Duo Oui Madame prepara novo disco sobre empoderamento feminino, diversidade sexual, intolerância e amor (como não falar de amor?)

Duo Oui Madame prepara novo disco sobre empoderamento feminino, diversidade sexual, intolerância e amor (como não falar de amor?)

11 de julho de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Em seu laboratório musical não tão secreto conhecido como Estúdio Oui Madame, Catarina Bris e Sandra Gamon preparam desde 2009 a química sonora do duo Oui Madame, oscilando entre o orgânico e o eletrônico e passeando pelo rock, eletro e pop, sempre colocando como tema o empoderamento feminino, a intolerância, o preconceito, a diversidade. E o amor. Como não falar de amor?

A banda conta com dois discos, “Elétrica”, de 2011, produzido em parceria com Rodrigo Trevisan e masterizado no Abbey Road Studios de Londres, e “Inflamável”, de 2013, também produzido com a mesma parceria e masterizado no Sterling Sound, em Nova York. Atualmente, a dupla prepara seu terceiro disco, sempre lançando um olhar feminino sobre o mundo contemporâneo e suas impressões sobre tudo o que acontece com simplicidade e diversão.

Conversei com a dupla sobre sua carreira, a vida de artista independente e o trabalho que vem por aí:

– Como a banda começou?

A banda começou em 2009 de maneira bastante casual, numa reunião regada a cerveja, violão, Ozone e um Mac Book. Temos formações e trabalhos bastante diferentes, mas logo que nos conhecemos começamos a escrever música, A princípio não tínhamos nenhuma pretensão, só um prazer, destes cada vez mais raros, de fazer alguma coisa pelo simples fato de gostar dela. Concordamos em muitas coisas, temos uma visão da vida muito parecida, as coisas foram evoluindo naturalmente e resolvemos lançar nosso primeiro disco, o “Elétrica”, que é praticamente um disco demo. Apesar de termos composições em francês e inglês resolvemos focar em nosso idioma, que tem uma complexidade inerente.

– Me falem um pouco mais sobre “Inflamável”. Como foi a produção do disco? Qual a inspiração para as músicas?

Nos inspiramos em tudo que está acontecendo em nossa volta, nossas letras tem um pouco de ironia e sarcasmo, já que são tantas coisas incongruentes no mundo, que muitas vezes seria agressivo abordar os temas diretamente. Falamos do empoderamento da mulher, da questão da diversidade sexual, da intolerância, da ganância e também do amor (como não falar de amor?). Com relação à produção, fizemos em conjunto com o Rodrigo Trevisan e cada vez mais com aprendizado e bastante trabalho conseguimos deixar as músicas do jeito que imaginamos. Nós gostamos muito de Inflamável, temos orgulho do disco.

– E qual a diferença dele para “Elétrica”, o primeiro lançamento de vocês?

“Elétrica” foi totalmente produzido por Rodrigo Trevisan, nosso amigo e parceiro. É um disco que consideramos mais como uma demo da banda. Estávamos pela primeira vez colocando nossas composições dentro de um conceito, encontrando timbres e definindo instrumentos. Em Inflamável nós produzimos o disco junto com o Rodrigo, tudo está mais claro, mais preciso, tem mais a nossa cara. O fato é que estamos sempre em constante mutação, somos atingidos por milhares de sons diferentes diariamente, milhares de mensagens, histórias e situações, temos certeza que nunca um disco vai ser igual ao outro, mas o fato de nós mesmas fazermos todo o processo, desde escrever as letras, melodias até a produção do disco, garante sempre um trabalho único com uma identidade só nossa. Nosso próximo disco está em processo de masterização, e foi inteiramento produzido por nós, e está incrível (modéstia à parte). E convidamos o Rodrigo para gravar algumas guitarras, afinal, amamos o jeito que ele toca. Ele conhece muito de música e temos gostos parecidos, inclusive. Esta sintonia é muito importante para compor bem um disco.

– Quais as principais influências musicais de vocês?

É sempre difícil colocar sensações em palavras, mas podemos citar aqui bandas e artistas que as duas gostam muito mesmo: Rita Lee, Caetano, Gil, Marisa Monte, MarinaHot Chip, Franz Ferdinand, Arcade Fire, Blondie, Depeche Mode

Oui Madame

– Porque o formato duo é tão popular na música hoje em dia?

Acreditamos que por questões financeiras. É difícil fazer música, custa caro. No nosso caso, nunca passou por aí, estamos em sincronia nos gostos e temas e acreditamos que isso seja o mais importante. Qualquer um que gosta mesmo de música e já assistiu documentários que mostram a dinâmica de bandas com muitos integrantes sabe como é difícil manter a coesão de pensamentos, sentimentos e entendimento do mundo ao longo dos anos. Como música envolve sentimento e muita exposição, é preciso ter muita vontade e sintonia pra construir um trabalho, você com certeza vai se decepcionar muito, mas tem que superar e olhar sempre pra frente.

– Me explique um pouco melhor essa mistura entre o orgânico e o eletrônico da banda.

Nossas composições surgem no violão, logo depois montamos as bases para as músicas e como gostamos muito de música eletrônica, sempre quisemos trazer isto para a banda. Usamos batidas eletrônicas e sintetizadores além de guitarra, baixo e os vocais. É uma mistura que requer cuidado, pois não queremos dar o protagonismo para nenhum instrumento e sim para o resultado final, então cada música é diferente, tem seu universo próprio.

– Como vocês definiriam o som da banda?

Nosso som tende a ser sempre mais dançante é o resultado de uma admiração pela disco music, um amor incondicional pelos anos 80, uma tendência a chorar com solos de guitarra melódicos como os do George Harrison, um flash back das batidas de uma balada tecno e uma paixão pelo rock. Tudo isso impresso em papel de carta, com sentimentos exacerbados misturando a nostalgia da máquina de datilografar e nossa tão marcante era digital.

– Como é ser uma banda independente no Brasil hoje em dia?

A tecnologia permite uma produção mais individual, o que nos dá liberdade de expressão e produção. Já com relação a divulgação é difícil, sentimos que o mercado ainda estereotipa as bandas e que a grande mídia domina totalmente o cenário. O investimento manda muito nesta hora e nos limitamos muitas vezes por conta dele. Mas o mundo é grande, cheio de possibilidades e é possível atravessar as barreiras. Nós acreditamos em um trabalho a longo prazo e nossas expectativas são de lançar ainda muitos discos. O que fazemos é controlar a ansiedade, nos divertindo com o processo musical que é incrível, mesmo sabendo que ainda pouca gente efetivamente tenha parado pra ouvir nosso som. Este ano estamos montando um estúdio novo, um espaço maior e vai ser mais legal ainda trabalhar no novo Estúdio Oui Madame.

Oui Madame

– Quais os próximos passos da Oui Madame em 2016?

Este ano vamos lançar o terceiro disco, toda nossa energia está focada neste processo. Estamos ensaiando há quase 1 ano, estamos mais coesas ao vivo e nas novas composições. Vamos dar mais este passo, com os dois pés direitos e muito amor no coração.

– Recomendem bandas e artistas (especialmente se forem independentes) que chamaram suas atenções nos últimos tempos.

Gostamos da Céu e Tulipa Ruiz, artistas já mais consolidadas no cenário. Também podemos citar Liniker, Far From Alaska, Aeromoças e Tenistas Russas, Sobre Amor e Outras Coisas… Tem muito artista bom no cenário independente, bons compositores, músicos e produtores. O que falta é mais espaço. Já melhorou muito, mas ainda falta.