O duo Los Chicos Problema, do México, mostra toda a sujeira de que seu baixo fuzz é capaz

O duo Los Chicos Problema, do México, mostra toda a sujeira de que seu baixo fuzz é capaz

31 de julho de 2015 2 Por João Pedro Ramos

Quem foi que disse que rock precisa de guitarra? Los Chicos Problema, do México, estão aí para provar que apenas com uma bateria e um belo baixo cheio de fuzz dá pra criar garage rock de qualidade cheio de gritos e distorção.

Ana (bateria e voz) e Geo (baixo fuzz e voz) estão na ativa desde 2011. A dupla dinâmica abusa do barulho e já passou pelo Brasil em uma turnê em 2013, chegando a passar pela “rua do rock”, a Rua Augusta. Com dois discos na bagagem (“Los Chicos Problema”, de 2012, e “Estremécete y Rueda”, de 2013), o duo planeja o terceiro registro e um viagem à Espanha em 2016, onde tocarão e pretendem adquirir um pouco do conhecimento com a forte cena rocker do underground que se estabeleceu lá.

Conversei com Ana e Geo sobre seu som, o rock latino e as agruras de ser uma banda independente:

– Como a banda começou?

Nós estávamos tocando em outras bandas e nos conhecíamos nos shows que tínhamos juntos. Nós deixamos as outras bandas pra fazer todas as coisas que queríamos neste projeto. A banda realmente começou quando éramos apenas dois de nós neste projeto, ao começo nas primeiras duas semanas de formação  tínhamos um guitarrista, mas desapareceu, foi raptado e na verdade, não gostava do gênero… Por isso, a decisão dos dois foi permanecer assim, sem colocar ninguém para a banda, porque cremos de que há uma maldição que se alguém deixa uma banda, sempre deixará um espaço lá. Tivemos uma grande química entre os dois, por isso, ficamos como um duo de baixo-fuzz , tambores, pandeiros e gritos, agora estamos experimentando com teclado farfisa, é um jogo de instrumentos…

https://www.youtube.com/watch?v=PLCLdEDF1Mk

– Quais são as principais influências musicais da banda?

Nós gostamos do garage rock dos anos 60, grupos como Los Monjes , Los Ovnis, Los Yaki , Los Spiders , 13th Floor Elevators , The Yardbirds, Los Saicos, The Sonics. Na verdade não podemos negar a nossa energia mais “gritona”- músicas com letras diretas, com ritmos básicos, mais perto do garage punk revival dos anos 80: influências de The Gories , The Fleshtones, The Pandoras, The Makers, The Brood, The Cramps, The Trashwomen, Billy Childish e seus milhares de projetos, também saindo um pouco do garage nós também temos influência dos B-52’s, e outras influências atuais: Wau y los Arrrghs, The Vooduo, Black Lips, The Monsters.

Los Chicos Problema, do México

– Como é o processo de composição de vocês?

Começamos com um “riff” (muitas vezes gravado no telefone com a voz de um dos dois , já que não estamos em casa, então nós podemos trabalhar e pensar em algo) e já em casa mostramos o áudio e começamos trabalhar na ideia. Perguntamos “o que você acha disso, o que você sente com este som?”, daí vemos os ganchos da canção, a letra, geralmente nós gostamos de fazê-lo nos fins de semana com alguns -shots- de tequila !

– Vocês já fizeram capas para algum de seus discos?

Felizmente! Nós queríamos fazer uma capa para um disco e conseguimos na coletânea que produzimos, graças a um esboço que mandamos e à ilustração de Mario Labate. Se fizermos outra capa no futuro, seria disfarçados como Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau , brincar com o conceito do duo e fazer sátiras de nós mesmos.

– Existe uma certa resistência do Brasil em ouvir rock que não seja em português. Porque vocês acham que isso ocorre?

Honestamente não sabemos do assunto. A única experiência que tivemos com relação ao Brasil foi quando viajamos para aí e vimos que assim como existem muitos fãs de The Cramps , há muitas pessoas que gostam de punk, mas acima de tudo há muitos fãs de rock de metal . E não somente em um idioma: nós acreditamos que a globalização abriu as portas para tudo em questão de intercâmbio cultural, a prova é que agora estamos respondendo uma entrevista em português para outro país!

– Quais bandas latinas vocês acham que os brasileiros deviam conhecer?

Vamos recomendar aos nossos amigos e como a amizade nasce da admiração… Seria ótimo que ouvissem Los Magníficos (garage surf), Los Sex Sex Sex (punk) , The Kitsch (garage), The Sucks (garage), Viv e The Sect (garage) e se não conhecem Los Monjes, Los Yaki e Los Ovnis, seria o momento de escutá-los!

– Vocês podem me falar um pouco da discografia da banda?

Em 2012 estávamos doidos e fizemos uma coletânea de duos de garage, formada por 4 bandas de diferentes países: Espanha, Brasil, Colômbia e México. O Frankenstein foi chamado de “Peligrosos y Ruiduosos”, um vinil de 7″ editado pelo selo mexicano Veneno Records. Nós fizemos um álbum completo chamado “Estremécete y Rueda”, também editado pela Veneno Records, e sentimos a necessidade de ir e aprender com outras cenas em outros países. Nós levamos esse disco para um turnê no Brasil em 2013. “Muito Daora” foi um EP gravado em Maringá, no Brasil, o temos no Bandcamp e saiu no Record Store Day de 2014, é encontrado apenas digitalmente. Em 2015 participamos na coletânea “Hits com Tits . Vol 2” da Espanha, com uma música inédita. Ela foi lançada em formato vinil de 12″ com 20 bandas com membros do sexo feminino.

Los Chicos Problema, do México

– Quais são as maiores dificuldades de ser uma banda independente?

As maiores dificuldades de ser uma banda independente é manter uma vida equilibrada, onde você tenha tempo para fazer tudo. É extremamente difícil encontrar um meio termo entre a nossa profissão e música, trabalhamos diariamente mais de oito horas, no entanto, ambos são igualmente importantes para nós, e se não trabalhamos, não temos dinheiro e, portanto, não podemos pagar o transporte para tocar ou não temos pra comprar cordas para baixo ou fazer CDs, K7s ou vinis . Adoraríamos só tocar e fazer o que gostamos, mas é complicado aqui no México: os lugares não pagam nada e você tem que organizar o show e se você quiser convidar uma banda tem que pagá-la. Para apoiar outras bandas, não é recíproco, aqui não há uma unidade, cada pessoa olha para si mesmo e tudo é conseguido através de contato ou por falar bem pra alguém. É um pouco hipócrita, nós preferimos tocar para nós por nossos próprios caprichos e se alguém gosta é um “plus” que faz que fiquemos ainda mais felizes, mas não procuramos a aceitação de nada nem de ninguém. A verdade é que ser uma banda independente é essencialmente puro amor por tocar em um país que não valoriza o músico. Mas isso não impede que nós tenhamos a vontade de ir a todos os lugares do mundo pra tocar e fazer muito barulho!

– Quais são os próximos passos de Los Chicos Problema?

Gravar e produzir um 12″, depois vamos mudar para a Espanha em fevereiro de 2016. Vamos Estudar e tocar em outros festivais e aprender com as bandas independentes lá. Queremos fazer um selo… Temos muitos planos, muita vontade de nos aventurar no desconhecido!