Cantarolando: os climas pesados de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones (1969)

Cantarolando: os climas pesados de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones (1969)

11 de julho de 2017 0 Por Elisa Oieno

Cantarolando, por Elisa Oieno

O ambiente da clássica “Gimme Shelter” é tenso. Uma eletricidade estática no ar, um clima carregado como naqueles momentos antes de cair uma tempestade. Também pudera, já que os tempos estavam começando a ficar sombrios: era o auge da Guerra do Vietnã, a garotada estava sendo convocada pra morrer, protestos violentamente reprimidos ao redor do mundo.

Esse contexto geral influenciou o mood do disco “Let it Bleed”, mas também havia o clima interno da banda, que estava meio pesado com a expulsão de Brian Jones em razão de sua deterioração física e psicológica por conta do abuso das drogas. Um mês após sua demissão, Brian Jones morreu – ou foi assassinado, como alguns afirmam.

Para coroar, no fim daquele ano ocorreu o Festival de Altamont, que reuniu alguns dos principais artistas da época e uma multidão de jovens. A intenção era ser como um outro Woodstock, mas algo havia mudado. O clima não era mais de paz e amor, era de revolta e desilusão. Estava carregado de tensão e hoje o festival é mais lembrado como um evento violento e trágico. Durante os shows estavam surgindo diversos focos de brigas e confusão. Até que no show do Rolling Stones, um rapaz que supostamente estava armado foi espancado até a morte pelos seguranças – aliás, a segurança era feita pelo grupo de motoqueiros Hell’s Angels, conhecidos pela conduta violenta… alguma merda ia dar, né. Além da morte desse rapaz, houve um atropelamento e um afogamento durante o festival.Resultado de imagem para rolling stones altamont 1969

Mas, além do cenário apocalíptico, das imagens violentas e do clima tenso e elétrico de Gimme Shelter, a gravação desta faixa também tem uma peculiaridade sombria, especificamente na desoladora e brilhante performance da cantora de soul Merry Clayton, que canta o refrão da música.

 

Merry foi chamada por acaso para a gravação dos vocais, no meio da madrugada. Eles precisavam uma voz feminina para o refrão e a cantora que queriam não estava disponível. Mesmo estando em um estágio avançado da gravidez, ela aceitou. Apareceu no estúdio com bobes nos cabelos e um barrigão, terminou a gravação em apenas três takes. Queria voltar logo para casa e dormir, e entregou uma performance de deixar o queixo caído. Neste áudio isolado dos vocais, dá para ouvir os Stones impressionados no estúdio.

Porém, pouco depois de voltar para casa, Merry sofreu um aborto espontâneo, o que a fez passar por um período extremamente difícil. Ela afirma que passou anos sem conseguir ouvir a Gimme Shelter, após alguns anos acabou superando o trauma e até passou a cantar sua própria versão de Gimme Shelter, a canção que a fez famosa.

Merry Clayton fez sua carreira como cantora de suporte de diversos artistas como Ray Charles e Carole King, sendo uma voz muito reconhecida. Está na ativa até hoje, porém desde 2015 se recupera de um acidente de carro que a fez ter suas duas pernas amputadas. Pesado.


“Gimme Shelter” é totalmente conectada com o que estava acontecendo ao seu redor quando foi escrita, tanto que é tida como um dos símbolos do fim da era hippie “paz e amor”. E ainda permanece impactante, como uma canção clássica consegue.