Ciça Bracale (Gomalakka) e Dija (Loyal Gun) unem forças no projeto Fragmentos Urbanos

Ciça Bracale (Gomalakka) e Dija (Loyal Gun) unem forças no projeto Fragmentos Urbanos

29 de junho de 2020 0 Por João Pedro Ramos

Fragmentos Urbanos é um duo formado por Ciça Bracale (voz e letras) e Dija Dijones (arranjos). O projeto também conta com Rita Aprile e Bruno Pinho na produção visual e musical, respectivamente, e integra o “Paisagens Anônimas” – criado anteriormente por Ciça – cuja poética e proposta audiovisual parte de uma pesquisa sobre a relação entre identidade e metrópole.

Cada single, elaborado de maneira lo-fi e à distância durante o ano de 2018, vem acompanhado de um clipe com linguagem complementar à sua proposta lírica e instrumental. O primeiro single é “Apneia”/“Precipício”, seguido de “Coisas Belas”/”Insone” e “Lonely Soul”/”No Happy End” e seus lançamentos ocorrem via Howlin’ Records.

  • Como a quarentena ajudou a surgir esse projeto e como você chegou no Dija?

Na verdade, esse projeto surgiu em 2018. Um periodo em que me sentia bastante sufocada pela rotina e rolava um autoisolamento social por me sentir eagotada, exausta. Estava trabalhando 10 horas por dia para mal pagar minhas contas, tinha uma bebê com menos de 2 anos que mal via e quando via estava esgotada. Eu tinha sumido de mim mesma nesse loop infinito das obrigações e não conseguia respirar. Respirar pra mim sempre esteve ligado ao poder de criar algo. E no meio disso, resgatei canções antigas muito pessoais, guardadas pra mim. E comecei a compor nas mínimas horas livres que tinha. Fiquei com vontade de transformar aquelas bases rudimentares, ou ideias poéticas de musica, em canções materializadas. Readquirir o poder criativo. Respirar. E no meio dessa vontade, não lembro bem como, encontrei com Dija socialmente e comentei. Ele estava em casa por um período antes de começar os shows com Odair. Disse que ia dar uma olhada. E em 3 meses tínhamos estruturado uma demo com 12 músicas.

Fizemos tudo à distância. Com os recursos disponiveis. Eu enviava os arquivos e registros originais, ele montava a base me devolvia, eu gravava as vozes com foninho de celular na hora do almoço, devolvia pra ele e ele fechava a mix. Daí que essa produção ficou engavetada, esperando a gente entrar em estúdio e isso nunca aconteceu. cada um seguiu com seus projetos, eu lançando disco com Gomalakka, ele com os projetos dele também lançando com Loyal Gun, etc. Chegou então a pausa forçada da quarentena e de certa forma, revisitei alguns sentimentos que eu tinha quando comecei o projeto e pareceu o momento certo pra lançar esse material, dessa forma mesmo, sem recurso, da reclusão e possibilidade de cada um, mesmo porque as músicas que escolhemos pra fechar o Fragmentos Urbanos, que são a princípio 6, de alguma maneira dialogam com as energias que tão rolando. O primeiro single duplo que lançamos pra abrir o projeto, apneia e precipício, por exemplo, falam muito de respirar, se perder, etc.

  • Só você e o Dija estão envolvidos neste projeto ou tem mais gente?

Fragmentos nas composições e arranjos somos Dija e eu, na poética visual Rita Aprile e eu, na produção musical, Dija e Bruno e no planejamento e divulgação, nós 4.

  • Porque apostaram na crueza?

Mais do que uma aposta, foi assumir que era o que dava para fazer neste momento. Acho que a aposta foi no momento. Sentimos que havia um contexto onde apresentar esse conteúdo cru de maneira poética. Além disso, da mesma forma que em 2018 havia sido um respiro nos debruçarmos nessa produção, agora vem também como um alivio pra esses tempos paralisantes. Estruturamos a apresentação do Fragmentos como uma narrativa com 3 capítulos, lançados a cada 15 dias junto com um videoclipe caseiro também. Isso nos mantém ocupados com coisas positivas, propositivas.

  • Como foi pensada essa separação em capítulos?

Quando decidimos lançar este material, fizemos uma escuta de todas as faixas e acabamos separando 6 que dialogavam entre si. Então, como havia a ideia de uma narrativa ligada a um clipe poético, teve essas conversas com a Rita Aprile da Howlin que tocou essa parte mais gráfica, pensamos numa coisa quase graphic novel, de ter um fio condutor. este fio condutor é muito pessoal, mas organizamos os lançamentos com single duplo, pensando em 3 lançamentos. O primeiro parte dessa situação, dessa angústia atual. A apneia, o precipício, onde não vemos o fim.

Agora dia 01 lançamos o Capítulo 2: “Coisas Belas” + “Insone”, que apresenta um certo alívio, diante do Capítulo 1, fala sobre coisas que nos mantém em pé, e outros motivos melhores para perder o sono do que os atuais, mas já adianta na última frase de “Insone”: eu ia ser feliz… No Capítulo 3, são 2 músicas em inglês: são canções que fiz durante os últimos 10 anos, período que passei alguns anos fora, onde compor em inglês fazia bastante sentido porque eu falava esse idioma constantemente, essas músicas são daquela época. E temos “Lonely Soul” e “No Happy End” que fecha essa entrega e são bem autoexplicativas.

  • E como chegaram ao nome Fragmentos Urbanos?

Desde 2005, desenvolvo uma pesquisa artística pessoal cuja poética e proposta audiovisual traz reflexões sobre a relação entre identidade e metrópole. Foram temas de meus trabalhos de graduação e pós e é um foco de interesse pessoal. De alguma maneira, essa poética se reflete também nas canções resultantes deste período, e a essa pesquisa dei o nome de Paisagens Anônimas.

Quando apresentei as músicas pro Dija, tinha o intuito de inserir esta parceria dentro do projeto Paisagens Anônimas. Iniciamos o processo de composição conjunta, porém, o projeto foi ganhando dinâmica e identidade próprias e acabou desenvolvendo-se sob uma narrativa específica. Então, quando decidimos lançar, pensamos em um nome que tivesse relação com essa origem e nos decidimos por Fragmentos Urbanos, como parte de algo, e também pelo caráter de ser pequenas crônicas pessoais, como fragmentos de textos.

  • Quais são as principais influências nesse projeto?

Entre as referências musicais e visuais presentes, podemos citar Mazzy Star, Radiohead, Pixies, Cocteau Twins, Cranberries, Slowdive, My Brightest Diamond e diversos outros artistas.

  • Esse projeto vai continuar ou é algo de um disco só?

Olha, por enquanto estamos trabalhando com a ideia de que Fragmentos é essa entrega. Mas nunca fechamos a porta para novas cocriações, principalmente porque nesse tempo conseguimos construir uma dinâmica boa de parceria, e também com os parceiros dessa reta final, Pinho e Rita . Vamos ver o que nos espera. Não estamos traçando planos, mas não fechamos a porta tampouco.

Nesse momento de total incerteza quanto ao futuro, não conseguimos prever nada e o dia a dia da quarentena tá bastante puxado, pra quem tem filhos e casa + trabalho. É um projeto feito de casa, mas não uma casa ocupada 100% do tempo, por demandas diversas e habitantes. Então fica mais complicado criar algo na impossibilidade de estar sozinha por 1 hora que seja, pois estamos em casa todos juntos. Estamos muito satisfeitos com os passos que demos até aqui e como as pessoas têm recebido o trabalho, entendendo o contexto da produção lo-fi.

  • Já que falou nisso, como você descreveria a experiência de continuar trabalhando com música após ser mãe e ter muitas outras responsabilidades e prioridades?

Essa é uma questão bastante complexa que envolve diversos matizes, vou tentar ser sucinta. A primeira coisa que posso dizer é que a escolha por continuar na música foi uma necessidade no primeiro momento de resposta a um entorno, seja família, outras bandas, amigos, de que parir não era parar, pois não foi difícil escutar: “Ah, agora então terminou, né”. Enfim. Claro que não foi fácil, porque tudo muda da noite para o dia e tem uma coisa que pouca gente se liga, que tem o nosso luto também. Temos que lidar com o luto da mulher que deixamos de ser de um segundo para outro e construir a nova mulher, que não está pronta ao mesmo tempo em que te entregam nos braços uma vida para ser cuidada do zero. Pode ser aterrorizante , além de bastante solitário, sem falar na parte que todos imaginam, que é exaustivo. Então, durante os 3, 4 primeiros meses de vida, existe esse processo e pra você, como mulher, continuar ativa intelectualmente, além do seu próprio esforço, é fundamental o apoio que tem nessa jornada, a famosa rede de apoio. Tenho uma certa sorte de fazer parte de uma banda cheia de filhos, em que todos entendem a prioridade, sem precisar explicar muito. Mas no cenário da música independente, não tem tanta diferença pra como a sociedade está estruturada, em que o indivíduo criança não é tido como cidadão, que tem o direito de usufruir dos espaços e acontecimento da sociedade. E muitas vezes, inclusive é tido como um estorvo mesmo. Um “problema”, coisas como a que vimos nesse desastre recente do menino Miguel. O primeiro show que fiz, Flora tinha 6 meses de vida, foi no Breve e eles disponibilizaram o andar de cima, para que eu pudesse amamentá-la antes e depois do show. Minhas amigas ficaram com ela enquanto eu cantava. Esse é o cenário ideal. Mas nem sempre encontramos essa estrutura , que é mínima, de acolhimento às mães e amigos dispostos a entender que seus horários são diferentes, mas a importância do que você produz não é menor. Eu diria que pelo contrário, porque quem tem algum dependente, não tem tempo pra perder, precisa medir muito a energia que gasta com coisas sem importância. Nesse sentido acho que a Gomalakka se profissionalizou mais, ensaios com hora para terminar, mais focados, processos com menos gasto de dinheiro possível, acertar agenda meses antes, para que todos pudessem se estruturar, etc.

Mas não é simples. Tenho a sorte também de que o pai da Flora também é do mundo da música e entende horários de ensaio, etc. Mas não sei como uma mãe sola ou uma mulher com um/a companheiro/a que vê a música como um hobby enfrentaria essa questão. aí entramos em camadas de discussão sobre os papéis destinados à mulher mãe, pelo machismo estrutural também. O que posso dizer desde a minha experiência é que , mesmo com a rede de apoio, com a banda cheia de filhos, parar sempre seria mais “fácil”, na dinâmica do dia-a-dia. Mas jamais seria fácil no sentido de preservar meu papel como mente intelectualmente ativa. Eu espero que Flora no futuro veja que eu continuei criando, preservando uma parte essencial do que sou, apesar de todo o jogo de cintura exaustivo pra se manter nisso.

  • As letras deste projeto são de diversas épocas ou são coisas que você tinha composto em um momento só de sua vida?

São de diversas épocas. “Apneia”, por exemplo, lembro de tê-la escrito dias depois do assassinato de Marielle Franco. Já “Coisas Belas” é de 2014, “Insone” de 2010, “Lonely Soul” de 2008, são todas destes últimos 10 anos da minha vida. Que engloba muitas coisas, mudança de país, solidão, casamento desfeito, recomeços, esperanças e frustrações, tudo influenciado pelas mudanças do contexto político e social da última década que bateu forte em como sentimos e como nos reconhecemos ou não dentro desse novo cenário.

  • Ou seja: este projeto faz um belo panorama de sua visão de todo este período.

Não se se podemos considerar tão abrangente, porque, enfim, são como o próprio nome diz, fragmentos. Pedaços de histórias vividas. E histórias muito pessoais, de um período longo, 10 anos ou mais, onde o que eu era ou desejava há uma década atrás, mudou muito de como vejo o mundo hoje em dia. Acho que podemos pensar em pedaços de uma narrativa ainda em construção. Agradeço demais a parceria do Dija que me ensinou muitas coisas não só de refs musicais como questões técnicas de gravação e produção. E à disposição criativa, inventividade e incentivo sem amarras da Rita Aprile e do Bruno Pinho.