Chico Salem promove uma verdadeira festa da música brasileira em seu segundo disco, “Maior ou Igual a Dois”

Chico Salem promove uma verdadeira festa da música brasileira em seu segundo disco, “Maior ou Igual a Dois”

23 de março de 2016 0 Por João Pedro Ramos

Ao longo de seus 20 anos de carreira, o guitarrista Chico Salem já tocou com muita gente talentosa como Arnaldo Antunes, com quem toca desde 1999, Karina Buhr e muitos outros. É claro que ele não deixou os dois de fora de seus segundo disco solo, “Maior ou Igual a Dois”, que foca em encontros musicais e diversas participações especiais.

Produzido por Guilherme Kastrup, a extensa lista de participações do disco conta também com Fernando Catatau, Guizado, a cantora portuguesa Manuela Azevedo (da banda portuguesa Clã), a banda Bixiga70, Marcelo Jeneci, Curumin, Luciana Barros, Luê, Zeca Baleiro, Gustavo Ruiz, Fábio Sá, Thiago França, Márcio Arantes, Caetano Malta, André Lima, Danilo Moraes, entre tantos outros. Muita gente? Talvez, mas esta é a intenção: celebrar todos os encontros que Salem já teve e que acrescentaram (e muito) em seu trabalho e inspiração.

Conversei com Chico sobre o disco, a vida “nômade” dos músicos e o cenário atual da música brasileira:

– Chico, me fale um pouco mais sobre quem está nesse seu novo disco?
O “Maior ou igual a Dois” é uma festa. Uma celebração. Depois de quase duas décadas de carreira circulando e conhecendo gente eu resolvi abrir a porta do meu estúdio e convidar amigos queridos pra celebrar. São compositores, instrumentistas, cantores, todos trazendo um pouco do seu particular pra formar esse coletivo. É um disco de parcerias e encontros.

– O que te levou a criar um disco focado nas parcerias musicais?
Basicamente, o meu desejo de investigar o que acontece quando dois ou mais corpos se encontram. E o que emerge desse encontro.

– Quais foram suas maiores influências para este disco?
O disco veio chegando assim, devagarzinho. Sem uma referência clara que estivesse norteando o processo. Agora, inevitavelmente, me inspiram muito alguns projetos coletivos. Desde bandas que eu admiro muito como Pink Floyd e Novos Baianos, até encontros mais específicos, como Tropicália e Tribalistas.

– Quais são suas principais influências no seu instrumento?
São inúmeras. Posso passar o dia listando referências que me guiaram na minha relação com o violão e a guitarra. Gil, Rafael Rabello, Paco de Lucia, Chico César, João Bosco, David Gilmour, Edgard Scandurra…. Não acaba nunca…. (risos)

Chico Salem

– Como você começou sua carreira?
Em 1994 eu montei, ao lado de Danilo Moraes, minha primeira banda. Já era um trabalho autoral, onde percorríamos um circuito estudantil apresentando nossas canções e releituras de compositores que admirávamos. Sempre procurei mostrar minhas composições. Em 1999 fui convidado para integrar a banda do Arnaldo Antunes, e as coisas tomaram outro rumo. Passei a me dedicar mais a carreira de instrumentista, ainda que em 2002, eu tenha lançado meu primeiro disco, o “01”. De lá pra cá, muitas coisas aconteceram, e um leque de possibilidades se abriu. Trabalhei em estúdio, TV e teatro, sempre paralelo aos show com o Arnaldo. Agora, depois de 14 anos do lançamento do meu primeiro disco, se tornou urgente botar o “Maior ou igual a Dois” no mundo, e tem sido esse o movimento.

– Você já tocou com um mundo de gente, sendo muitos deles artistas conhecidíssimos e muito talentosos. Como é para você essa vida meio “nômade” de músico?
Minha profissão exige que eu esteja onde o público está. É assim. E isso é muito dinâmico. Eu sempre gostei de estar no gerúndio. Indo, chegando, saindo… Mudei de casa dezenas de vezes ao longo da minha vida. Eu amo viajar e estar cada hora em um lugar. Me faz bem. Como tudo na vida, tem mais de um lado e, principalmente depois que me casei, tive filho, isso se também é um desafio. Mas sou muito apoiado e acolhido pela minha família nessa escolha de viver dessa forma.

– Com quem você ainda gostaria de trabalhar na música brasileira? (E, porque não, na internacional?)
Eu tenho o privilégio de trabalhar com a minha maior referência na música e na arte, que é o Arnaldo Antunes. Um ícone. Mestre. Mas eu queria trabalhar com tanta gente também…. Assim, com projetos como o “Maior ou igual a Dois”. Fazer um disco com o Gil, Caetano. Gravar com Gilmour. Ser gravado pela Gal. Fazer um dueto com Marisa Monte. Compor o um samba com Chico BuarquePaulinho da Viola…. Não acaba nunca essa lista!

– Me fale um pouco mais sobre as letras do disco. Quais foram as inspirações para elas?
O disco fala de encontros. Fala de mim. Fala de amor. De desamor. Dessa atmosfera mais relacional. Além de mim, o disco tem letristas variados, então também fotografa maneiras diferentes de falar da vida. Sinto que tenho escrito de uma maneira mais direta ultimamente, com menos subjetividade. Buscando ir mais rápido e direto ao assunto.

Chico Salem

– O que você acha da cena musical atual no Brasil?
Acho que a cena está rica e abundante. Em qualidade e quantidade de produção. O que trava um pouquinho o fluxo é um sentimento meio generalizado de escassez que as vezes faz com que cada um fique muito preso ao seu quadrado, tentando garantir o seu. Acho que se as pessoas se articularem e agirem mais colaborativamente a cena esquenta mais ainda e tem espaço pra todo mundo trabalhar. Uma cena quente é algo bom pra todo mundo.

– Recomende bandas e artistas que você acredita que todo mundo deveria conhecer, mas ainda não são divulgados como deveriam.
Tem um cara que chama Chico Salem, muito interessante (risos). Tenho ouvido muito o Pélico, a Vitrola Sintética, Gustavo Galo, Danilo Moraes, Alessandra Leão…. Enfim… Vai rolar uma injustice se eu sair citando. Porque tem muita gente boa com discos lindos.
Acho que vale estar sempre antenado. O acesso nunca esteve tão fácil…