Garotas do Girlie Hell lutam contra o machismo no rock e planejam novo disco e DVD para 2015

Garotas do Girlie Hell lutam contra o machismo no rock e planejam novo disco e DVD para 2015

15 de julho de 2015 0 Por João Pedro Ramos

Vocais rasgados e riffs marcantes criados por quatro garotas vindas diretamente de Goiânia. Na ativa desde 2007, as meninas do Girlie Hell lançaram em junho o clipe para “My Best” e prometem ainda para 2015 um novo disco e DVD cheios de peso e criatividade. Formada por Bullas Attekita (Voz e Guitarra), Júlia Stoppa (Guitarra e voz), Carol Pasquali (Bateria) e Fernanda Simmonds (Baixo), a banda prepara o sucessor de “Get Hard” (2012), lançado pela Monstro Discos.

Enquanto isso, a banda continua em turnê pelo país. Elas já tocaram com bandas de alto calibre como Bad Religion, Kyuss Lives, Biohazard, Sepultura, Red Fang, Motossierra, Crucified Barbara, Claustrofobia, Krizium e Dominatrix e prometem continuar fazendo muito barulho.

Conversei com a baterista Carol Pasquali sobre a carreira do Girlie Hell, bandas femininas e o machismo que insiste em continuar vivo no mundo do rock:

– Como a banda começou?
A banda começou em meados de 2007, quando juntamos meninas para tocar e se divertir. A diversão foi ficando séria e desde o começo já nos preocupávamos em compor nossas próprias músicas. Foi em 2011 que a banda se fechou na atual formação e, então, caminhos diferentes foram trilhados. O estilo mudou – ficamos mais pesadas – e o trabalho ficou ainda mais sério, saindo, então, o disco, singles, clipes e vinil.

– Quais são suas principais influências musicais?
As referências musicais são bem distintas individualmente. Cada uma bebe de uma fonte diferente, o que agrega muito na hora de compormos nossas músicas. Em comum, posso citar Mastodon, Deftones, Kittie, L7, Girlschool

– Como é o processo de composição?
Nosso processo de composição é variado e bem aberto. Quem tem uma ideia, um riff, uma letra ou uma música traz pra roda e então cada uma coloca sua pitada, dá seu palpite, até chegarmos a um formato consensual. Quem colabora mais é a Bullas (vocal e guitarra), que é responsável pelos arranjos e linhas de vocais. Ela têm trazido muita coisa boa!

– Porque é tão difícil ver bandas formadas só por garotas no Brasil hoje em dia?
O número de bandas femininas têm crescido, mas ainda é pequeno em comparação à bandas formadas apenas por homens. O acesso à informação, cultura e aos próprios equipamentos está cada vez maior. Podemos ver muitas meninas em escolas aprendendo seus instrumentos. Talvez o que esteja faltando seja um empurrãozinho para que mais garotas se juntem em um projeto e que a mídia dê cada vez mais espaço para que esses trabalhos sejam expostos. Nós estamos aqui pra isso: incentivar para que o medo e o preconceitos sejam deixados para trás!

– O machismo ainda é forte no meio musical? Vocês já sofreram com isso?
O preconceito ainda existe, infelizmente. Não temos nenhum caso muito chocante ou perturbador para dividir. O que vivemos é um preconceito encrustado nas pessoas, algo cultural, como se fosse “normal” mesmo. Muitas pessoas chegam ingenuamente em nós empolgadas e dizem “pô, eu vim no show achando que vocês não davam conta de fazer um rock de qualidade e eu me surpreendi”. O que a pessoa quis, na verdade, era elogiar. E isso nos assusta muito. De onde vem essa ideia de que alguém não daria conta de fazer algo apenas pelo seu gênero? Hoje entendemos o elogio e tentamos levar as pessoas à essa auto crítica. Quais são os pequenos preconceitos que você vive todos os dias? São neles que nós queremos pegar. É isso que queremos mudar.

Girlie Hell

– Se vocês pudessem fazer QUALQUER cover, qual seria?
Xi…. Cover? (risos) Focamos tanto no trabalho autoral há tanto tempo que essa é uma pergunta difícil… Mas já tocamos uma vez, em um show, um cover de Pantera, “Walk”.

– Parece que hoje em dia poucas bandas de rock novas estão cantando em português. Porque a preferência pelo inglês?
O inglês em nossa música foi algo muito natural. Não foi nada premeditado pensando em mercado ou público. Para nós, nossa música soa melhor em inglês. Mas não temos amarras em relação a isso. Pode ser que em um trabalho futuro surjam músicas em português. Porque não?

– O rock pode voltar ao topo das paradas no Brasil?
Tudo pode acontecer nesse universo da música e cultura em geral. Modas vêm e vão. Se eu acredito que o rock seja main stream no Brasil, tal como vivemos hoje o sertanejo? Acho muito improvável. Mas eu acredito num crescimento da cena independente. Muitas bandas gringas têm pisado por terras tupiniquins, longe dos estádios e grandes arenas. Têm feito tours longas por várias cidades e subindo em médios e pequenos palcos. Talvez isso seja um reflexo de uma chama que está inquieta no público. Vamos torcer pra ela vire um grande incêndio e que se valorize as bandas nacionais também.

– Quais são as maiores dificuldades de ser uma banda independente?
A independência por si só é uma dificuldade. Ter sempre que lutar “sozinho”. Algumas vezes as forças se esvaem. É quando as amizades e o público são importantes para dar aquela animada. Mas a dificuldade de ter que estar sempre administrando tudo na banda – administrativo, financeiro, logístico, etc. – nos faz crescer muito e traz o lado bom: nos faz independentes. Pra fazer a coisa acontecer, dependemos apenas de nós (e da resposta do público em relação ao trabalho, claro). Ficamos sem amarras. Estamos livres para defender nossas ideias, nossas músicas e tudo aquilo no qual acreditamos.

Girlie Hell

– O que podemos esperar de Girlie Hell em 2015? 🙂
Muuuuuita produção! Acabamos de lançar o single “My Best” e já temos um CD e um DVD engatilhado. Também temos planos para mais clipes, claro.

– Indique algumas bandas e artistas novos que vocês adoram. Se possível, independentes! 🙂
Estamos sempre acompanhando de perto o trabalho da Nervosa, Indiscipline, Confronto, Far From Alaska, The Galo Power, Coletivo Sui Generis e Damn Stoned Birds (essas últimas 3, goianas).