Duo Antiprisma mostra seus mantras folk rústicos em “Planos Para Esta Encarnação”

Duo Antiprisma mostra seus mantras folk rústicos em “Planos Para Esta Encarnação”

17 de outubro de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Criada em 2013 em São Paulo, a dupla Antiprisma, formada por Elisa Moreira e Victor José nos violões e vocais, faz um som folk rock que bebe diretamente de fontes como The Byrds, Kurt Vile, Milton Nascimento, Syd Barrett, mantras indianos e até modas de viola de Vieira e Vieirinha e Tião Carreiro. O resultado é um som cheio de personalidade que passeia entre o lirismo e a experimentação com sonoridades diferenciadas, evitando cair na armadilha da mesmice que o estilo pode criar.

Em abril de 2014 o duo lançou seu primeiro EP, “Antiprisma”, produzido por Filipe C e lançado pelo selo Mono.Tune Records, e neste ano saiu seu primeiro álbum, “Planos Para Esta Encarnação”, produzido por Diego Oliveira e lançado pela M4Music. O disco conta com 10 faixas e tem a participação de Nicole Patrício, da Alambradas, tocando piano em duas faixas.

Conversei com Elisa e Victor sobre “Planos Para Esta Encarnação”, a retomada do folk, suas diversas influências e como a cena independente pode crescer no Brasil:

– Como a banda começou?

Victor: A gente deu o primeiro passo em meados de abril de 2013. Tínhamos uma banda com mais quatro membros chamada Carrancazu, que se desfez mais ou menos nessa época. Foi quando nós começamos a pensar em simplificar as coisas e tocar só de dois. Banda é muito difícil de administrar! Então durante um ano mais ou menos a gente ficou ensaiando um na casa do outro, compondo e tentando encontrar um som que soasse bem e que não ficasse tão carente de bateria e essas coisas. Experimentamos muito nesse período, e acabou dando nisso. O fato de o nosso som ser acústico é puro acaso, mesmo. Gravamos algumas faixas em casa mesmo, bem rústico, e acabamos entrando numa coletânea chamada “Lição de Casa”, em que você tinha algumas faixas de artistas que estavam no mesmo patamar da gente, todas as gravações eram caseiras, sem produção de alguém de fora. E foi aí que o Filipe Consolini, dono do selo Mono.Tune Records nos achou e nos propôs gravar um EP.

Elisa: A Alambradas (Nicole Patrício, talvez você conheça) também foi “descoberta” nessa coletânea.

– Me fala mais sobre esse EP que saiu pela Mono Tune.

Elisa: Nós e o Filipe C., que produziu o EP, conversamos bastante sobre referências e sobre o que queríamos no nosso som, e ele sacou direitinho onde a gente queria chegar com as músicas. Gravamos 4 músicas e uma versão de “Waterfall”, dos Stones Roses. Também fizemos um clipe para o single, “Você Imagina Demais”. O EP foi lançado em abril de 2014. O EP também está nas plataformas de streaming e disponível para download no site http://monotunerecords.com/

Victor: Desde então, muita gente identifica nosso som como algo psicodélico misturado com essa vibe acústica, meio regional, o que nos agrada bastante. O EP foi bem, saímos em algumas listas dos melhores lançamento de 2014 e ainda hoje nos procuram para falar sobre aquelas músicas, o que pra nós é uma surpresa. Temos muito carinho por aquele EP.

– Me falem um pouco mais sobre o disco “Planos Para Esta Encarnação”!

Victor: O álbum foi produzido por Diego Oliveira, que também toca com seu projeto Benjamin. O disco tem dez faixas, com todos os instrumentos executados por nós, menos o piano de “O Chão É Deus” e “Das Coisas”, que foi a Nicole Patrício (Alambradas) quem tocou lindamente. Nesse disco a gente procurou fazer algo bem melodioso, priorizando as harmonias vocais, e oferecendo algo a mais que apenas voz e violão. Por isso mesmo a gente buscou uma certa sutileza de experimentação nos arranjos. Então você ouve uns ruídos estranhos numa música, um violão com arco em outra, clarinete, solo de guitarra ao contrário, uma mochila que usamos como bumbo (e funcionou absurdamente bem), diálogos do filme “Easy Rider”… Acho que isso meio de deixou o disco com uma cara de folk, mas um caminho aberto pra nos aventurarmos em outras vertentes no futuro, se a gente se interessar. Vale destacar o uso da viola caipira em três composições, “Ainda Há Muita Sorte”, “Das Coisas” e “Sermão”… O disco levou cerca de um ano pra ser concluído, então tivemos muito tempo pra viajar nas ideias de arranjo e tudo mais, então no meio desse processo a gente inseriu a viola caipira, e me apaixonei por aquele som todo rusticão! A gente realmente discutiu muito sobre o modo que o álbum deveria soar, por isso teve esse enfoque nos arranjos. Mas o legal disso tudo é que todas as faixas funcionam ao vivo, quando a gente toca só com violão viola e voz. Então deu tudo certo no fim das contas. O disco saiu pelo selo M4Music, e já tem em todas as plataformas digitais.

– E de onde surgiu o nome “Antiprisma”?

Elisa: Nós ficamos várias e várias semanas pensando em um nome para o projeto. Já estávamos ficando exaustos de pensar em nomes (risos). Aí um dia um amigo nosso sugeriu “Antiprisma” a gente gostou logo de cara, e ficou.

Victor: Não ia dar pra ficar José & Moreira ou Elisa & Victor… É muito difícil pensar em nome pra dupla!

Elisa: Sim… tudo fica com cara de dupla sertaneja.

Antiprisma

– Porque optaram pelo folk? (Ou não optaram?)

Victor: Na verdade, não optamos por nenhum gênero. A gente gosta muito de folk rock e folk mais tradicional, tipo Vashti Bunyan, Simon & Garfunkel, Fairport Convention, Incredible String Band, Love, The Byrds… Isso acabou incorporando demais no nosso som. Até o momento, nossas composições acabaram casando bem com violões em predominância, e o engraçado é que quando começamos nem imaginávamos que tinha tanta gente fazendo um som mais puxado pro folk. Foi uma supresa, mesmo. A gente se sente completamente livre pra mudar nossa sonoridade quando a gente quiser, e acho isso um alívio. Tanto o álbum quanto o EP apontam para isso de vez em quando, em faixas como “Êxodo”, “O Chão É Deus” ou “Chuva Índigo”.

– E porque vocês acham que o folk ganhou novo fôlego nos últimos tempos, com novas bandas e artistas fazendo sucesso em todo o mundo?

Elisa: Difícil saber por quê… Apesar de que muita gente que nós acabamos conhecendo nesse mundo de “folk” também começou projetos acústicos por estarem meio cansados do formato tradicional de banda pra tocar, se apresentar e tal. Talvez tenha a ver também com uma vontade (consciente ou não) de simplificar as coisas, em termos de volume de recursos e de sons nas músicas… o que eu acho muito válido, já que as nossas vidas andam tão frenéticas e caóticas, talvez por isso esse som mais natural e orgânico tenha atraído mais pessoas nos últimos tempos… sei lá, apenas um palpite.

– Quais são suas principais influências musicais, além das já citadas?

Victor: Vixe, vejamos… Pink Floyd, Sonic Youth, Grateful Dead, Milton Nascimento, Kurt Vile, Jefferson Airplane, Beatles, John Fahey… Muita coisa a gente fuça, meio que estudando mesmo, e a gente absorve, tipo música da Índia, mantras e coisas com viola caipira, como Vieira e Vieirinha, Tião Carreiro.

– Como vocês veem a vida de artista independente hoje em dia?

Elisa: Pelo que a gente vem percebido, o artista independente hoje está bem independente mesmo, no sentido de que hoje em dia é possível você gravar, fazer shows e organizar festivais e até atrair um público por conta própria ou por meio de coletivos e tal. O único problema é que tem bastante coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que acaba deixando as “cenas” muito restritas e dispersas entre si, então fica muito, muito difícil um artista se consolidar e se manter… Sem contar que hoje em dia, por causa da internet talvez, a maioria do público (e eu mesma me incluo nisso) não vai mais aos eventos com a intenção de conhecer novas bandas e ver o que está acontecendo por aí, como acontecia um tempinho atrás. Isso é um problema para as bandas e até para as casas de shows, em que a maioria dos eventos ficam vazios ou raramente têm público o suficiente para valer a pena realmente se manter por mais tempo… Então eu acho que o mundo independente está tendo que aprender a lidar com novas realidades

– Ou seja, é uma bola de neve: o público não vai, as casas param de aceitar bandas autorais, já que o público não vai, a cena fica mais difícil pra artistas independentes, sem lugar pra tocar… Como resolver isso?

Victor: Cara, isso tem que ser repensado de verdade antes que se torne algo crônico. Bastava todo mundo realmente comprar a ideia ao mesmo tempo, quero dizer a banda, público, contratante e mídia. E uma coisa muito importante é a cena independente entender que não pode haver “panelinhas” em qualquer circunstância. Todo mundo depende de todo mundo nesse meio. Isso é uma coisa muito boa a ser explorada, mas acho que ainda não sacaram DE FATO que tem que existir essa sinergia, digamos assim. A cena de São Francisco começou em 1965 desse jeito e deu no que deu no Verão do Amor em 1967, Seattle teve sua vez, Nova Iorque teve sua vez com o Punk em 1970, com o folk em 1690… Por que São Paulo não pode alcançar esse status?

Elisa: Eu não sei! (risos) Acho que talvez fazer a coisa ficar mais forte no “mundo real” do que no “mundo da internet”, fazendo a coisa ficar mais atrativa em termos de público… de repente com formas mais eficazes de divulgação de eventos… Isso pra coisa ficar mais interessante em termos de experiência com a música, e também para fazer circular dinheiro nesses meios, né. Mas então,em 1965 não tinha internet! Agora o cenário é completamente diferente de antes… sei lá o que vai acontecer!

Victor: Mas que dá pra mudar, dá…

– E vocês acham que a internet pode ajudar a fortalecer essa cena, se usada corretamente?

Elisa: Eu acho que sim, com certeza! Olha só o que estamos fazendo agora, conversando pela internet, para um blog da internet… ?

Antiprisma

– Como é o processo de composição de vocês? O que os inspira?

Victor: A inspiração vem de tudo quanto é jeito. Um dia desses eu pensei numa música inteira enquanto dormia, tentei lembrar e saiu só um riff… não sei como o Paul McCartney consegue lembrar de músicas inteiras! Muitas vezes a Elisa faz uma melodia e dá nomes provisórios como “A do deserto”, “A música da pedra”, e então a gente tenta imaginar um cenário em torno daquela melodia. Talvez por isso muitas das nossas músicas sejam bem visuais, em termos de letra. Aliás, “Êxodo”, que está no nosso álbum é “A do deserto” (risos). Em vários casos eu estou brincando com a guitarra, a viola ou violão e sai logo de cara uma estrutura inteira. Não existe bem uma fórmula pra compor, é algo bem aleatório. Às vezes você pega um pedaço de uma música descartada há cinco anos atrás e junta com uma letra que fez em 15 minutos e acaba dando certo.

– Quais são os próximos passos da Antiprisma?

Elisa: Agora que lançamos o álbum “Planos para Esta Encarnação”, e logo teremos cópias físicas, vamos trabalhar na divulgação desse disco com shows e talvez em breve uma turnê pelas cidades por aí

Victor: Agora a gente pretende tocar o máximo possível, divulgar nosso álbum ao máximo. Em breve deve sair mais vídeos nossos e outras coisas. O álbum e o EP será vendido em CD, então, quem quiser é só entrar em contato com a gente na nossa página! Aliás, vamos vender um kit com os dois CDs juntos com uma embalagem especial feita por nós mesmos, e a gente garante que tá bonito! Também estamos querendo estruturar novas músicas pro próximo álbum já, a gente não quer perder o ritmo. Já temos mais de 20 músicas pra mexer e uma porção de ideias na cabeça. O futuro está em aberto e estamos felizes com o caminho que está aparecendo pra nós. Fizemos recentemente nosso primeiro show num SESC, o da Vila Mariana, e a gente quer continuar nessa toada, viajar pra outras cidades… Enfim, queremos conhecer pessoas e passar coisas boas pra todo mundo.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Victor: Tem bastante coisa legal por aí, né? Alambradas, Molodoys, Leavn’, Benjamin, Arthur Matos, Vitreaux, Sara Não Tem Nome, Pastor Rottweiler, Van der Vous, Mais Valia… Muita coisa diferente e muita qualidade. Wallacy Willians também!