Garimpo Sonoro #1 – 3 dicas para você começar a gostar de música clássica

Garimpo Sonoro #1 – 3 dicas para você começar a gostar de música clássica

8 de outubro de 2015 0 Por Pedroluts

Trabalhei alguns anos numa grande livraria e durante boa parte da minha passagem fiquei na seção de Música Clássica, que era isolada do resto da loja por uma parede de vidro. Lá, tinha alguns benefícios, como: geograficamente, já havia uma pré-seleção de clientes, o que diminuia consideravelmente os aborrecimentos; sempre precisava ficar alguém na sessão, mesmo que ela estivesse sozinha, o que garantia uma mínima tranquilidade; e, talvez o mais importante, eu detinha o controle da trilha sonora da seção.

Nesse período, pude explorar todos os CDs possíveis, descobrindo coisas incríveis, sob os mais variados critérios: “que capa foda”, “que muié bonita!”, “ah, foda-se, vai ser esse mesmo” e por aí vai. Também tive as recomendações de grandes amigos que fiz por lá (Luis Cláudio e Fábio Bonillo são apenas dois dos mentores musicais dessa época).

Desse garimpo diário (seis vezes por semana, das 13h40 às 22h), guardo com grande respeito ao menos três solistas, que compartilho com vocês (para aqueles que não são tão adeptos à música clássica, um pouco de paciência e ouvidos abertos, tanto quanto os corações, por favor).

1- Glenn Gould

Glenn Gould

O pianista canadense inspira amor e ódio: há quem acredite que ele resgatou a essência de se tocar Bach (sem o jeito afetado da era Clássica, investindo numa exatidão bem Barroca); e há quem ache que ele mata qualquer paixão na música.

Mas basta ouvir algumas notas para perceber que há algo de diferente nele. As notas não se misturam, não se sobrepõe. Cada uma tem vida própria, conversam entre si numa harmonia tão fascinantemente exata. E, para os hipsters, saibam: dois anos antes dos Beatles decidirem parar de fazerem turnê, Glenn Gould já havia decidido abandonar os palcos, focando apenas em gravações e programas de rádio (vale a pena ouvir “The Idea Of North”, com uma orquestração de relatos).

Outras duas características interessantes: ele só tocava cantarolando e nunca sentou ao piano sem sua cadeira de estimação, feita pelo pai e muito baixa. Ele também arrumou muita briga com puristas por mudar os tempos das obras.

Vejam isso e me digam se não é intrigante!

2- Jacqueline Du Pre

Jacqueline Du Pre

Dela eu sei bem menos que Gould, mas a intensidade com que ela toca o cello é dilacerante. É impossível não se contaminar com a abordagem que ela dá, principalmente em sua obra prima, a interpretação do Concerto para Cello de Elgar.

Há muitos anos, escrevi o seguinte sobre os primeiros minutos do vídeo abaixo:

“Como uma súplica, as primeiras notas expressam um desespero agonizante. Após um leve sussurro dos sopros, tomado por um cansaço, o solo passa a ser menos desesperado, mas não menos triste. As violas entram para acalentar esses pensamentos e são correspondidas pela mesma melodia, carregada de sentimentos. Esse diálogo permanece e se intensifica até seu apogeu, com a entrada do tímpano e toda a orquestra seguindo o tema, escrito após o compositor acordar de uma cirurgia.”

3- Mitsuko Uchida

Mitsuko Uchida

Essa é uma diversão vê-la fazer caras e bocas enquanto sola AND rege a orquestra (algo que um músico acadêmico me disse ser altamente complexto). Além disso, nunca consegui encontrar uma versão desse Piano Concerto de Mozart que chegue perto da intensidade que Uchida conseguiu. Se precisa de uma música que te dê um gás, essa é perfeita:

Saca só:

Extra: Jacques Loussier

Jacques Loussier

Se você achou um porre as três sugestões acima, mas conseguiu se arrastar até aqui, um agrado (pelo menos para quem se interessa por jazz). Jacques Loussier resolver adaptar várias obras eruditas para um trio de jazz, dando pitacos de improviso para a exatidão militaresca da música clássica:

Tem alguma indicação de música erudita que seja bacanuda pra compartilhar? Manda pra cá!