Violins – O retorno do hiato e a “Era do Vacilo”

Beto Cupertino - voz e guitarra Pedro Saddi - teclado Gustavo Vazquez - baixo Fred Valle - bateria

Há aproximadamente um mês, entrevistei o vocalista e compositor de uma de minhas bandas nacionais preferidas que, após quase 10 anos de hiato, lançou uma música nova. Quando o Violins anunciou em sua página do Facebook que voltara do hiato e lançaria um disco novo neste ano, no mesmo dia comentei com alguns amigos: “poucas vezes me arrisco a dizer isso, mas acredito que esse vai ser um dos melhores álbuns de 2018”.

Pouco tempo depois, saiu o line-up completo do Festival Bananada, um dos grandes festivais de música do Brasil, que aconteceu nesse mês em Goiânia – GO, cidade natal da banda e, lá estava o nome deles. Outro ponto que me deixou surpresa foi o anúncio de clipes, eles nunca foram de produzir videoclipes.

Quem não conhece a banda deve se perguntar porque me surpreendi tanto com coisas que artistas fazem o tempo todo, ainda mais em tempos onde produções audiovisuais estão em alta, onde as redes sociais são uma vitrine comum e tocar em festivais também. Mas o Violins nunca seguiu regras, sempre foram o verdadeiro Lado B. Não de uma maneira hipster e proposital, mas de forma genuína, simples, pé no chão.

Depois de conversar com o vocalista e compositor Beto Cupertino, entendi que Violins é o que é, é porque é, sem mais complicações, estratégias ou pretensões.

Hoje em dia vemos muitas bandas com excelentes apresentações, técnicas impecáveis, execução perfeita das músicas, palcos maravilhosos, discos muito bem produzidos, mas não trazem verdade nenhuma no que fazem, algumas nem mesmo na mensagem, é um teatro bem feito, sem genuinidade, não transmitem verdade alguma. Violins anda na contramão do excesso de profissionalismo das bandas atuais e ressignifica a palavra amadorismo. Faz porque ama.

Outra coisa interessante sobre a banda, é que apesar de diversos fãs fiéis espalhados por todos os cantos, a grande maioria acima de 25 anos (devido ao contexto, cronologia e tempo do último hiato), existem poucas entrevistas com eles, nenhuma após a última pausa. Eu que sempre quis ficar de frente com um dos compositores que mais me influenciaram no fim da minha adolescência e que até hoje é um dos meus favoritos da música nacional, não sabia por onde começar as perguntas. Conheci Violins em um período conturbado e aquelas letras, aquele sentimento cru expressado nas músicas repletas de existencialismo, me mostrou que eu poderia colocar beleza em qualquer coisa. Não me fizeram mudar a forma de ver algumas questões, me fizeram mudar a forma de lidar com elas. Eu lia as letras do Violins como quem lia contos, mesmo sem áudio. A forma metafórica e o realismo que Beto Cupertino utilizava para abordar coisas aparentemente complexas era genial. Então, o que eu iria perguntar para esse cara? Lembrei que alguns amigos e músicos também tinham a curiosidade de saber várias coisas que ainda não haviam sido esclarecidas pela banda. Por fim, com todas as perguntas em mãos, procurei Beto, que foi muito gentil e extremamente receptivo.

Beto diz não saber nada sobre internet e esse é um dos motivos pelos quais a banda ainda não é tão presente nas redes sociais (ainda). Comprovei a veracidade disso, porque foi uma dificuldade para que ele entendesse como funcionava uma entrevista por vídeo no Skype, mas no fim das contas, deu tudo certo e aqui está:

– A pergunta que todos querem saber: qual foi o motivo do hiato, por que tanto tempo?

Beto: Foi uma coisa natural da vida de cada um. A gente vai ficando velho, as contas chegam e desde o começo da banda eu tenho uma vida profissional que me sustenta, até porque mexer com música é só prejuízo, né (risos)? Então por essas ocupações cotidianas das pessoas da banda e até por já ter gravado muitos discos, naturalmente começamos a parar de ensaiar, fazer shows e aí ficou assim por um bom tempo. Desde 2012 que não lançávamos um disco e agora vamos lançar um neste ano. Nunca ficamos parados por tanto tempo. Mas fizemos alguns shows, poucas vezes. Fizemos há pouco tempo um show em comemoração aos 10 anos de “Tribunal Surdo” aqui em Goiânia.

– Hoje vemos muitas bandas utilizando um contexto nas letras como vocês faziam há muitos anos atrás, conteúdo com mais “tristeza”, mais carregados de conflitos, em paralelo a uma ascensão de bandas psicodélicas e positivas. A Violins e outros grupos da mesma época influenciaram muitos dos grupos de hoje com certeza. A quê você acha que se dá essa nova leva de compositores?

Beto: Sendo sincero, estou acompanhando pouco a cena musical e escutando pouca música. Não conheço muito o que está acontecendo agora, então sou muito displicente para analisar essas coisas. Mas acho que tem a ver com a própria situação social e política do país, mais acirrada, então acho que esse sentimento de frustração, de irritação, de revolta e a vontade de usar as coisas mais marginais da vida para fazer alguma representação em músicas tem a ver com os ciclos da vida, faz parte da história do lugar onde você está vivendo, isso te influencia de alguma forma e as pessoas têm mais necessidade de escrever sobre isso. Eu sinto essas coisas muito presentes na minha realidade, então falar sobre isso faz parte de uma manifestação natural minha. Talvez tenham muitas pessoas que não têm interesse em falar sobre isso, mas tem muita coisa para ser falada. Faz parte do meu cotidiano, das coisas que eu gosto de escrever e acho interessante. Mas na discografia da banda tem muita coisa muito diferente também, sobre relacionamentos, sobre paixões e amores, até coisas mais otimistas, então a banda não é só a parte politica e ‘’baixo-astral’’, varia de acordo com o que passamos enquanto pessoas.

– Me parece que a discografia do Violins realmente é um reflexo das fases dos compositores. Os últimos dois álbuns tinham algum ar mais “positivo”, Aurora Prisma soava mais romântico, Grandes Fiéis já trazia sentimentos em uma perspectiva mais amarga e conflituosa. Tribunal Surdo foi mais social e marcante para muita gente, inclusive a música ‘’Grupo de Extermínio de Aberrações’’ que causou muita polêmica na época por abordar o fascismo com uma ironia enorme, sem dizer que era uma ironia e naquele tempo não discutíamos alguns temas (racismo, homofobia, elitismo social, etc.) como hoje…

Beto: O “Tribunal Surdo” foi feito para ter essa musicalidade mais suja, falando sobre coisas meio feias, mas eu acho que ele tem uma beleza justamente nessa visão de que sempre que você denuncia alguma coisa ruim, de alguma forma você esta tentando olhar para alguma coisa melhor. Então, no fundo dele, em algum lugar, ele tem essa esperança meio suja. Esses dias estava conversando sobre as pessoas das minhas redes sociais, como muitas têm pensamentos completamente diferentes dos meus mas estão nas minhas redes sociais por causa da música, eu fico pensando porque essa música atrai uma pessoa que pensa tão diferente de mim. Por exemplo, um disco como o Tribunal Surdo. Será que a pessoa ouviu e não entendeu como uma ironia? Que eu realmente penso como diz na ‘“Grupo de Extermínio de Aberrações’’ e algumas outras? Eu lembro que quando saiu o encarte do disco, até colocamos na capa que as letras eram ficções e tudo mais, porque eu sabia que esse tipo de interpretação poderia vir. Mas lançamos porque achamos que seria importante falar das coisas que falamos e da forma que falamos lá. E que bom que existem pessoas que reconhecem tanto esse disco, se uma pessoa gostou desse disco, já justifica o motivo dele existir.

– Ainda sobre Tribunal Surdo e aproveitando para trazer algumas perguntas de outras pessoas, o Ian Black, publicitário e também grande fã da banda, perguntou qual a possibilidade de vocês terem um álbum mais conceitual e político como foi o Tribunal Surdo.

Beto: Esse disco novo tem muitas músicas que vão por essa vertente. Algumas músicas dão uma “quebrada” para não ficar muito monotemático, mas tem muitas músicas que refletem esse ambiente político. É um disco que vai ter muita ligação com os discos anteriores que também faziam esse tipo de abordagem. Então sim, ele vai mais pela linha do “Tribunal Surdo”. A diferença é que ele é mais “acessível”, musicalmente falando. As músicas vão entrar de forma mais suave aos ouvidos, o Tribunal Surdo tinha uma sonoridade mais fechada. Esse disco é fácil de entender, tem um apelo mais “pop”. É um álbum mais “palatável”, mas ainda com as letras mais agressivas, as vezes irônicas, meio na linha do Tribunal Surdo mesmo.

– Vocês não são muito ativos nas redes sociais e na internet em geral, por que?

Beto: A banda sempre foi meio das sombras. Esses dias eu estava até perguntando se tínhamos Instagram, fui procurar e não encontrei, acho que tenho que procurar saber com alguém se existe, porque eu realmente não me lembro. O site está fora do ar. A banda também estava sem ensaiar, sem tocar, acho que quando estávamos mais ativos havia um preocupação maior, faz parte também do nosso afastamento da rotina de banda que foi diluindo as “manifestações internéticas”.

– Hoje a internet vai além de “baixar musicas”, ela forma opiniões, ela comunica diretamente com quase todos os públicos. É muito difícil para uma banda atingir algum público sem ter presença na internet, principalmente com os mais jovens. Como vocês pensam em atingir essas pessoas mais novas que ainda não tiveram contato com a banda? É intencional esse “desaparecimento”? Tem quem pense que é uma estratégia para a banda continuar sendo considerada “Lado B”.

Beto: Agora nós já temos uma pagina no Facebook, mas pretendemos sim começar a atuar mais nesses canais de comunicação. Temos a consciência que hoje a internet é o maior canal e vamos revigorar tudo para inserir as novas músicas e a nova fase. Não existe nenhuma pretensão “cult” em se manter escondido, não é intencional, é na maioria das vezes pela nossa correria de vida individual mesmo, falta de tempo. Eu, por exemplo, trabalho o dia inteiro e depois vou para a faculdade. Muitas vezes não consigo me dedicar como gostaria. Ser desconhecido não traz nenhum benefício para a banda.

– Vocês anunciaram recentemente que lançariam videoclipes nesse ano. De onde veio a vontade de começar a trabalhar com audiovisual?

Beto: Temos pouco material audiovisual, clipes mesmo temos só dois. Mas também vem dessa necessidade de se fazer mais presente em outras mídias.

– E porque voltar aos palcos agora? Tem algum motivo específico?

Beto: O mesmo motivo que gerou todas as nossas manifestações: foi instintivo, não foi nada planejado. Eu achei que depois de 2012 a gente nunca mais iria gravar um disco, que já havíamos feito o suficiente. Mas recentemente me bateu uma vontade de escrever músicas e como eu sei que a banda tem uma história, falei com o pessoal que seria interessante fazer algumas coisas novas, sem nenhuma pretensão, só para fazer as músicas acontecerem. Eu acho que a parte mais legal de ter banda é ir para o estúdio gravar, compor os arranjos, gravar as vozes. Eu acho isso muito mais legal do que tocar ao vivo. Tocar ao vivo é muito ruim as vezes, algumas coisas escapam do nosso controle, ainda mais quando se trata de uma banda independente, você depende muito de outras coisas, não sabe se o palco vai ser bom, se a estrutura vai ser boa. Já a parte criativa está mais dentro do nosso controle e é a parte que mais me dá prazer em ter banda. Então dentro dessa filosofia eu procurei os meninos para gravar, o Tiago (ex-baixista) não animou muito e sugeriu colocar outra pessoa no lugar. O Gustavo Vasquez produziu nossos discos e agora esta com a gente no baixo. Eu já tinha muitas musicas feitas e algumas surgiram durante o processo, agora temos dez musicas inéditas para lançar.

– O nome “Era do Vacilo” é muito bom. De quem foi a ideia de usar essa ironia cômica no título do álbum?

Beto: Foi uma ideia minha. É um nome cômico ao mesmo tempo que é realista. Diante dos últimos tempos, das relações das pessoas na internet, da situação política no Brasil, acho que realmente estamos na “Era do Vacilo”. É um nome bem simbólico sobre a era em que o disco será lançado. A ironia sempre tem uma comicidade por trás. Tem muita coisa tragicômica por trás das musicas do Violins, até exagerando em alguma coisa para deixar ridículo. Eu acho legal utilizar essa figura de linguagem nas letras porque ela abre um leque de interpretação.

– E o álbum está previsto para sair quando?

Beto: Estamos trabalhando nele com calma, sem atropelos, para ficar exatamente como queremos, mas acredito que nesse semestre ele será lançado.

– Vocês voltaram à ativa em um período muito conturbado, socialmente e ideologicamente. Estamos em um caos social, onde todos estão divididos e existe muito extremismo, isso torna mais difícil compor e se expor, existe um risco que não existia antes. Quem viveu entre os anos 90 e 2000, se encaixa muito bem naquele trecho de Clube da Luta: “Somos uma geração sem peso na história, sem propósito ou lugar. Não tivemos uma guerra mundial, não temos uma grande depressão. Nossa guerra é espiritual, nossa depressão são nossas vidas”. Essa ausência de conflitos marcantes fez a nossa geração se tornar terrível. A geração que vem agora, consegue presenciar mais conflitos sociais, tem mais necessidade de lutar, mas ao mesmo tempo tem grandes dificuldades de se relacionar e se comunicar, não tem hábitos de leitura, nem de desenvolver um raciocínio aprofundado, escrevem em apenas 140 caracteres, se comunicam na maioria das vezes pelo WhatsApp, é tudo muito superficial. Já o Violins tem uma linguagem mais complexa, temas mais profundos e contestações sociais, então como vocês acham que será a aceitação das novas músicas perante a nova geração? Como vocês vão se posicionar liricamente e dentro dos temas abordados para atingir essas pessoas?

Beto: Eu acho que as músicas estão escritas de uma forma clara. Não tem muita complexidade em termos de letra. Contudo, cada um tem o seu jeito de escrever e eu acho que o meu não vai mudar muito. As letras desse disco vão ser mais parecidas com as do Tribunal Surdo, seja com metáforas, ironias ou narrando uma estória. Uma das músicas narra a estória de um cara que tomou uma bala perdida. É mais ou menos como o “Tribunal Surdo” fazia também.

– Você tem um pouco dessa ‘“pegada” storyteller, né?

Beto: Eu acho muito interessante isso de contar uma pequena estória dentro de uma letra. Claro que existe uma limitação muito grande porque letra de música é uma coisa muito achatada, tem que respeitar métricas e tudo mais, então as coisas são mais limitadas. Mas esse também é um desafio legal. Quando as composições se tratam de uma estória, elas têm que ser escritas de uma forma que seja muito clara, com começo, meio e fim e com a mensagem que você quer passar. Mas acho que as letras dessa vez estarão fáceis de compreender, apesar de não serem tão diretas. Elas estão dentro de toda a temática atual, claro que dentro da minha perspectiva de ver o mundo, algumas pessoas vão se identificar e outras não, mas é normal, tudo bem.

– O Ian Alves, guitarrista da Brvnks, também de Goiânia, perguntou quais as referências que você utiliza na hora de compor e se você tem alguma dica para quem quer compor bem em português.

Beto: É muito difícil falar em referências porque muitas pessoas e coisas te influenciam sempre. Existem as referências de texto, existem as referências na hora de compor uma sequência de acordes na guitarra que são diferentes das utilizadas para criar melodias. As vezes tem uma referência vocal dos Beach Boys, da década de 60, com aquele monte de vocalistas e tudo mais, mas ao mesmo tempo gosto de guitarras de rock inglês. E além disso tem as influências da minha infância, de Clube da Esquina, misturado com coisas da adolescência como Deftones (que tem uma melodia e peso que gosto também). É meio que um caleidoscópio de influências que monta uma pessoa, cada uma vai ter as suas, então acho difícil dar referências porque são minhas referências baseadas no que eu passei, estudei e aprendi, da cultura que eu cresci, essas características formam cada compositor. Provavelmente o cara que cresceu em um bairro diferente do meu vai ter outra visão do mundo e outras influências. Por isso acho muito difícil dar receitas prontas para composição, é algo muito individual. O meu método é muito caótico, não sigo uma ordem de escrever primeiro e depois compor a melodia, geralmente faço os dois ao mesmo tempo, mas isso também não funciona para todos.

– Ele também perguntou se você tem alguma influencia de Sunny Day Real Estate, porque viu que você tem até tatuagem da banda.

Beto: Muitos discos do final da década de 90 me influenciaram bastante, dentro das bandas americanas que eu gosto muito está o Sunny Day Real Estate, com certeza me influenciou muito, principalmente no inicio da Violins.

– E quais outras bandas ou artistas que o Violins tem como referência? Porque sempre tenho dificuldade para classificar a banda em algum gênero ou descrevê-la. Você também tem essa dificuldade?

Beto: Eu considero uma banda de rock e pra mim isso é o suficiente. Mas se precisar detalhar eu também tenho dificuldade em dizer, até porque eu não domino muito essas “classificações”. Então somos uma banda de rock, ou rock independente, as vezes “rock alternativo” por ser mais elaborado, ou mais melódico, ou mais difícil de compreender. Sendo só de rock pra mim tá legal. Posso citar algumas bandas como o Radiohead, os primeiros álbuns deles dos anos 90 me influenciaram bastante, o próprio Sunny Day Real Estate e as bandas chamadas de “emo” na década de 90. Também gosto muito de rock inglês, ouvi muito Beatles e Pink Floyd na infância. E gosto muito de música pop, escuto muito.

– O Douglas Carlos, da Sick, banda de rock instrumental experimental do Triângulo Mineiro (banda ótima por sinal e que recomendo bastante), perguntou como você se sente ao ver algumas composições antigas, se tem alguma que você se arrepende, ou que não faz mais sentido nenhum e se tem alguma que hoje faz mais sentido ainda.

Beto: Olha… tem muita coisa que eu escrevi que eu não gosto mais hoje em dia, que eu não faria novamente. Tem coisas do Aurora Prisma mesmo que hoje não gosto mais em termos de letra (vou falar só do disco e não da musica, tá? risos). Mas também tem esse lado de escutar coisas antigas que hoje fazem muito mais sentido do que na época, acontece isso às vezes. O legal da musica é isso. A partir do momento que você grava uma música e ela fica eternizada, ela passa pelo tempo e a interpretação sobre ela também muda. Por isso é bom escrever coisas mais abstratas, porque elas permitem interpretações diferentes que você pode sempre revisitar de formas diferentes.

– Vocês vão tocar no Festival Bananada, que além de ser um dos maiores festivais de música alternativa do Brasil, acontece na cidade de vocês. Muitos consideram essa apresentação como o grande retorno da banda. Vocês também enxergam dessa forma? Qual a expectativa para esse show?

Beto: Tocar no Bananada é massa demais, a gente toca no festival desde o começo dos anos 2000 quando começou a crescer esses festivais aqui em Goiânia, junto Goiânia Noise, depois o Vaca Amarela, mas esses dois festivais, o Bananada e o Goiânia Noise são muito tradicionais, o Bananada tem 20 anos. A gente ficou por um tempo sem tocar nesses festivais mas nesse ano estamos muito animados, principalmente porque vamos tocar as músicas novas pela primeira vez ao vivo, a gente ainda nem ensaiou essas músicas juntos com a nova formação da banda. A gente foi construindo as músicas no estúdio, então eu nunca toquei elas com o Gustavo na banda, por exemplo. Então pra nós vai ser uma coisa nova, porque nunca tivemos isso na nossa história. Sempre que a gente ia gravar um disco, já tínhamos ensaiado pra caramba, aí entrava no estúdio e gravava, mas dessa vez não, fomos meio que fazendo as músicas separadamente, juntou tudo e gravou. Ficou muito legal, foi muito bom esse processo porque as músicas ainda são muito novas pra gente, então não tem aquele sentimento de tocar ao vivo e já estar cansado da música, no nosso caso ainda nem ensaiamos, inclusive temos que fazer isso logo porque o show está perto, mas vamos tentar ensaiar pelo menos uma semana antes pra não passar muita vergonha (risos). Mas vai ser ótimo, é um público grande, uma oportunidade boa pra divulgar as músicas novas.

– Você sabe quem tem pessoas que vão ao festival só para ver vocês tocarem, certo?

Beto: Uma pessoa me falou no Facebook esses dias que sairia do Rio de Janeiro só para ver o nosso show no Bananada. Toda vez que tocamos em algum lugar e alguém me diz que viajou só para ver a gente tocando, pra mim é o auge de realização de uma pessoa que faz música, quando alguém vem te falar que saiu da cidade dela só para ver o show da sua banda, pra mim é a coisa mais foda que pode acontecer. Na primeira vez que isso aconteceu comigo eu não acreditei, eu achei que a pessoa estava tirando onda com a minha cara, foi difícil acreditar que era verdade. A gente toca na maioria das vezes em capitais, então quando a gente vai tocar em Belo Horizonte por exemplo, tem muitas pessoas das cidades próximas que vão, até pessoas de São Paulo, isso é muito mais do que a gente pensou quando começou a banda, lá em 2001, no quartinho da minha casa. Na época a gente queria ter uma chance de tocar no Goiânia Noise apenas, era o nosso “auge”, então isso pra mim é uma realização como compositor. Ter uma pessoa que viaja pra te ver tocar é uma coisa muito foda.

– E vai acontecer turnê nova com o disco novo?

Beto: O problema de fazer shows é a agenda de cada um, aí já fica uma complicação, a gente não tem essa flexibilidade de horários nas nossas vidas profissionais pra ficar uma semana viajando. Então não tem como fazer turnê porque não tem como ficar vários dias fora, cada um tem um trabalho fixo aqui e dependemos deles. Os shows que fazemos geralmente são em fins de semana, bate e volta, não conseguimos emendar dias e dias de show. Fazemos um show pontual aqui ou ali mas não vai acontecer uma sequência enorme de apresentações porque não temos condições mesmo de fazer isso por inúmeros fatores. Mas claro que pretendemos tocar várias vezes e em vários lugares para divulgar o disco.

– Ok, mas suponhamos que apareçam boas oportunidades, o álbum estoura, vira um sucesso, aparecem várias propostas, inclusive financeiras, e aí? Vocês estão preparados pra isso?

Beto:  Eu não tenho isso como objetivo. Se isso acontecer provavelmente eu vou negar.

– É sério? Você negaria?

Beto: Eu não tenho nenhuma vontade de viver só ganhando dinheiro com shows e música. Minha vida já está construída em outra carreira, eu não trocaria o que eu tenho hoje pra ficar vivendo com um pouquinho só para fazer música, eu não consigo. Eu me cansaria de ter que viajar e tocar toda hora, eu não gosto desse ritmo, sou muito caseiro, não é pra mim esse tipo de coisa. Eu já considero que eu vivo de música justamente porque eu não dependo dela para pagar minhas contas, então eu posso realmente viver o que eu quiser na música porque eu não dependo dela, essa liberdade pra mim é muito legal.

– Algumas bandas que surgiram na mesma época que vocês estão voltando aos palcos também, isso é muito interessante. E ainda dentro desse tema, o Luden Viana da banda E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante perguntou como vocês conseguiram permanecer ativos durante tanto tempo, tendo em vista que a banda chegou a acabar e voltou devido a pedidos do público na época do Orkut. Como é ser uma das poucas bandas independentes remanescentes do começo dos anos 2000?

Beto: Eu acho que houve um ciclo. Acho que muitas bandas dessa época ficaram muito presas dentro do que estávamos falando, do objetivo de ter que fazer a banda “virar alguma coisa”. Houve uma euforia no começo dos anos 2000, muita coisa sendo construída, as bandas independentes começaram a tocar nas rádios, mais estrutura para as bandas, festivais rolando no Brasil inteiro, mas aí as pessoas viram que dali pra frente não caminharia muito mais e eu acho que isso gerou uma ressaca em muitas bandas, que inclusive desapareceram nessa época. Eu acho muito bom que os integrantes das bandas que estão voltando agora tenham amadurecido enquanto pessoas e estão voltando a fazer música de uma forma despretenciosa (no sentido do “profissionalismo” da banda), fazendo as coisas por amadorismo no sentido de fazer porque ama, no bom sentido da palavra amador. E isso não significa fazer mal-feito e sim fazer com carinho, porque gosta, com um sentimento legal, sem aquela pressão de ter que fazer a banda ser isso ou aquilo. Essa pressão acaba com a banda, acaba com a credibilidade dos artistas, acaba com a espontaneidade da música. E alguns dos integrantes das bandas que passaram por essa ressaca agora já estão mais decididos na vida pessoal mesmo e decidiram voltar a ter banda porque gostam de tocar juntos, gostam de gravar, gostam de fazer shows e se só 10 pessoas ouvirem e gostarem, foda-se. O importante é fazer parte disso e é isso que vale.

– Depois de conversar com você, percebe-se que realmente vocês tem pouca noção do simbolismo que o Violins tem para muita gente e a influência que é para muitas outras bandas, é interessante ver essa forma verdadeira e despretensiosa de levar a banda e o que vocês fazem.

Beto: Talvez eu não tenha essa noção, mas eu fico muito feliz de imaginar que possa acontecer isso, de achar que tem quem nos tenha como referência. Esses dias eu estava lendo uma entrevista com uma banda aqui de Goiânia, o Components, e eles estavam citando o Violins como influência e eu pensei como isso é legal, ter uma banda que influenciou uma outra banda, um músico ou uma pessoa na vida mesmo, que foi tocada por aquilo. Isso é o mais legal de fazer música, essa conexão que é gerada com as pessoas, pessoas que vêm conversar com você e parece que você conhece há muitos anos porque vocês estão conectados à música, pela frequência das músicas que as pessoas têm em comum. Eu tenho amigos no Brasil inteiro por causa da banda, isso é uma das coisas que move muito essa missão de fazer música.

– Pra finalizar, eu sempre coloco Violins como uma das minhas bandas nacionais favoritas e muitas pessoas me pedem pra apresentar a banda, sugerir músicas ou algum álbum e eu geralmente não sei o que fazer porque os discos são muito diferentes, as músicas também. Eu tenho as minhas preferidas mas entendo que podem não agradar tanto quem nunca escutou a banda. Se você tivesse que separar algumas músicas para quem nunca ouviu Violins conhecer a banda, quais músicas ou álbum você sugere?

Beto: Nossa, isso é muito difícil, difícil demais! Acho que o disco que eu mais apresento para as pessoas que eu vejo que não são de ouvir música independente, mais do senso comum da música, de ouvir rádio, que não são muito pesquisadoras, é o Direito de Ser Nada”, tem o clipe de “Rumo de Tudo”, então eu acho que é uma boa para começar a conhecer a banda de uma forma mais acessível.

– Mas sem falar apenas de acessibilidade, mais para dizer “isso aqui é Violins, isso é o que o Violins quer transmitir”.

Beto: Tem algumas músicas que são representativas de cada disco. Do Greve Das Navalhas” tem “Tsunami” e “Do Tempo”, de Grandes Infiéis” tem “Atriz” e “Glória”, do “Tribunal Surdo” tem “Anti-Herói Pt. 1″ e “Manicômio”… essas músicas são as que geralmente nos pedem para tocar nos shows. Do Redenção dos Corpos” tem “Entre o Céu e o Inferno”, “Festa Universal da Queda”

– Desculpa interromper, mas é que “Redenção dos Corpos” é um dos meus álbuns preferidos da vida e “Entre o Céu e o Inferno” é uma das minhas favoritas da banda. Esse álbum me pegou justamente num período de conflitos espirituais e existenciais também, na linha entre a fé e as questões humanas individuais, esse álbum aborda muito isso, então tem um lugar importante pra mim. Eu precisava falar sobre ele!

Beto: É bom demais ouvir isso porque é um disco que eu tenho um grande carinho por ele, foi muito legal de fazer, gosto das músicas, das letras. É que tem discos que eu escuto e me dá uma certa vergonha, sabe? Eu penso: “Ah! Nunca mais quero ouvir esse disco na minha vida”. Mas o “Redenção dos Corpos” não, é um disco que eu ouço e penso que não fiz muita cagada ali. Ele é um disco que tem um cunho pessoal grande porque ele traz o questionamento existencial. Na minha casa eu fui o único que não fez primeira comunhão, eu sempre tive o questionamento de nunca conseguir me entregar a uma religião, a um corpo fechado de dogmas, sempre tem uma coisa ou outra que eu não consigo aceitar, tem coisas que eu concordo mas eu nunca consegui dar aquele salto de fé necessário, então eu sempre me vi nessa condição vulnerável de pesquisador e investigador. Eu não tenho religião mas não sou totalmente despido de religiosidade. Eu não consigo explicar todas as questões, fico na condição de ficar só com a pergunta.

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Enquanto eu transcrevia o áudio da entrevista, foi divulgada a primeira musica do álbum “Era do Vacilo”: “Herói Fabricado”. Foi lançada em formato de videoclipe, praticamente um “lyric video”, objetivo, bem feito, com simbologias sutis e com o foco naquilo que talvez seja o ponto mais forte da banda: a lírica e a mensagem. Não precisava de mais.

“Herói Fabricado”, a priori, parecia somente uma crítica aos ícones conservadores que supostamente podem salvar a pátria, mas foi além, é um questionamento para todos. Ataca, inclusive, as tentativas de amenizar os conflitos sociais entre oprimido e opressor. Sem falso moralismo, sem idealismos pacifistas utópicos. Violins trouxe com essa música o lado social de Tribunal Surdo com a sutilidade de Redenção dos Corpos, que, pra mim, são os dois melhores álbuns da banda. A opção de fazer um clipe com foco na lírica foi brilhante. Violins é para escutar com o encarte do disco em mãos, acompanhando as letras, absorvendo e tentando digerir aos poucos cada palavra, cada entrelinha, toda a semântica. O instrumental traduz perfeitamente o sentimento de cada trecho, te faz sentir o que deve ser sentido em cada parte da mensagem. Com mais peso que a maioria das canções dos dois últimos álbuns, Herói Fabricado nos deixa na expectativa de mais um álbum marcante, mais dias escutando as mesmas musicas com afinco, em uma agradável e lenta digestão.
Que venha “Era do Vacilo”.


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