Construindo Leila: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

Construindo Leila: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

23 de maio de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o a banda de Campinas Leila, formada por Bruno Trchmnn no electro-saz e Waldomiro Mugrelise na bateria.

Mattar Muhhamed“Mabruk Alek” (do disco “Belly Dance”)
Dificil escolher uma musica do Mattar, meu grande heroi do buzuq. Tem vários videos dele tocando no youtube, alguns em festas que eu gosto muito. Conheci ele logo que caiu um buzuq em minhas mãos e logo foi a primeira referência que encontrei. Essa é uma musica comum de dança do ventre.. As vezes eu escuto um improviso dele só pra conseguir pegar uns 5 segundos pra tocar depois e esses segundos rendem uma musica de 20 minutos. Eu amo esse cara.

Samira Tawfic“Anin El Naoura” (do disco “Anin El Naoura”)
Samira Tawfic é uma cantora libanesa que canta em um dialeto beduíno da Jordânia. Eu conheci ela em um cassete muito tosco, todo saturado, e ainda hoje acho estranho ouvir ela com um som limpo, porque pra mim era muito pesado (risos). Esse som eu adoro que começa com um buzuq, e a voz dela é linda.

Omar Korshid“Enta Omri” (do disco “Tribute to Om Koulsoum”)
Omar Korshid é um guitarrista, a musica é de Umm Kulthum e Mohamed Abdel Wahab. É apenas a introdução da canção original, e é um tema muito famoso. Omar é o rei da guitarra árabe, e como quase todo músico da época era também ator de cinema. Essa é talvez a única música árabe que eu realmente aprendi a tocar (mal).

Sivam Perwer“Yarê” (do disco “Lê Dilberê”)
Sivan Perwer é curdo, canta e toca o saz Por anos suas fitas foram proibidas na Turquia, Iraque e Síria por serem cantadas em curdo. É musica de luta, é muito direta e muito forte, é lirismo de combate. O saz tem esse som enorme na mão dele é só esse acompanhamento, esse disco tem um som grandioso que eu gosto muito.

Sun City Girls“Sev Archer” (do disco “You Are Never Alone With an Cigarette – Singles Vol 1.”)
Sun City Girls é algo sem volta, eu conheci por acaso um disco de singles “You Are Never Alone with a Cigarette” e peguei pelo nome, e quando ouvi foi um choque. Liberdade pra fazer o som que quiser, como quiser, onde quiser. Esse som tem muito das guitarras da musica árabe, mas o SSG é muito mais, free jazz, Vietnã, Marrocos, Kali, Iraque, espaço sideral, passado, futuro, vodooo, tabaco, ranho de camelo e drinks de vinagre. Sir Richard Bishop, Alan Bishop e Chales Gocher, amém. SSG é minha religião.

The Cure“A Forest” (do disco “Seventeen Seconds”)
Eu nunca passei pelo punk na adolescência, isso veio depois. Eu cai direto no post-punk e essa é basicamente a música que eu mais ouvi na vida. Esse som é perfeito, não é nem um som pra mim, é um lugar. As guitarras, e esse pulso que rola. Foda.

Sonic Youth“Bull in the Heather” (do disco “Experimental Jet Set, Trash and No-Star”)
Sonic Youth pra mim é uma obsessão, cada mês um disco diferente é o meu favorito, então tentei escolher um som sem pensar muito. Gosto do espaço nesse som, é esse lance dele ser tão simples e bastante emotivo para o Sonic Youth. Eu só “aprendi” a tocar guitarra porque li sobre as afinações que eles usam e isso me incentivou a afinar como eu bem entendia e tocar como eu quisesse.

Le Trio Joubran & Mahmoud Darwish“Sur Cette Terre – Faraadees” (do disco “A l’ombre des Mots”)
Mahmoud Darwish é o grande poeta da causa palestina, um dos maiores poetas da poesia árabe moderna. Le Trio Joubran é um trio de oud também palestino. Eu conheço a poesia por traduções, não sei nada de árabe. Esse som eu ouvi primeiro solto, sem o resto do disco, tipo uma pedrada.

Victor Jara “El Derecho de Vivir en Paz” (do disco “El Derecho de Vivir en Paz”)
No começo do Leila (quando chamava Para Leila Khaled) a ideia era alternar entre barulho, drone e canções como essa. Essa fase não tem quase gravações, mas quem foi nos shows deve ter visto um instrumental desse som outras canções como “Bella Ciao”. Inacreditável de bonita.

Stereolab“Crest” (do disco “Transient Random-Noise Bursts With Announcements”)
Stereolab pra mim é catarse e emoção, não sei da onde tiram que é uma banda blasé. O primeiro disco, “Peng!” foi o disco que eu mais ouvi na vida. Guitarra, farfisa, socialismo ou barbárie. A letra dessa musica é a minha favorita do mundo “If there’s been a way to build it, there’ll be a way to destroy it. Things are not all that out of control”.

Markos Varvamkaris – “Taxim Zeimpekiko” (do disco “Ta Matoklada Soum Lampoun”)
Markos Varvamkaris é um dos grandes inovadores do bouzouki grego como instrumento solo, não dá pra falar de bouzouki sem falar do Markos. Esse som é um improviso, com uma canção no final. Dá pra sentir o cheiro de cigarro.

Dariush Dolat-Sahi“Sama” (do disco “Eletronic Music, Tar and Sehtar”)
Ele foi um músico iraniano que estudou música eletrônica em Columbia-Princeton, onde esse disco foi gravado. Eu não sei sobre como essas músicas foram feitas, mas tem uma sensação de improviso que eu gosto muito, e essa colagem de sons. Essa é uma referência bem óbvia pro Leila.

Velvet Underground “European Son” (do disco “Velvet Underground & Nico”)
O Velvet pra mim são os bootlegs, eu coleciono (o que com a internet é bem fácil na real). É alto, é livre, as músicas se estendem por 30 minutos. La Monte Young, Ornette Coleman, Bo Didley, tá tudo ai. Um pouco disso está condensado nessa faixa de estúdio. As guitarras do Lou Reed são incríveis, no disco não dá muito pra sacar quão doidas elas são.

Sun Ra“The Night of the Purple Moon” (do disco “The Night of the Purple Moon”)
Difícil escolher um som do Sun Ra, mas esse é do disco que eu mais ouvi. Sun Ra é algo que posso ouvir a qualquer hora, qualquer dia e sempre vai ser exatamente o que eu precisava ouvir. O que eu mais gosto é como parece um som feito com prazer, não é um improviso cerebral e frio nem mesmo agressivo, é livre e solar (sem trocadilho).

Kamylia Jubran & Werner Hasler“Miraat Al-Hijarah” (do disco “Wameedd”)
Kamylia Jubran é uma artista palestina, e uma das fundadora do Sabreen, um grupo palestino renovador da canção árabe e profundamente envolvido com a causa palestina e a luta política. Nesse disco ela canta e toca oud com Werner Hasler, um suíço que entra com os eletrônicos. Eu não sei muito sobre ele, mas esse disco é maravilhoso. Tudo da Kamilya Jubran é incrível, especialmente o oud, mas essa música tem apenas alguns fragmentos do oud e a voz e é muito forte.

Vibracathedral Orchestra“Magnetic Burn” (do disco “The Queen of Guess”)
Vibracathedral é um grupo de improviso (eles dizem que são mais jams que improvisos na verdade) de Leeds. Eles gravam tudo que tocam e lançam boa parte disso. Um tempo atrás eu tinha até medo de mostrar essa banda pra amigos e ser acusado de plágio, mas tanto faz, sou obcecado por eles.

The Sisters Of Mercy“Temple of Love” (do disco “Some Girls Wander by Mistake”)
Eu disse que caí direto no gótico. Falam que é brega, mas é inveja. Olha esse som, é tipo uma cascata de veludo, como fizeram isso? Se eu fizer algo com um terço dessa textura eu fico feliz. A forma é legal também, esse riff em loop e esses eventos que vão acontecendo em volta. “Temple of Love” é meu “Blitzreig Bop”.

The Raincoats“Only Loved at Night” (do disco “Odyshape”)
Elas trocam de instrumento no meio da música, e tem uma nota que a baixista deixa soando para ter tempo de pegar a kalimba, a guitarrista fica só fazendo um chk-chk e depois tem um micro silêncio e o baixo volta com a linha de guitarra, dá arrepio até.

Colin Newman“But No” (do disco “A-Z”)
Catarse, sempre. Amo esse disco, é pura energia, a forma como esse som vai se construindo. O disco seguinte dele, o “Provisionally Entitled The Singing Fish” é instrumental e poderia ter mais a ver falar dele pelo lance de não ter vocal, mas o que me pega mesmo é a catarse desse som, essas melodias bonitas que ele vai empilhando e depois grita em cima essa letra meio mantra até não poder mais e fim.

Umm Kulthum“Zalamna El Hob Desk” (do disco “Zalamna El Hob”)
A diva do cairo, a voz do egito, o planeta do leste. Eu poderia escolher qualquer musica dela, conhecer sua voz mudou minha vida. Ouvir Umm Kulthum é ouvir uma voz que é amada por muitos, por todo mundo árabe e a diáspora. Essa música talvez eu tenha escutado mais que outras (sim, ela tem 39 minutos e isso é até curto para ela, suas apresentações duravam em torno de 4 ou 6 horas) porque caiu primeiro em minhas mãos, e alguns trechos ficaram gravados na minha mente, em especial alguns que eu sampleei e fiquei trabalhando por horas colando e cortando ouvindo em loop e tocando em cima.