Festival Distúrbio Feminino combate o machismo no meio musical neste sábado em São Paulo

Festival Distúrbio Feminino combate o machismo no meio musical neste sábado em São Paulo

14 de outubro de 2015 0 Por João Pedro Ramos

Neste sábado acontecerá em São Paulo a primeira edição do festival Distúrbio Feminino. Organizado pela autora do programa de rádio/blog, Mariângela Carvalho, Supernova Produções e pelo Tsunami Coletivo, o evento vai rolar na Praça do Ouvidor, que fica no Largo São Francisco, na Sé, das 14h às 19h. O festival é gratuito. “O objetivo é mostrar a qualidade dos trabalhos realizados por mulheres em diferentes áreas das artes”, explicou a produtora. “O evento procura evidenciar o poder das garotas, que nunca deixaram a desejar no quesito talento e originalidade. Queremos mostrar que as mulheres estão em completa equidade criativa e artística com os homens, e que muitas mulheres juntas podem mudar o sistema e as noções de machismo”.

O line-up contará com 4 bandas paulistas independentes: do interior, La Burca (Bauru) e Travelling Wave (Piracicaba), e da capital, BBGG e Fronte Violeta, bandas que surgem com força no cenário autoral do rock em 2015. Além disso, as garotas do Coletivo Efêmmera farão um grafite ao vivo durante o evento e o selo Contra Boots registrará um bootleg com os shows do dia, que será lançado em fitas K7 limitadas posteriormente.  Conversei com Mariângela sobre o evento:

 

– Como surgiu a ideia do festival?

Quando o Distúrbio Feminino surgiu ele tinha muitos propósitos: ser um zine artesanal, uma festa, programa de rádio, blog, festival. Começou como programa de rádio (atividade que sempre exerci desde formada) e ficou no ar por cerca de um ano e meio. Como a ideia nasceu para ser pluralista mesmo, envolvendo diferentes formatos e mídias, já estava na hora de expandir o foco e estrear como festival. Os objetivos continuam iguais (assim como eram enquanto programa radiofônico): mostrar a qualidade dos trabalhos realizados por mulheres em diferentes áreas das artes; por isso o festival traz música e artes visuais, com as garotas do Coletivo Efêmmera promovendo um grafite ao vivo durante o evento.

– Como este projeto busca combater o machismo, que continua tão em alta no Brasil (e em todo o mundo)?
O evento procura evidenciar o poder das garotas, que nunca deixaram a desejar no quesito talento e originalidade. Queremos mostrar que as mulheres estão em completa equidade criativa e artística com os homens, e que muitas mulheres juntas podem mudar o sistema e as noções de machismo. Hoje sabemos que podemos fazer e ser tudo aquilo que queremos.:)

BBGG

BBGG

– Pode me falar um pouco mais sobre as bandas que vão participar?

Quando o festival começou a ser formado a ideia era que tivéssemos 4 bandas vindas de lugares diferentes do Brasil para mostrar as diferentes produções que temos hoje em dia. Grupos do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram convidados, mas com nenhum deles foi possível (os motivos eram os mais variados, mas o que pesou mesmo foi o preço das passagens, pq realmente ainda é muito caro viajar pelo país). Depois dessa fase com várias respostas negativas (que também fugiam do controle das próprias bandas), grupos próximos foram convidados e aos poucos pudemos fechar o line-up em 4 nomes. Os estilos das 4 bandas são bem variados entre si mas todos carregam a essência do rock. BBGG é um nome recente no circuito mas tem um potencial enorme. Com 3 garotas à frente, a aposta deles é numa pegada mais classic rock, riffões e refrão para ser gritado. La Burca e Fronte Violeta são dois duos, de Bauru e SP capital, respectivamente. O La Burca tem uma proposta que considero bem original no país que é fazer punklore, um punk acústico (muito produzido nas terras gringas mas por aqui ainda sem muito destaque), e o Fronte Violeta faz experimentações eletrônicas e brinca muito com colagens sonoras, synths, delays. E o Travelling Wave é um quarteto de Piracicaba. A onda deles é mais psychedelic com muitas teclas e reverb, fazem um show bem intenso e têm 2 garotas de destaque.
La Burca

La Burca

– Nos anos 90, festivais com bandas independentes pipocavam em todo o país e geraram diversas cenas musicais. Porque isso parou? Tem como recuperar?

Acho que o ritmo foi diminuindo ao  longo dos anos, mas nunca chegou a parar. Muitos fatos podem ser creditados a esse déficit como, por exemplo, o rock ter passado uns bons 15 anos na geladeira no Brasil. Há anos não temos um nome forte e que chegue às massas mesmo, isso enfraquece o movimento e a vontade de fazer. Nos primeiros 5 anos dos anos 2000 surgiram muitos festivais de rock independente mas eles perderam a força quando se notou que a movimentação era mais política do que artística. Isso tb enfraqueceu quem estava a fim de produzir. Hoje em dia eu acho que o momento é outro mesmo, com agentes culturais e bandas levando o faça-vc-mesmo ao pé da letra e concretizando vontades que antes só existiam no plano das ideias.

– Você pretende levar o projeto para a frente, fazer mais edições do festival?
Com certeza! O Distúrbio Feminino (como um todo) sempre obteve mais sucesso do que eu imaginava e próximas edições estão certamente nos planos, com vontade de ser cada vez maior e dar mais visibilidade para as mulheres nas artes.

Travelling Wave

Travelling Wave

 

 – Onde será o festival? As casas de SP oferecem auxílio para bandas autorais?
O festival acontecerá na rua, melhor lugar para expressar as artes. Ali próximo ao metrô Sé, no Largo São Francisco, existe um espaço muito bom que é a Praça Ouvidor Pacheco, que já tem um tablado perfeito para usar como palco e é um lugar bem amplo, dá pra muitas pessoas circularem livremente. Sim, a maioria das casas em SP oferecem um certo auxílio para as bandas, mas cada uma tem seu esquema: algumas dão uma porcentagem da bilheteria, algumas dão toda a bilheteria e outras (a minoria) garante o cachê fixo.
Fronte Violeta

Fronte Violeta

– Além dos shows, também vão ter outras atrações, correto?

Isso! Mantendo a ideia de ser multimídia, o Distúrbio Feminino Fest tem também a participação das meninas do Coletivo Efêmmera, uma galera talentosa que se divide por diferentes cidades para articular sobre artes visuais, cultura urbana e, claro, empoderamento feminino. No dia do eventos elas estarão grafitando telas com temas feministas e depois vamos deixar esses trabalhos expostos em casas alternativas da cidade. Além das Efêmmeras, também teremos a galera do selo Contra Boots. O trabalho que eles realizam é daqueles “simples mas geniais – como ninguém pensou nisso antes?!?!”. O selo grava e lança bootlegs de shows em fitas K7, com edição limitada, arte caprichada e esquemas de distribuição, e eles farão isso com os shows do festival, que depois se tornarão ‘obras físicas’. A ideia é registrar o evento e guardar para a posteridade.

Coletivo Effêmera

Coletivo Effêmera

– Onde o pessoal vai poder comprar estes registros?
Diretamente com os meninos do selo. A princípio vamos fazer apenas 30 cópias, sendo que 14 ficarão com as bandas (uma por integrante), 10 para mim e 6 para o selo. as minhas eu ainda não sei o que vou fazer (risos). Mas quero presentear algumas pessoas que estão me ajudando nessa.

– Quem fez a arte do flyer?
A arte foi feita pela Micha Oliveira, conhecida como Teenage Micha. Ela é artista visual e zineira no RJ e participa de coletivos feministas também. As figuras das meninas que constam na arte do festival foram feitas a mão e depois ela digitalizou.

 

Festival Distúrbio Feminino
Onde: Praça do Ouvidor – Largo São Francisco – Sé – São Paulo
Quando: 17 de outubro (sábado) das 14h às 19h
Quanto: Gratuito
Classificação livre