Jhoão Sobral adiciona criatividade de inventor em suas músicas com a “vassonora”

Jhoão Sobral adiciona criatividade de inventor em suas músicas com a “vassonora”

3 de abril de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Há algumas semanas eu caminhava pela Avenida Paulista quando vejo um rapaz que iria se apresentar na calçada não uma guitarra, mas uma vassoura. Ao vê-lo tocando a tal “vassonora”, uma mistura de vassoura e violoncelo, não pude deixar de fazer uma entrevista. Lógico que muita gente parou pra ouvir o som do inusitado instrumento musical, e formou-se uma rodinha em volta do cantor e compositor cearense Jhoão Sobral, o inventor da vassoura mágica.

Como começou sua carreira? A resposta padrão é “bem Londres daqui”, segundo ele. Em 2013, o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou sua música lá, e a partir daí ele lançou um EP e diversos singles, sendo incluído até em uma coletânea da Fifa junto de nomes como Alceu Valença e Seu Jorge.

Conversei com ele sobre sua carreira, a “vassonora”, as apresentações na rua e suas dificuldades e seu novo single, “Baiano Tororó”:

– Te conheci na Avenida Paulista, tocando uma vassoura-cello. Como rolou isso?

A Vassonora, como apelidei minha invenção, surgiu como uma estrela cadente no céu anunciando a prosperidade. A vassoura é um signo de luta, de trabalho e de limpeza, eu sinto que a dificuldade é a mãe da invenção… Ela apareceu na minha cabeça. Acredito que tenha sido um presente do Universo, a ideia é minha,mas quem me ajudou a fazer foi um amigo luthier, Lauro Sabonge, ele constrói violinos.

– E como foi a construção dela?

Bom, a vassoura já estava pronta ali, ganhei essa vassoura do Tatá Aeroplano, grande artista. A ideia era que tivesse uma corda só e foi isso. Ela tem dois microfones (piezo) de contato, um no cabo justamente para captar o som da corda que foi colocada. Estamos usando uma corda de Cello doada pelo Pery Pane. Repare que essa vassoura o Universo me deu: os microfones ganhei num curso de construção de baixo custo no Sesc Consolação… O outro microfone está nos cabelos da vassoura pra captar esse som mais percussivo e tem uma tarracha de madeira para afinar esculpida pelo luthier Sabonge.

– E como foi a repercussão dela na rua?

Nossa, incrível! As pessoas adoram, as crianças acham mágico, me chamam de bruxo, etc e tal. Essas coisas, a vassoura é um simbolo importante na humanidade, mas agora fiz dela um signo e batizei de Vassonora! Tá um sucesso só, já fui até convidado para ir ao “Domingão do Faustão” no quadro “Se Vira Nos 30” e pretendo fazer mais invenções!

– Como você começou sua carreira?

Através de um sonho. A gente que veio do nordeste com uma mão e outra atrás não tem muita esperança não, mas vou tentar resumir aqui. Começo com 14 anos. Sonhei que tocava violão sem nunca ter encostado a mão num violão. No colégio contei o sonho para meus amigos, estava prestes a fazer 15 anos e meus amigos me deram um violão de presente, brinco que eles investiram no meu sonho. Mas gosto de pensar mesmo que minha carreira começou e é verdade isso, quando o pesquisador musical Gilles Peterson, DJ da rádio BBC de Londres, tocou minha música lá. Sim, eu estreei como compositor na radio BBC de Londres em 2013! Dois produtores musicais aqui de SP, Guilherme Lopes e Junior Deep, meus amigos, toparam produzir 4 faixas, e essas 4 faixas lançadas em 2013 estão rendendo frutos até hoje. Em 2014 entrei numa coletânea da Fifa junto de Alceu Valença e Seu Jorge e outros artistas que admiro.. Isso é o meio!

Jhoão Sobral

– Já que tocou no assunto, pode me falar um pouco mais do material que você já lançou até agora?

Em 2013 saiu o EP “Vai na Fé”, que tem no iTunes, Spotify, Deezer etc… De lá pra cá lancei singles, lancei “Brazilian Drumanbass” em parceria com o Drumagick, dupla de irmãos DJs e produtores musicais, essa faixa tocou na festa Tomorrowland na Inglaterra. Lancei “Lady – Uma Canção para Billie Holiday”, lancei também “Liberdade Mística” em parceria com Kiko Dinucci, e agora em agosto sairá meu próximo single, “Baiano Tororó”, que fiz em homenagem ao Gilberto Gil.

– Quais as suas principais influências musicais?

Gilberto Gil, Bob Marley, Belchior, Luiz Gonzaga e Tom Jobim.

– Pode me falar um pouco mais sobre o single?

“Baiano Tororó” trata-se uma canção em homenagem ao compositor-mor, Gilberto Gil. Fiz essa música após ter assistido seu documentário “Tempo Rei”. É uma singela homenagem, a letra traz também uma atmosfera baiana, negra, brasileira, com arranjos de flauta, uma espécie de “sambossasoul”, eu diria.

– Você toca na rua. Como você vê essa nova gestão em São Paulo, que têm tirado os artistas de rua de circulação?

Bem, ainda não fui retirando da rua, a polícia passa por mim e apenas observa. Mas me parece que o novo prefeito que escolheram (e eu não faço parte dessa escolha) quer tirar os músicos de rua com seu projeto Cidade Linda! Também acho que essa nova gestão… se é que pode chamar de gestão uma coisa dessas, eu chamaria de indigestão. Uma cidade sem orçamento de cultura é uma cidade morta, um país sem investimentos em cultura é um país pobre. E quando falo em cultura é todo um universo de coisas envolvidas…

– Como você vê a cena independente de hoje em dia?

Sinceramente existe muito amadorismo, eu mesmo me sinto amador nesse sentido, mas isso vem de uma cultura já estabelecida. Não estou generalizando, que fique claro. Tem muita coisa a ser feita, São Paulo é uma cidade grande mas tem muito artista desistindo de lutar e de fazer sua arte por conta desse amadorismo que existe na própria politica cultural! Mas de certa forma a cena independente está sim evoluindo e evolui a cada dia. Estamos mais unidos, se autoajudando, mas ainda é muita roubada. Pra fazer um show num boteco qualquer tem gasto, e às vezes mal temos dinheiro pro ônibus, como já aconteceu comigo. A cena independente é também uma armadilha se você não souber gerenciar e planejar. Não da pra fazer tudo sozinho, querer se vender, ensaiar, estudar… Não dá, vai ser tudo meia boca, como está sendo: luz ruim, som ruim, show ruim… Claro que isso é tudo muito relativo e deixo aqui bem claro que não estou generalizando.

– Então essa queda das gravadoras com o aumento do streaming acabou sendo negativo, de certa forma.

Sim e não. Tudo tem dois lados, acredito! Com as gravadoras acredito que você tinha ali uma certa comodidade e se preocupava apenas com a música, com sua execução. Os caras organizavam tudo: turnê, os caras pensavam diferente, planejava… Mas também, você tinha que fazer o que os caras mandassem. Isso é o que dizem, não sou dessa época, talvez nem dessa (risos)… Mesmo assim, todo dia são lançadas músicas e músicas, você baixa 10 discos num dia, grátis… E não ouve nenhum. Por outro lado, você descobre uma penca de artista bom, gente que te inspira, uma facilidade para gravar e divulgar, se lançar no espaço…

– Ou seja, a internet no fim é uma boa ferramenta, mas atinge somente quem realmente está interessado em garimpar.

É por ai. Às vezes navegamos à deriva, eu mesmo já me vi fazendo isso. Estou sempre me policiando, a liberdade às vezes é um labirinto. Eu às vezes sinto que ando em círculos! Precisamos ser mais disciplinados. Não estou aqui querendo colonizar ninguém, só acho que um pouco de disciplina poderia dar um up. Bem, eu tô falando isso pra mim mesmo, pois não tenho disciplina para estudar inglês, por exemplo. Minhas musicas tocam no mundo todo já, ano passado fui pra Europa com um inglês tupiniquim cavernoso.

– Quais são seus próximos passos musicais?

Bem quero continuar lançando singles, até uma cambada de gente falar “Sobral, lança um disco, já ouvi umas 5”. (risos) É pouco… Mas musicalmente falando, falta em mim um amadurecimento que já está se dando ao longo dessa trajetória até aqui… Mas estou estudando percussão corporal, estudando harmonia, sempre compondo. É isso, em agosto sai o single “Baiano Tororó” pelo selo Batucada Records, e talvez no começo do ano outro. Está vendo por que é tudo amador? Como que um artista compositor como eu, que faz música todo dia, lança dois singles por ano, às vezes nenhum, por que falta de grana? Sem grana a gente não faz nada. Ainda bem que tem parceiros que acreditam e fazem na parceria, senão eu ja teria desistido… Eu não to chorando as pitangas não, eu tô é arregaçando as mangas… Por isso toco na rua… em breve farei um show na Paulista, voz e violão!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Bem não sei se são todos independentes, mas vamos lá: Kiko Dinucci,  CuruminTiganá SantanaTatá Aeroplano, Lenna Bahule. Tem uma penca, mas com esses daí já da pra ver onde quero chegar!