Gilberto Gil e “OK OK OK” – Okê Okê Okê

Gilberto Gil e “OK OK OK” – Okê Okê Okê

25 de setembro de 2018 0 Por Pedro Vivas

Gilberto Gil ainda é central para entender o que é a vida, o que é o Brasil e o que são os avanços tecnológicos

 

“OK OK OK,

já sei que querem a minha opinião,

um papo reto sobre o que eu pensei,

como interpreto a tal, a vil situação

Penúria, fúria, clamor, desencanto

Substantivos duros de roer

Enquanto os ratos roem o poder

Os corações da multidão aos prantos

Alguns sugerem que eu saia no grito

Outros, que eu me quede quieto e mudo

E eis que alguém me pede: “Encarne o mito”

“Seja nosso herói, resolva tudo” ”.

 

Gil começa o álbum desta maneira, um reconhecimento de que ele percebe, sim, as centenas de mensagens que deve receber todos os dias – muitas de ódio, tantas outras de apreço. Não há indiferença por sua parte. Se você quer entender um álbum de Seu Gilberto, uma parte importantíssima disso é a faixa título. Vários dos seus discos carregam na faixa título a tônica filosófica e musical do disco. Na “Refazenda”, o “abacateiro”, o Brasil rural, profundo; na “Refavela” “o salto que o preto pobre tem pra dar”, a convergência dos fenômenos africano e brasileiro – na Nigéria, Fela Kuti, no Brasil, o movimento Black Rio. O mesmo pode ser visto em “Realce”, com a revelação de uma veia mais pop, em “Parabolicamará”, com o debate da globalização, ou em “Quanta”, com a discussão do quântico, do científico e do religioso. “OK OK OK” com certeza segue essa linha.

Em um debate similar ao visto na música “Metáfora”, Gil debate a sua posição enquanto poeta e artista diante de um panorama de tanta polarização, ódio e rancor. Se em metáfora ele afirmava

“Por isso não se meta a exigir do poeta,

Que determine o conteúdo em sua lata

Na lata do poeta tudo-nada cabe

Pois ao poeta cabe fazer

Com que na lata venha a caber o incabível”

 

Em “Ok Ok Ok” ele afirma e conclui acerca de si:

 

“Então não falo, música e poeta

Me calo sobre as certezas e os fins

Meu papo reto sai sobre patins

A deslizar sobre os alvos e as metas”

 

“OK OK OK” é um “papo reto sobre patins”. Não é imediata a apreensão de tudo o que Gil quer afirmar e ainda bem que é assim!

A tônica musical do disco também é introduzida, com um arranjo marcado pelo violão característico de Gilberto, mas ao mesmo tempo com o que interpretei como a “marca” da produção de Bem Gil ao longo do disco – uma fusão do moderno e do tradicional, de uma leveza e de um peso no arranjo (por algum motivo tive uma leve lembrança da sonoridade de Caetano em “Zii e Zie”, mas pode ser apenas uma impressão). Uma sonoridade muitas vezes ambígua, no melhor sentido.

Mas “OK OK OK” é apenas uma das faces que o disco revela e evidencia…

 

AS COMPOSIÇÕES FAMILIARES

As composições homenageando membros da família Gil ficam evidentes nesse disco, assim como muitas outras que destaco mais à frente. Mas no que se refere especificamente a família, Gil canta em “Sereno” uma homenagem a seu neto e em “Sol de Maria” uma homenagem à sua bisneta, neta de Preta Gil. As duas já tinham sido reveladas anteriormente, de maneira parcial. A música de Maria, em especial, teve um trecho mostrado nas redes em um vídeo lindíssimo e delicado de uma festa da família Gil. Outra música muito familiar é “Uma coisa bonitinha”, parceria com João Donato que tem um ritmo que lembra claramente o fantástico disco “Lugar Comum” (1975) – parceria dos dois. “Uma Coisa Bonitinha”, por sua sonoridade tão nostálgica e destoante talvez tenha me conquistado e a considero a melhor do disco.

 

“Mamãe, eu já sei o que é que eu vou fazer

Vovó, vou acabar morando com você”

 

A faixa “Na Real”, é mais uma homenagem à Flora e o clipe lançado na plataforma Apple Music comprova isso. É uma bela faixa, com um tom moderno. Certamente será radiofônica nos próximos meses.

 

AS COMPOSIÇÕES DA PASSAGEM DO TEMPO (DAS ENFERMIDADES, TAMBÉM)

Gil nos deu alguns sustos nos últimos dois anos, e, em suas composições deste álbum há uma marca forte disto. Os efeitos da passagem do tempo e a experiência da velhice no que Gil diz fica evidente.

Há homenagens para médicos específicos que o trataram durante suas várias internações por insuficiência renal. “Quatro Pedacinhos” para a dra. Roberta Saretta e “Kalil”, para o dr. Roberto Kalil. Duas boas faixas, e de maneira mais evidente a primeira, que, aliás, já havia sido mostrada em versão voz e violão no “Programa com Bial”.

Em “Jacintho” há mais uma reflexão sobre a velhice, sobre o progressivo enfraquecimento do corpo, universal e impávido. Já em “Ouço” há um arranjo forte, pesado, em que é difícil afirmar o que Gil quer dizer exatamente, mas há uma referência à pulsação de um coração, à pulsação da humanidade, tão falha, tão contraditória, mas que ainda assim mantém uma certa congregação (?), uma universalidade (?). A letra é simples mas guarda em si uma certa complexidade.

“Ouço
Todos os corações batendo
Todos os corações do mundo
Batendo
Ouço
Todo esse barulhão que fazem
Toda essa percussão selvagem
Batendo”

Gilberto Gil, João Donato e Marcos Valle –  (Cristina Granato)

MAIS PARCERIAS…

“Tartaruguê” é mais uma faixa em parceria com João Donato. De novo é convocada uma sonoridade que marca a dualidade entre a nostalgia e a modernidade. Travei um pouco diante dessa faixa ante a convocação da saudação “anauê”, que fora utilizada da pior maneira possível no início do século XX, no movimento fascista Integralista. Essa escolha certamente é mais uma provocação lírica de Gil, se apropriando de um vocábulo carregado e conduzindo para o melhor sentido possível. Já em “Afogamento”, mais uma canção previamente revelada, há mais uma parceria com Roberta Sá, mais um dueto de sucesso, sete anos depois de “Minha Princesa (Cordel)”, tema da novela “Cordel Encantado” da Rede Globo. Outra parceria que se destaca bastante é a realizada com Yamandú Costa, na autointitulada “Yamandú”, homenageando um dos maiores músicos contemporâneos que o Brasil produziu. A música começa com uma incrível introdução fazendo jus ao homenageado, brinca na sua construção com o “violão ligeiro” e traz também uma visão otimista do brasileiro e de suas potencialidades – “viva o brasileiro até o fim”.

 

E O QUE RESTA?

“Lia e Deia” segue a tendência do disco e trata-se de uma homenagem à Andreia Sadi e Maria Ribeiro – fruto de encontros recorrentes no apartamento do finado jornalista Jorge Bastos Moreno. Há uma entrevista interessante com Maria Ribeiro, no novo programa de Gil no Canal Brasil (“Amigos, Sons e Palavras”). Nela há um detalhamento maior da origem da música, fruto de um pedido de Maria Ribeiro, que começou como brincadeira e terminou sendo eternizada no disco. Em “Prece”, mais uma vez a reflexão filosófico-religiosa se faz presente. Literalmente é uma prece – lembra de certa maneira as faixas “Meditação”, do “Refazenda” e “Kaô”, do “Sol de Oslo”. Canções introspectivas, marcadas por uma visão sincrética do mundo e da espiritualidade. “OK OK OK” termina com a música “Pela Internet 2” – outra previamente lançada em parceria com o Youtube Space Brasil. É utilizado um arranjo que dialoga com o reggae, mas que não funcionou tão bem na minha opinião. O ponto positivo reside na letra, uma atualização da “Pela Internet” original, pioneira na época (com o lançamento complexo Pela Internet na sede da Embratel em São Paulo, no ano de 1996) e que segue uma tendência antiga de reflexão sobre as novas tecnologias na obra de Gil (“Futurível”, “Cérebro Eletrônico”, “Cibernética” e a lista segue) e de militância também, como ocorreu durante sua atuação no ministério da cultura e a defesa do então em voga “Creative Commons” na discussão dos direitos autorais.

Gilberto Gil e Flora Gil no desfile de 2018 da Vai-Vai em homenagem ao artista – foto divulgada no instagram

 

MAS E AÍ?  “OUÇO” OU FICO NO “SERENO”?

“Sai do sereno, menino”! “OK OK OK” é, nas palavras do próprio Gil, a primeira obra em que o envelhecimento se estabelece como plano de fundo de maneira mais pujante. Para quem gosta de música popular brasileira e de Gilberto Gil é uma obra importante e que certamente ficará marcada como um ponto de virada na discografia do artista.

As palavras de Gil ainda possuem grande importância para o estabelecimento de reflexões sobre o Brasil, sobre o mundo e sobre a espiritualidade. No disco há uma presença constante de homenagens, de composições familiares e de parcerias. Em alguns momentos você se sente de certa forma, em meio a casa da família Gil em um almoço de família. É um disco muito íntimo de certo modo. Por outro lado, é bastante direcionado aos que cercam Gil, seus amigos, companheiros, pessoas do seu convívio. Em muitos momentos há um casamento bacana entre a nostalgia e a modernidade e certamente Bem Gil teve grande mérito nesse sentido durante a produção. Debates históricos da obra do artista são retomados de maneira no mínimo instigante. A morte, que se fez presente de maneira muito forte em “Não Tenho Medo da Morte”, do “Banda Larga Cordel”, é parte importante do disco, seja de maneira explícita, seja nas entrelinhas. Gilberto Gil ainda tem muito a oferecer à um Brasil que esquece de sua história, que está infectado por uma grave síndrome de vira-latismo e que está cada vez mais conservador e careta. Embora em suas companhias e opiniões existam algumas vezes flertes com setores não muito bacanas e que contradizem sua filosofia de mundo, quiçá, sua existência por si só ainda é uma pedra no sapato de setores elitistas e racistas do país. O “Tempo Rei” é que sabe quando Gilberto Gil vai partir, mas quem se importa com a cultura brasileira se une na “Prece” para que seja daqui a várias décadas – com ajuda dos doutores, das tecnologias e dos deuses sincréticos.

 

Links extras e referências:

https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2018/08/10/tem-a-ver-com-o-fato-de-eu-ser-negro.htm

https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2018/07/31/luiz-zerbini-traduz-ancestralidade-serena-de-gilberto-gil-em-aquarela-exposta-na-capa-do-album-ok-ok-ok.ghtml

https://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2016/10/24/gil-da-entrevista-de-dentro-do-hospital-e-canta-sobre-pedacinhos-do-coracao.htm