novas?

Ui… Muitas mesmo!

  • Como anda a cena independente de Portugal?

Eu acho que estava a evoluir de uma forma positiva. Cada vez mais artistas “menos conhecidos” nas rádios, embora pudesse haver ainda mais, espaço para programação desses artistas e estúdios receptivos a gravações. Acho que os artistas independentes vazem coisas incríveis com o pouco que lhes é dado. É pena que isso não seja ainda mais reconhecido e valorizado. No final do dia, acabam por ser sempre os mesmos a “aparecerem” nos eventos com mais projeção. Acho que deviam ser dadas mais ferramentas a quem realmente necessita e não a quem já tem os dois pés no topo da pirâmide.

  • Porque você acha que música vinda de Portugal não tem uma grande chegada no Brasil?

Acho que a razão principal é o facto de no Brasil haver muitos bons artistas. A qualidade da música é inegável e isso torna o mercado super competitivo.

  • Recomende bandas e artistas de Portugal que a gente deveria ouvir!

Alguns, sim: Grand Sun; Polivalente, Sara Cruz; We Sea.